Mensagens

A mostrar mensagens de Junho, 2007
Imagem
Fumava cigarros atrás de cigarros, sorvendo a bica como se tentasse travar o mesmo fumo.
Os dedos amarelecidos vincavam bonecos feitos de papel jornal como um novo brinquedo.
Enlouquecido pelo tempo e pela vida, arrasta penosamente alguns quilos de ossos pela calçada desde os 43.
- "Mal de amores" - dizem uns...
- " São os demónios que o atacam" - Dizem outros...
Ninguém se entende na duvida, mas o povo tem sempre opinião...

Fala baixo, quase não se houve numa voz fraca e arrastada.
Os cabelos confundem-se com a barba e escondem uns olhos azuis profundos que já foram belos.
Enquanto olha e vagueia o olhar, vai debitando coisas sem nexo, alguns insultos aqui e ali, como se um punhal cravasse.
- "... nunca foi puro...coitado..." - Diz o povo
Empurrado pela circunstância e afastado pelos homens, vai cambaleando a sua sorte em desnorte.
Já teve com quem falar no meio da solidão... hoje não.
Já deu nome às coisas que não o tinham... hoje não. Tem a vida ao contrário e as p…
Imagem
Saí de mim.
Quem não sai de si?
Extrapolei-me, saltei fora. Desvaneceu-se a emoção da partida num gesto brusco mas cuidado.
Parti de mim sem amarras, libertei-me devagar, desligando-me do processo de alta rotatividade a que todos estamos submetidos.
Liberto os sentidos adensados em partes dormentes do meu corpo, na esperança que façam luz sobre esse torpor em que mergulha o espírito... deixando-os fluir devagarinho, para não doer demasiado, pois sei que vêm impiedosos, trazer-me á realidade...
Procuro na biblioteca da vida pedaços de outrora.
Aqui as palavras ficam, intemporais, presas a sussurros, gritos interiores, espaços em branco ou reticências.
O desencontro, a incompletude, o extemporâneo, a pesquisa enrolada em mantas quentes de lã.
Salto fora de mim e percorro regressos já vividos outrora.

Quão louco serei? Numa medida desmedida?
- Não mais que um outro que se julga puro, casto e são.

Regresso então ao aconchego do corpo feito adulto, incrustado em pedras de jovem com pinceladas de algu…
Imagem
- Porque choras Mafalda?
O Sol rasgava as pedras brancas da calçada. Os dias tinham parado e ouvia o bater morno do coração.
Cheiros fortes de café, flores abertas ao tempo e um aroma de paz.
Sobravam risos de criança e gaivotas esvoaçavam recortando um céu infinitamente azul.
Já pouco me sobrava.
- Porque choras Mafalda?
Faz tempo sentia a vida a sair-me pelos poros com alegria solta e incontida.
Um riso e um arrepio.
Socalcos nas montanhas da memória faziam-me recuar no sorriso que a alma transbordava.
Sobravam bocados soltos no caminho, como se fosse um vestido demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
E rangem-me pensamentos como uma tábua de soalho envelhecida, que piso e repiso, dias, meses, anos a fio… (mas porque razão me lembrei agora da tábua do soalho que range)?
Tenho por dentro de mim uma chuva que percorre todos os caminhos, mesmo os inimagináveis.
Quem sabe os pingos desta chuva que se entranha, não percorre as tábuas deste soalho envelhecido que gemendo faz…