Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2007

AO DESCONCERTO...!

Imagem
Morava numa rua onde passava um carro de vez em quando, ora sim ora não.
Pregava olho (metaforicamente) quando o jeito dava ou não dava jeito nenhum
Cruzava-se com gente, raramente, ou quase nunca.
Passeava um cão que não conhecia, nem de aspecto nem de raça, nem se existia mesmo.
Abanava as orelhas como ventoinhas e debruava sons esquálidos de cana rachada.
Raramente comia, ou porque não desejava ou não queria, quantas vezes nem o sabia.
As árvores dançavam ora com vento ora sem, dependendo da batida.
As numerações do relógio da torre na rua direita saltavam como pulgas e enfeitiçavam quem olhava.
Atravessava a rua na passadeira, saltando do risco branco para o preto e deste para o branco, no fim após travessia efectuada saltos em marcha-atrás.
Sonhava alto no fim de uma noite mal passada, assim entre o bife do lombo e a entremeada, quando sente um zagalote que lhe rasga o pensamento.
Eram os putos do andar de cima que pisando e repisando em soalhos ardentes com febrão matinal, acordam-no dos…
Imagem
Gosto da minha solidão
Sei que pode ser chato e enfadonho, viver comigo e em mim, apesar de no meio de tanta gente.
Mas adoro a concha que me tapa e protege dos nevoeiros que me cobrem.
Bem tento colocar um bálsamo protector sobre essa concha, mas por vezes não chega. Desligo-me realmente do mundo e de mim.
Tiro literalmente a bateria para não estragar a máquina e fico off.
Houve tempos em que fechava a porta com três voltas e um toque no ferrolho mais uma tranca das grossas.
Janelas bem estanques, luz apagada, uma folha em branco e uma caneta por cima
Imperfeito que sou, irrompe em mim uma mistura de ódio ao mundo e zanga estupidificada por abjectos e estranhos quadrúpedes que cirandam na nossa sociedade e perto de mim.

Sei que não pareço muito normal (?), com esta atitude de atabalhoadamente me divertir diariamente com revistas e livros que vou visitando para além dos papelinhos em que dito leis e ordens numa confusão mental que por vezes me povoa.
Assim tenho feito percursos ziguezague…

Aguenta Coração...!

Saio de casa arranjado, perfumadinho, engomadinho, todo xpto, para trabalhar lá no Hospital Público, como pública é a dimensão do meu emprego.

Atarefado pela desgraçada da vida mais o trânsito na ponte e o ruminante cabeça de abóbora que cuspia partituras com música agarrada aos meus ouvidos, eis que pespego um olhar na boa da Alice.
Boa...!? ... Bem... bom sou eu que me porto que nem um cachorro mimado quando se lhe coça as orelhas.
Ela era um completo terramoto grau 5,5º na escala de mamas apertadas contra um vestido de tule.
Vá-se lá saber porquê, embeiçou comigo (que não sou desajeitado de todo ) mas também não sou nenhuma figurinha dessas de trazer debaixo do braço, qual modelito de revistas sociais.

Por falar nisso, já dizia a minha tia Efigénia, Deus-a-tenha-em-eterno-descanso, que eu haveria de ser um tremoço (... por acaso nunca tinha pensado nesta ligação... tremoço...huummm...).

Mas voltando à boa da Alice, eis que ela dengosa com aquele olhar de dez-prás-seis (coitada, ainda uso…
Imagem
Preferia não te ver… sentindo tão perfeita.

Sonhar-te com o cabelo desgrenhado e sujo, amarrado em rabo-de-cavalo, lábios sem baton, esquecida do creme após o banho e desenfreada como se tivesses as minhas unhas cravadas em ti.

Sentir a tua boca em mim como um doce irresistível, que se prova em textura, revisitando memórias, encontrando a solução de açúcar a mais, ou mesmo no ponto, aferindo da medida exacta de um ingrediente novo.
Contornas-te em mim como um puzzle de peças variadas como variados são os nossos gestos numa onda sem fim.
E inventas jeitos e trejeitos para escapares por dentro de mim e perguntares (como se eu soubesse) o que está por trás das estrelas e o que vai para lá da linha do horizonte.

Distraidamente e enfeitiçado percorro olhares indiscretos por dentro de ti e arranco paixão e desejo e ternura e amizade em aromas equilibrados de giestas.
Vemo-nos em culpas e sentimentos e rodopiamos em dós-menores por ré-maior, embebidos em desejo.
Tomo-te então, em copo de cristal co…
Imagem
Parece que me sinto confinado a um espaço inter-espacial do qual não consigo sair.
Resolvo-me em emoções que não consigo digerir. Enrodilham-se em mim, torturam-me, torcem-me mãos e bloqueiam-me pescoço deixando-me quase imobilizado
Sinto desejo de saltar fronteiras deste mundo, beber todo o oceano de um trago.
As perdas. As perdas que me atormentam e soltam amarras.

Existe gente e espaço incomparável.
Gente que passa por nós de forma sublime, figura esfíngica como Anjo, e que não sendo Deus, será provavelmente um Deus.
Gente que interrompe esta viagem pela vida e que anseio que o “destempo” seja curto para que em tempo se faça de novo.

Por isso abanamos como árvores frondosas em dia de vendaval. Por isso não consigo falar, nem exprimo o que sinto. Por isso choro por cantos e em cantos.
Tenho a língua amordaçada por pedaços de papel colorido e as emoções adormecidas… e a morte, essa negritude que sorrateira e maliciosamente nos bate à porta, entra sem pedir licença, e sem voz, com um gesto sô…
Imagem
Hoje há festa!
Hoje danço contigo, Maria.
Vamos dançar e esquecer quem somos, nesta esquina de rua estreita.
Hoje há festa.
Hoje, um dia qualquer.
Ouvimos um tiro no beco ao lado e alguém tomba no chão de pedra fria.
No restaurante fino do fundo da rua tiram sacos de comida e bebida quase intacta. Alguém apanhou para vender no mercado da sobrevivência.
Barracas instáveis e insalubres, e nós dançamos Maria.
Esquecer o que és, o que somos.
Calcorrear caminhos entrelaçados, e eu, bem agarradinho a ti.
Falavas no selo do carro e na factura da electricidade, no cozido do almoço e eu cheirava-te o perfume no pescoço.
O raio do café que não prestava e a tua atenção que não sai do quadrado em volta.
Sorvo-te o cheiro, a cor e o tempo. Dou-te até “carradas de razão”, mas nem te oiço.
Falas-me na prisão do “Chico da Trenga” e no “Zé da Nora”, os “chutos” no passeio, um-tiro-no-porta-aviões e a chave do Euromilhões.
Rio-me contigo, mas não estou lá.
Percorro-te com os dedos numa dança sem fim e contas-me enred…
Imagem
O sal não lava a alma.
Tinha carro, cão, gato e pássaro.
Um peixinho, quatro pares de botas e um rímel desbotado.
Uma lágrima a três quartos que teimava em cair e o mar que não via faz tempo.
Um saco de roupa, mais um jantar e uma fralda mudada, comida p´ro gato e periquito da vizinha que saiu para férias e deixou-lho sem remorsos.

O sal não lava a alma.
Saiu pela romaria, visitou os primos e foi de França que chegaram as alegrias.
Apanhou o cabelo que lhe tocava nos ombros e vestiu a saia rodada. Estava linda.

Os olhos da populaça viraram na sua direcção e os homens aperaltaram as camisas, coçando os pelos do bigode.
Deixou cão, gato e pássaro, mais o periquito da vizinha que saiu para férias.
Bailou e cantou até que a noite gelada entrou nos ombros despidos.
Do rímel desbotado saltaram dois lindos olhos azuis que faiscavam de alegria e saudade.

O sal não lava a alma.
No regresso deu de caras com o Tó da Jorna e tocaram-se ao de leve numa passagem fugaz de olhares há muito desencontrados.
Tapou os…
Imagem
As palavras perdem-se, algumas nem se dão por achadas, os gestos tocam e encontram-nos.

As palavras atiram-se, mordem, cantam-se e ferem, os gestos apoderam-se, enlaçam remexem-nos e soltam-se.

As palavras esfumam-se, os gestos entranham-se, mas ambas vivem em nós.

As palavras amordaçam, descontrolam, desorientam, um gesto afaga, aquece, prende, recicla e orienta.

Quando as palavras são poucas ou indefinidas, e o gesto se esquece, a imaginação faz o resto!