16 maio, 2007







Durante muito tempo desgovernei-me em pânico, encostava o mais que podia o automóvel à direita nas filas de trânsito, parava e afastava-me o mais que podia para respirar.

Quando entrava num centro comercial era certo que minutos depois toda aquela movimentação, o pesadelo de cores, cheiros e decibéis elevados, fazia-me perder a noção com o pânico a emergir á porta da loucura. Também no cinema a inquietação apoderava-se e raras vezes terminava os filmes, mais centrado na minha respiração e nos suores frios que me toldavam o corpo.

Aos poucos eu e a vida e a vida comigo, mais a alma que resolveu encher e o coração que avisava, ensinaram-me a distinguir e a ver com olhos de falcão, assim como uns abanões no esqueleto que não permitiram que fosse imolado em lume brando.

Não raras vezes senti pontapés na consciência.
Dirigia-me ao espelho mais próximo para visualizar o que se passava por aqui, mas como é óbvio a consciência fechava-se numa concha e não deixava vislumbrar para dentro de si.

Passei anos a viver naquele limbo entre a saúde e a doença, a alegria e a tristeza, o choro e o riso, o melhor e o pior, o mais e o menos, o deve e haver, o quando e o já, o agora e o depois, a lágrima e a esperança, o tormento e a candura, a revolta e o amor.

Mais tarde passei a estar como quem reza a oração da noite e se deita depois de consciência tranquila, acordava rejuvenescido.
Tentava despovoar a mente de sonhos e pesadelos para que o sono fosse feito de um trago só.
Quando o corpo pendia para a preguiça, uma voz de dentro gritava:

- Levanta-te, que a alma não dorme…
- Mas se não dorme, como faz para descansar? - Perguntava eu
- A alma faz vigílias por ti. Quando estás tranquilo, ela aproveita e descansa… Neste caso estou aqui faz tantas horas, que me doem os pés…
- Devias ter asas onde tens os pés, talvez assim pudesses partir em auxílio mais rapidamente...- retorquia
- Tens de saber respeitar esta alma que bate calorosamente e em angustia por ti. Vá, salta daí, respira fundo e vida p´ra frente…!

Fui rabiscando e guardando pedaços de papéis envelhecidos pelo tempo, qual sovinice de um devoto ás coisas escritas.
Algumas interessantes outras nem por isso.
Serviam essencialmente para transcrever tormentos, soluços, saltos em espiral e mergulhos em queda livre.
Assim fui treinando corpo e mente, num misto de pensamentos e derivados de palavras, não passando disso mesmo, palavras, mas que sei as cinzas nunca as vão consumir.

São apenas palavras, gestos de mim, coisas simples que fazem descongelar outra voz que vive em mim.
Palavras que cantam sem voz que riem sem boca e choram sem lágrimas, num composto perfeito ou desmedido e que jorram em catadupa quando menos se espera.
Não cruzo qualidades, perfeições ou deformação, vou deixando que se espalhem no papel, sem qualquer nexo ou causalidade, nem interesses preconcebidos.

Sei que este tempo é um tempo imperfeito.
Um tempo sem tempo, que se separa de nós, e que demoramos a reencontrar, se alguma vez isso acontece.
E dedicamos espaço e pensamento àqueles a quem dedicamos pouco tempo, outros, tempo demais.
Frases que não entendi, olhares que demorei a decifrar, preces que mais pareciam confissões, sorrisos que mais pareciam lágrimas.
Abraços embrulhados em cianeto, elogios que se escondiam em defeitos, rasteiras vestidas de cetim, afastamentos que diziam bem-vindo, sombras que brilhavam no escuro, mas uma permanente segurança que não desarma.
Perdemos tempo em batalhas inúteis, contabilizando erros ou acertos, havendo menos espaço na coluna do haver e mais esgotada a coluna do dever.

Mas esta realidade passa por muitas provações.
Somos Plebeus, Príncipes, Super-Homens, Lancelot´s, Robin dos Bosques, Pateta, Pato Donald, Palhaço, Urso, Gato, etc.
Vamos transformando e variando a máscara ou adaptando ao longo do percurso, ou então não deixamos mesmo que nos vistam essas roupagens e mantemo-nos à tona de água com toda a dificuldade inerente a quem não consegue nadar em águas profundas.

2 comentários:

olhos grandes disse...

Vai-se a ver e na volta somos todos iguais, não é? Os mesmos medos, os mesmos sonhos, as mesmas incertezas. As mesmas dificuldades em viver a vida de uma forma rectilínea e simples. Mas uma vida rectilínea, direita, chega mais depressa ao fim. Umas reviravoltas pelo caminho podem-nos fazer ver as coisas de outros ângulos, com outras cores. Eu gosto de ver a parte de trás da vida, de perder algum tempo a pintar a existência com as cores e o brilho dos sonhos. Mesmo quando isso me faz esbracejar de cansaço e impotência à tona da água. O tempo é o mesmo, mas fica maior.

DOC disse...

Ainda que possamos crer-nos tão fortemente 'cheios", estamos somente cheios de nós próprios, o que, bem pelo contrário e através do nosso delírio, nos torna absolutamente incapazes de nos ocuparmos verdadeiramente da natureza de qualquer outra coisa. Desde o princípio, é incapaz de uma visão objectiva do outro, de um 'entrar nele'; ao invés, é um entrar profundo em nós mesmos, é a solidão mil vezes multiplicada, mas uma solidão em que parece ampliar-se a própria solidão, como se estivesse rodeada de mil espelhos resplandescentes num mundo que abraça tudo.