27 agosto, 2007

AO DESCONCERTO...!
















Morava numa rua onde passava um carro de vez em quando, ora sim ora não.
Pregava olho (metaforicamente) quando o jeito dava ou não dava jeito nenhum
Cruzava-se com gente, raramente, ou quase nunca.
Passeava um cão que não conhecia, nem de aspecto nem de raça, nem se existia mesmo.
Abanava as orelhas como ventoinhas e debruava sons esquálidos de cana rachada.
Raramente comia, ou porque não desejava ou não queria, quantas vezes nem o sabia.
As árvores dançavam ora com vento ora sem, dependendo da batida.
As numerações do relógio da torre na rua direita saltavam como pulgas e enfeitiçavam quem olhava.
Atravessava a rua na passadeira, saltando do risco branco para o preto e deste para o branco, no fim após travessia efectuada saltos em marcha-atrás.
Sonhava alto no fim de uma noite mal passada, assim entre o bife do lombo e a entremeada, quando sente um zagalote que lhe rasga o pensamento.
Eram os putos do andar de cima que pisando e repisando em soalhos ardentes com febrão matinal, acordam-no dos braços de "Morfeu" na altura em que Sandra Bullock lhe caía nos braços.
Até tinha boa impressão dos miúdos, mas a partir daquele dia qualquer coisa travou a simpatia por eles...
Jamais saberá da ínfima possibilidade de ter uma Deusa nos braços...!

23 agosto, 2007











Gosto da minha solidão
Sei que pode ser chato e enfadonho, viver comigo e em mim, apesar de no meio de tanta gente.
Mas adoro a concha que me tapa e protege dos nevoeiros que me cobrem.
Bem tento colocar um bálsamo protector sobre essa concha, mas por vezes não chega. Desligo-me realmente do mundo e de mim.
Tiro literalmente a bateria para não estragar a máquina e fico off.
Houve tempos em que fechava a porta com três voltas e um toque no ferrolho mais uma tranca das grossas.
Janelas bem estanques, luz apagada, uma folha em branco e uma caneta por cima
Imperfeito que sou, irrompe em mim uma mistura de ódio ao mundo e zanga estupidificada por abjectos e estranhos quadrúpedes que cirandam na nossa sociedade e perto de mim.

Sei que não pareço muito normal (?), com esta atitude de atabalhoadamente me divertir diariamente com revistas e livros que vou visitando para além dos papelinhos em que dito leis e ordens numa confusão mental que por vezes me povoa.
Assim tenho feito percursos ziguezagueando desde que encontrei a casa mais vazia, poucos objectos, alguns quadros menos, as minhas pinturas espalhadas e os cachimbos que saboreio, fora do lugar de sempre.

Vou-me construindo solidão enquanto o Inverno povoar de cinzento a minha alma.
Caminho na rua e em cada pedaço de tempo, em cada pedaço de nada, um arremesso de ti.
Foste fantasma na vida e ausente de mim. Falo-te quando conduzo e me conduzo por ti.
Olhas-me do fundo de uma chávena de café numa esplanada do Rio, Milão, Paris ou Londres.
Apareces como post-it agarrada a jornais que folheio e fazes contorcionismo nas montras da Zara.
Espreitei-te na 5th Avenue, no Sacré Coeur, e na Avenida Fiumicino. Veneza já não está igual e o Santini misturou sabores que não consigo recordar.
Afastas-te do Sol que tens por companhia e alimentas-te da Lua que te refresca a memória de mim.
Mantenho a esperança como um sedativo para acalmar as dores que me atormentam, ansioliticos que desprezam a minha existência e um electrocardiograma que dá sinais vitais de ti em mim.
Assim vou povoando as meninges com imagens que guardei.

Deixei-te fotos, filmes, musicas, despojos da guerra em que nunca estive. O cão, esse amigo de tempos invernosos fica no aconchego dos teus braços.
Guarda tudo, não destruas o que era de mim.
Talvez um dia, devagar, embalada em doces gotículas do perfume que amei, olhando as estrelas que povoam esse nobre Alentejo, possas revisitar tudo isso.
Guarda contigo o cheiro a alfazema das belas paisagens francesas. Guarda os recantos dos livros, a memória, fios dos meus poucos cabelos e um abraço.
Lambe as feridas e deixa que sangrem para melhor cicatrização.

Não te afastes de ti como de mim.
Vai regando as flores e plantando novas, gatafunha escritos que nunca entendi e grita bem alto sentimentos que nunca ouvi.
Escuta quem te elege e acorda numa alvorada para ver os lírios, pássaros, frio agreste que corta, e embrulha-te na manta de retalhos da vida que construímos.
Por mim, fico na solidão em que me perco… não te percas tu de ti, também.

21 agosto, 2007

Aguenta Coração...!




Saio de casa arranjado, perfumadinho, engomadinho, todo xpto, para trabalhar lá no Hospital Público, como pública é a dimensão do meu emprego.

Atarefado pela desgraçada da vida mais o trânsito na ponte e o ruminante cabeça de abóbora que cuspia partituras com música agarrada aos meus ouvidos, eis que pespego um olhar na boa da Alice.
Boa...!? ... Bem... bom sou eu que me porto que nem um cachorro mimado quando se lhe coça as orelhas.
Ela era um completo terramoto grau 5,5º na escala de mamas apertadas contra um vestido de tule.
Vá-se lá saber porquê, embeiçou comigo (que não sou desajeitado de todo ) mas também não sou nenhuma figurinha dessas de trazer debaixo do braço, qual modelito de revistas sociais.

Por falar nisso, já dizia a minha tia Efigénia, Deus-a-tenha-em-eterno-descanso, que eu haveria de ser um tremoço (... por acaso nunca tinha pensado nesta ligação... tremoço...huummm...).

Mas voltando à boa da Alice, eis que ela dengosa com aquele olhar de dez-prás-seis (coitada, ainda usou um penso enorme no olho quando era nova, mas aquilo nunca endireitou), agarrou-me pelo nó da gravata e enfiou-me cara dentro do decote.
- Então ó meu safado, quando é que vamos pôr a escrita em dia?

Assim pasmado, ainda me imaginei contabilista, mas afinal continuava a ser o Tony-das-marquesas-do Hospital-central, (profissão de alto risco, não só pelo contacto com todo o tipo de doenças, mas sobretudo pela quantidade de peões que faço nos corredores do Santa Maria).

- Mas Alice, meu docinho ...
-Nem Alice nem meia-Alice - rosnava ela.
Com este rosnar até se me atravancam os fígados com nós nos intestinos.
Esta não é mulher de levar desaforos nem negas para casa...

Alice, mulher escultural cuja beleza entope as canalizações do Bairro da Ajuda, dona de um pedaço de pernas de fazer inveja a qualquer futebolista de mija-na-escada.
Uma vez estávamos no meu boguinhas comprado-a-prestações-ou-letras-do-Banco que-nunca-cheguei-a-saber-pois-foi-o-Tójó-lá-do-prédio-que-o-vendeu, quando ela me apertou com aquelas pernas que mais pareciam quebra-nozes.
Dali fui directo ao endireita com uma contusão na cervical e duas costelas partidas.

Livre da Alice, que é como quem diz, assunto despachado para as seis e picos da tarde, paro no café para o primeiro do dia.
Grande entorpecimento.O meu Benfica perdeu...
Tremores assaltam-me as meninges, os pelos eriçados e um bate-bate coração que nem carrinhos de choque em feiras de Maio.
Num instante, tal o meu estado catatónico, quatro galifões espreitam-me por cima do ombro para a leitura do "desastre". Tamanho era o bafo a aguardente-velha, que nem foi necessário esbofetearem-me para acender a chama da vida.

Desesperado com aquilo que os meus olhos liam mas o cérebro não acompanhava, o que seria um mau resultado do Glorioso, foi também uma péssima exibição com bilhetes a quarenta euros no atravancar da segunda-circular.
Ainda pensei fazer queixa na polícia por atentado ao pudor tamanha a falta de jeito que eles têm pr´a coisa desde o velho Eusébio, mas estava atrasado p´ra picar o ponto.

Começo assim a trabalhar já com meio AVC, taquicardias sem nexo, e um quarto-de-enfarte enfiado nos beiços.
O que vale é que trabalho num Hospital Público, (pese a greve dos clínicos por pagamento de horas extraordinárias), mas eles são os Doutores, eles é que sabem.

Mas este dia que nem começou nada mal, irá terminar seguramente melhor, pois a boa da Alice não me vai deixar pespegado no esquecimento...
Já sonho com meio bife do lombo, ovo estrelado e molho na batata, que na tasca do Zé servem que nem ginjas.

Já noite caída ainda atendi um telefonema da Alice queixando-se da minha falta de jeito, cansaço e mau feitio.
Ora, desliguei com um sorriso de orelha a orelha (o que em mim não é pouco...) pois sempre me disseram que não se pode levar tudo à letra...!

18 agosto, 2007







Preferia não te ver… sentindo tão perfeita.

Sonhar-te com o cabelo desgrenhado e sujo, amarrado em rabo-de-cavalo, lábios sem baton, esquecida do creme após o banho e desenfreada como se tivesses as minhas unhas cravadas em ti.

Sentir a tua boca em mim como um doce irresistível, que se prova em textura, revisitando memórias, encontrando a solução de açúcar a mais, ou mesmo no ponto, aferindo da medida exacta de um ingrediente novo.
Contornas-te em mim como um puzzle de peças variadas como variados são os nossos gestos numa onda sem fim.
E inventas jeitos e trejeitos para escapares por dentro de mim e perguntares (como se eu soubesse) o que está por trás das estrelas e o que vai para lá da linha do horizonte.

Distraidamente e enfeitiçado percorro olhares indiscretos por dentro de ti e arranco paixão e desejo e ternura e amizade em aromas equilibrados de giestas.
Vemo-nos em culpas e sentimentos e rodopiamos em dós-menores por ré-maior, embebidos em desejo.
Tomo-te então, em copo de cristal com goladas de sílabas em palavras acentuadas, partindo de novo no fim, num regresso em espiral na proporção do limbo em que nos movemos, soletrando beijos por acabar em parágrafos completos sem ponto final.

Questiono a minha sanidade mental ao ver-te de olhar penetrante, afiado como gumes apontados em doses de rícino e que desfazem em pó quem duvida da paixão.
Enxotas parágrafos recheados de adjectivos indefinidos, soltando os meus neurónios na direcção do sol, queimando meninges, como se coisa hedionda se tratasse.

Palavras de um texto que me percorre as entranhas e mexe uma bílis sem enjoo.
Palavras de quimera em doces de mil-folhas, palavras abstractas que nada te dizem.
Que se instale então um saco de soro de ti na veia cava superior, para que entres na minha corrente sanguínea.
Aí chegados ficarás comigo para sempre, e com os teus jeitos e trejeitos perguntarás o que fica por trás das estrelas e o que vai para lá da linha do horizonte.

11 agosto, 2007








Parece que me sinto confinado a um espaço inter-espacial do qual não consigo sair.
Resolvo-me em emoções que não consigo digerir. Enrodilham-se em mim, torturam-me, torcem-me mãos e bloqueiam-me pescoço deixando-me quase imobilizado
Sinto desejo de saltar fronteiras deste mundo, beber todo o oceano de um trago.
As perdas. As perdas que me atormentam e soltam amarras.

Existe gente e espaço incomparável.
Gente que passa por nós de forma sublime, figura esfíngica como Anjo, e que não sendo Deus, será provavelmente um Deus.
Gente que interrompe esta viagem pela vida e que anseio que o “destempo” seja curto para que em tempo se faça de novo.

Por isso abanamos como árvores frondosas em dia de vendaval. Por isso não consigo falar, nem exprimo o que sinto. Por isso choro por cantos e em cantos.
Tenho a língua amordaçada por pedaços de papel colorido e as emoções adormecidas… e a morte, essa negritude que sorrateira e maliciosamente nos bate à porta, entra sem pedir licença, e sem voz, com um gesto sôfrego e indiferente, alcança com seus tentáculos os mais preciosos tesouros.
Aparece normalmente sem avisar. Porventura pragueja e não cede ao nosso pedido de indulgência.

Sinto que em determinada altura ela me olhou de soslaio do alto da sua mais profunda prepotência e perdi-me de mim por instantes.
Olhou-me de um e de outro lado e deixou-me assim… sem palavras… sem gestos… indefeso… vazio… mais pobre… levando consigo a tiracolo uma parte de mim.

Uma parte grande de mim.

06 agosto, 2007


Hoje há festa!
Hoje danço contigo, Maria.
Vamos dançar e esquecer quem somos, nesta esquina de rua estreita.
Hoje há festa.
Hoje, um dia qualquer.
Ouvimos um tiro no beco ao lado e alguém tomba no chão de pedra fria.
No restaurante fino do fundo da rua tiram sacos de comida e bebida quase intacta. Alguém apanhou para vender no mercado da sobrevivência.
Barracas instáveis e insalubres, e nós dançamos Maria.
Esquecer o que és, o que somos.
Calcorrear caminhos entrelaçados, e eu, bem agarradinho a ti.
Falavas no selo do carro e na factura da electricidade, no cozido do almoço e eu cheirava-te o perfume no pescoço.
O raio do café que não prestava e a tua atenção que não sai do quadrado em volta.
Sorvo-te o cheiro, a cor e o tempo. Dou-te até “carradas de razão”, mas nem te oiço.
Falas-me na prisão do “Chico da Trenga” e no “Zé da Nora”, os “chutos” no passeio, um-tiro-no-porta-aviões e a chave do Euromilhões.
Rio-me contigo, mas não estou lá.
Percorro-te com os dedos numa dança sem fim e contas-me enredos de novelas no meio deste turbilhão.
E danças comigo nesta festa que sabemos pode nem ser.
Foge-me o pé e vamos de encontro ao muro.
Como podemos dançar Maria?
Se não me sentes, se não me envolves, se chibatadas fervem nas costas de alguém e armas soltam disparos de raiva incontida e se perdem no ar como poeira, assentando nas pernas de um ou nas costas de um outro que tomba aos repelões.
Hoje era dia de festa Maria.
Alguém trocou a noite pelo dia e assentou arraiais pelos becos da desgraça.
Quero fugir contigo Maria…

05 agosto, 2007















O sal não lava a alma.
Tinha carro, cão, gato e pássaro.
Um peixinho, quatro pares de botas e um rímel desbotado.
Uma lágrima a três quartos que teimava em cair e o mar que não via faz tempo.
Um saco de roupa, mais um jantar e uma fralda mudada, comida p´ro gato e periquito da vizinha que saiu para férias e deixou-lho sem remorsos.

O sal não lava a alma.
Saiu pela romaria, visitou os primos e foi de França que chegaram as alegrias.
Apanhou o cabelo que lhe tocava nos ombros e vestiu a saia rodada. Estava linda.

Os olhos da populaça viraram na sua direcção e os homens aperaltaram as camisas, coçando os pelos do bigode.
Deixou cão, gato e pássaro, mais o periquito da vizinha que saiu para férias.
Bailou e cantou até que a noite gelada entrou nos ombros despidos.
Do rímel desbotado saltaram dois lindos olhos azuis que faiscavam de alegria e saudade.

O sal não lava a alma.
No regresso deu de caras com o Tó da Jorna e tocaram-se ao de leve numa passagem fugaz de olhares há muito desencontrados.
Tapou os ombros despidos pelo vento frio da madrugada e calcorreou a calçada em passo apressado.
Da casa enorme, fronteira ao átrio da Igreja, uma luz tombava sobre o jardim amarelecido.
Puxou a saia rodada para baixo do joelho, soltou os cabelos e sem tempo virou de encontro ao muro estatelando-se no chão pisado por agruras e destinos.

Ao levantar-se, enfrentou-o mais uma vez (era a terceira esta semana) e decidida deixou para trás quatro pares de botas, o carro, gato e passarada, mais um saco de roupa, aguardando melhor momento para embrulhar fraldas.
Não.
O sal não lava a alma!

As palavras perdem-se, algumas nem se dão por achadas, os gestos tocam e encontram-nos.

As palavras atiram-se, mordem, cantam-se e ferem, os gestos apoderam-se, enlaçam remexem-nos e soltam-se.

As palavras esfumam-se, os gestos entranham-se, mas ambas vivem em nós.

As palavras amordaçam, descontrolam, desorientam, um gesto afaga, aquece, prende, recicla e orienta.

Quando as palavras são poucas ou indefinidas, e o gesto se esquece, a imaginação faz o resto!