21 agosto, 2007

Aguenta Coração...!




Saio de casa arranjado, perfumadinho, engomadinho, todo xpto, para trabalhar lá no Hospital Público, como pública é a dimensão do meu emprego.

Atarefado pela desgraçada da vida mais o trânsito na ponte e o ruminante cabeça de abóbora que cuspia partituras com música agarrada aos meus ouvidos, eis que pespego um olhar na boa da Alice.
Boa...!? ... Bem... bom sou eu que me porto que nem um cachorro mimado quando se lhe coça as orelhas.
Ela era um completo terramoto grau 5,5º na escala de mamas apertadas contra um vestido de tule.
Vá-se lá saber porquê, embeiçou comigo (que não sou desajeitado de todo ) mas também não sou nenhuma figurinha dessas de trazer debaixo do braço, qual modelito de revistas sociais.

Por falar nisso, já dizia a minha tia Efigénia, Deus-a-tenha-em-eterno-descanso, que eu haveria de ser um tremoço (... por acaso nunca tinha pensado nesta ligação... tremoço...huummm...).

Mas voltando à boa da Alice, eis que ela dengosa com aquele olhar de dez-prás-seis (coitada, ainda usou um penso enorme no olho quando era nova, mas aquilo nunca endireitou), agarrou-me pelo nó da gravata e enfiou-me cara dentro do decote.
- Então ó meu safado, quando é que vamos pôr a escrita em dia?

Assim pasmado, ainda me imaginei contabilista, mas afinal continuava a ser o Tony-das-marquesas-do Hospital-central, (profissão de alto risco, não só pelo contacto com todo o tipo de doenças, mas sobretudo pela quantidade de peões que faço nos corredores do Santa Maria).

- Mas Alice, meu docinho ...
-Nem Alice nem meia-Alice - rosnava ela.
Com este rosnar até se me atravancam os fígados com nós nos intestinos.
Esta não é mulher de levar desaforos nem negas para casa...

Alice, mulher escultural cuja beleza entope as canalizações do Bairro da Ajuda, dona de um pedaço de pernas de fazer inveja a qualquer futebolista de mija-na-escada.
Uma vez estávamos no meu boguinhas comprado-a-prestações-ou-letras-do-Banco que-nunca-cheguei-a-saber-pois-foi-o-Tójó-lá-do-prédio-que-o-vendeu, quando ela me apertou com aquelas pernas que mais pareciam quebra-nozes.
Dali fui directo ao endireita com uma contusão na cervical e duas costelas partidas.

Livre da Alice, que é como quem diz, assunto despachado para as seis e picos da tarde, paro no café para o primeiro do dia.
Grande entorpecimento.O meu Benfica perdeu...
Tremores assaltam-me as meninges, os pelos eriçados e um bate-bate coração que nem carrinhos de choque em feiras de Maio.
Num instante, tal o meu estado catatónico, quatro galifões espreitam-me por cima do ombro para a leitura do "desastre". Tamanho era o bafo a aguardente-velha, que nem foi necessário esbofetearem-me para acender a chama da vida.

Desesperado com aquilo que os meus olhos liam mas o cérebro não acompanhava, o que seria um mau resultado do Glorioso, foi também uma péssima exibição com bilhetes a quarenta euros no atravancar da segunda-circular.
Ainda pensei fazer queixa na polícia por atentado ao pudor tamanha a falta de jeito que eles têm pr´a coisa desde o velho Eusébio, mas estava atrasado p´ra picar o ponto.

Começo assim a trabalhar já com meio AVC, taquicardias sem nexo, e um quarto-de-enfarte enfiado nos beiços.
O que vale é que trabalho num Hospital Público, (pese a greve dos clínicos por pagamento de horas extraordinárias), mas eles são os Doutores, eles é que sabem.

Mas este dia que nem começou nada mal, irá terminar seguramente melhor, pois a boa da Alice não me vai deixar pespegado no esquecimento...
Já sonho com meio bife do lombo, ovo estrelado e molho na batata, que na tasca do Zé servem que nem ginjas.

Já noite caída ainda atendi um telefonema da Alice queixando-se da minha falta de jeito, cansaço e mau feitio.
Ora, desliguei com um sorriso de orelha a orelha (o que em mim não é pouco...) pois sempre me disseram que não se pode levar tudo à letra...!

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