26 junho, 2007



Fumava cigarros atrás de cigarros, sorvendo a bica como se tentasse travar o mesmo fumo.
Os dedos amarelecidos vincavam bonecos feitos de papel jornal como um novo brinquedo.
Enlouquecido pelo tempo e pela vida, arrasta penosamente alguns quilos de ossos pela calçada desde os 43.
- "Mal de amores" - dizem uns...
- " São os demónios que o atacam" - Dizem outros...
Ninguém se entende na duvida, mas o povo tem sempre opinião...

Fala baixo, quase não se houve numa voz fraca e arrastada.
Os cabelos confundem-se com a barba e escondem uns olhos azuis profundos que já foram belos.
Enquanto olha e vagueia o olhar, vai debitando coisas sem nexo, alguns insultos aqui e ali, como se um punhal cravasse.
- "... nunca foi puro...coitado..." - Diz o povo
Empurrado pela circunstância e afastado pelos homens, vai cambaleando a sua sorte em desnorte.
Já teve com quem falar no meio da solidão... hoje não.
Já deu nome às coisas que não o tinham... hoje não.
Tem a vida ao contrário e as prioridades distorcidas, não conseguindo distanciar-se da loucura, vivendo com ela e para ela.

Joga um permanente passo em falso na direcção do abismo. Não volta atrás, segue para o passo seguinte, baloiçando na linha ténue do que separa o infinito.
Arquitecto de vida perdida sabe que as Igrejas se constróem por naves e absides, sabe da pintura de Chagall, Degas, de Gauguin ou Matisse.

Monocórdico resvala em entendimento passagens intemporais, quase sem nexo, quase sem jeito...

-"Mãe...Mãezinha...” – ouve-se a espaços e a medo quase em segredo.

Falta-lhe essa mão, esse aconchego, esse afago de Mãe.
Um cobertor de afecto que tape toda uma vida .
...Por isso lhe falta a força e o sangue nas veias...... o delírio dos sonhos por habitar, onde com coragem tudo pode acontecer...
... a ansiedade de pressentir um toque, uma mão, uma caricia a todo o instante...
... amor, coração e ar nos pulmões afectados de tanto cigarro mais comido que fumado...
... a paz de espirito ou um espirito de paz que jamais encontrou dentro de si .... o tudo de tão pouco que precisa e nunca teve...

20 junho, 2007






Saí de mim.
Quem não sai de si?
Extrapolei-me, saltei fora. Desvaneceu-se a emoção da partida num gesto brusco mas cuidado.
Parti de mim sem amarras, libertei-me devagar, desligando-me do processo de alta rotatividade a que todos estamos submetidos.
Liberto os sentidos adensados em partes dormentes do meu corpo, na esperança que façam luz sobre esse torpor em que mergulha o espírito... deixando-os fluir devagarinho, para não doer demasiado, pois sei que vêm impiedosos, trazer-me á realidade...
Procuro na biblioteca da vida pedaços de outrora.
Aqui as palavras ficam, intemporais, presas a sussurros, gritos interiores, espaços em branco ou reticências.
O desencontro, a incompletude, o extemporâneo, a pesquisa enrolada em mantas quentes de lã.
Salto fora de mim e percorro regressos já vividos outrora.

Quão louco serei? Numa medida desmedida?
- Não mais que um outro que se julga puro, casto e são.

Regresso então ao aconchego do corpo feito adulto, incrustado em pedras de jovem com pinceladas de alguma idade.
Seja bem-vinda velha carcaça…!
Dentro da rotatividade esperada, bem que não se demorou...
Pequenos saltos num espaço feito tempo em que deixamos partir os sentidos sem sentido algum, pesquisando por dentro de mim e olhando-me por fora num vislumbre da descoberta de quem sou.
Jamais o saberei…!
E agora, quem o sabe?

05 junho, 2007


- Porque choras Mafalda?
O Sol rasgava as pedras brancas da calçada. Os dias tinham parado e ouvia o bater morno do coração.
Cheiros fortes de café, flores abertas ao tempo e um aroma de paz.
Sobravam risos de criança e gaivotas esvoaçavam recortando um céu infinitamente azul.
Já pouco me sobrava.

- Porque choras Mafalda?

Faz tempo sentia a vida a sair-me pelos poros com alegria solta e incontida.
Um riso e um arrepio.
Socalcos nas montanhas da memória faziam-me recuar no sorriso que a alma transbordava.
Sobravam bocados soltos no caminho, como se fosse um vestido demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
E rangem-me pensamentos como uma tábua de soalho envelhecida, que piso e repiso, dias, meses, anos a fio… (mas porque razão me lembrei agora da tábua do soalho que range)?
Tenho por dentro de mim uma chuva que percorre todos os caminhos, mesmo os inimagináveis.
Quem sabe os pingos desta chuva que se entranha, não percorre as tábuas deste soalho envelhecido que gemendo faz vibrar a montanha do pensamento e desbota por dentro todas as cores existentes que em flores se transformavam...

- Porque choras Mafalda?

Tenho por casa livros até á reforma. Livros que jamais lerei.
Mas é mais forte do que eu. Dou por mim quantas vezes a repeti-los e a afastar outros que de belos nem lhes toco.
Existe uma fantasia, talvez uma dança entre mim e os livros.
Cresceram comigo, tal como revistas e jornais e já os sinto como fazendo parte ou pedaços de mim.
Alguns não servem para nada. Ganham pó numa prateleira que fica de frente para uma janela virada a sul. Por vezes, raios de cores mil, penetram sorrateiramente pela vidraça invadindo páginas de saber.
Torna-se belo o momento.
Os dias passam, os meses passam. O tempo inclemente vai deixando as suas marcas. Ficam velhos, estragados pela falta de uso.
Murcharam, ficam cinzentos, caíram no chão sem fazer qualquer ruído.
Leve e suavemente, ela vem com uma pá e uma vassoura e varre-os com toda a delicadeza que o instante permite.
De seguida, pousa aqueles restos mortais numa mesa e coloca-os numa caixa de madeira com umas flores pintadas por cima.
Fechou a caixa e escondeu-a na gaveta dos segredos.

- Porque choras Mafalda?

Sinto frémitos no peito, estalidos nas veias. O cheiro forte a café que chega e me invade corpo e alma.
Aromas de terra nova, fertilizante, água e sol em terra que germina forte.
Já não me sobra muito tempo do tempo que te dei.
Mas quero pisar e repisar essa tábua solta, velha e gasta do soalho que geme, clamando por mim.
Nem que seja a ultima vez...!