05 junho, 2007


- Porque choras Mafalda?
O Sol rasgava as pedras brancas da calçada. Os dias tinham parado e ouvia o bater morno do coração.
Cheiros fortes de café, flores abertas ao tempo e um aroma de paz.
Sobravam risos de criança e gaivotas esvoaçavam recortando um céu infinitamente azul.
Já pouco me sobrava.

- Porque choras Mafalda?

Faz tempo sentia a vida a sair-me pelos poros com alegria solta e incontida.
Um riso e um arrepio.
Socalcos nas montanhas da memória faziam-me recuar no sorriso que a alma transbordava.
Sobravam bocados soltos no caminho, como se fosse um vestido demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
E rangem-me pensamentos como uma tábua de soalho envelhecida, que piso e repiso, dias, meses, anos a fio… (mas porque razão me lembrei agora da tábua do soalho que range)?
Tenho por dentro de mim uma chuva que percorre todos os caminhos, mesmo os inimagináveis.
Quem sabe os pingos desta chuva que se entranha, não percorre as tábuas deste soalho envelhecido que gemendo faz vibrar a montanha do pensamento e desbota por dentro todas as cores existentes que em flores se transformavam...

- Porque choras Mafalda?

Tenho por casa livros até á reforma. Livros que jamais lerei.
Mas é mais forte do que eu. Dou por mim quantas vezes a repeti-los e a afastar outros que de belos nem lhes toco.
Existe uma fantasia, talvez uma dança entre mim e os livros.
Cresceram comigo, tal como revistas e jornais e já os sinto como fazendo parte ou pedaços de mim.
Alguns não servem para nada. Ganham pó numa prateleira que fica de frente para uma janela virada a sul. Por vezes, raios de cores mil, penetram sorrateiramente pela vidraça invadindo páginas de saber.
Torna-se belo o momento.
Os dias passam, os meses passam. O tempo inclemente vai deixando as suas marcas. Ficam velhos, estragados pela falta de uso.
Murcharam, ficam cinzentos, caíram no chão sem fazer qualquer ruído.
Leve e suavemente, ela vem com uma pá e uma vassoura e varre-os com toda a delicadeza que o instante permite.
De seguida, pousa aqueles restos mortais numa mesa e coloca-os numa caixa de madeira com umas flores pintadas por cima.
Fechou a caixa e escondeu-a na gaveta dos segredos.

- Porque choras Mafalda?

Sinto frémitos no peito, estalidos nas veias. O cheiro forte a café que chega e me invade corpo e alma.
Aromas de terra nova, fertilizante, água e sol em terra que germina forte.
Já não me sobra muito tempo do tempo que te dei.
Mas quero pisar e repisar essa tábua solta, velha e gasta do soalho que geme, clamando por mim.
Nem que seja a ultima vez...!









2 comentários:

olhos grandes disse...

belo texto, bela história, a mostrar que a esperança não morre!

Moura ao Luar disse...

Eu gosto de os ler... todos... devorá-los, não suporto vê-los na prateleira sem lhes dar uso. Beijo grande para ti