Gosto da minha solidão
Sei que pode ser chato e enfadonho, viver comigo e em mim, apesar de no meio de tanta gente.
Mas adoro a concha que me tapa e protege dos nevoeiros que me cobrem.
Bem tento colocar um bálsamo protector sobre essa concha, mas por vezes não chega. Desligo-me realmente do mundo e de mim.
Tiro literalmente a bateria para não estragar a máquina e fico off.
Houve tempos em que fechava a porta com três voltas e um toque no ferrolho mais uma tranca das grossas.
Janelas bem estanques, luz apagada, uma folha em branco e uma caneta por cima
Imperfeito que sou, irrompe em mim uma mistura de ódio ao mundo e zanga estupidificada por abjectos e estranhos quadrúpedes que cirandam na nossa sociedade e perto de mim.

Sei que não pareço muito normal (?), com esta atitude de atabalhoadamente me divertir diariamente com revistas e livros que vou visitando para além dos papelinhos em que dito leis e ordens numa confusão mental que por vezes me povoa.
Assim tenho feito percursos ziguezagueando desde que encontrei a casa mais vazia, poucos objectos, alguns quadros menos, as minhas pinturas espalhadas e os cachimbos que saboreio, fora do lugar de sempre.

Vou-me construindo solidão enquanto o Inverno povoar de cinzento a minha alma.
Caminho na rua e em cada pedaço de tempo, em cada pedaço de nada, um arremesso de ti.
Foste fantasma na vida e ausente de mim. Falo-te quando conduzo e me conduzo por ti.
Olhas-me do fundo de uma chávena de café numa esplanada do Rio, Milão, Paris ou Londres.
Apareces como post-it agarrada a jornais que folheio e fazes contorcionismo nas montras da Zara.
Espreitei-te na 5th Avenue, no Sacré Coeur, e na Avenida Fiumicino. Veneza já não está igual e o Santini misturou sabores que não consigo recordar.
Afastas-te do Sol que tens por companhia e alimentas-te da Lua que te refresca a memória de mim.
Mantenho a esperança como um sedativo para acalmar as dores que me atormentam, ansioliticos que desprezam a minha existência e um electrocardiograma que dá sinais vitais de ti em mim.
Assim vou povoando as meninges com imagens que guardei.

Deixei-te fotos, filmes, musicas, despojos da guerra em que nunca estive. O cão, esse amigo de tempos invernosos fica no aconchego dos teus braços.
Guarda tudo, não destruas o que era de mim.
Talvez um dia, devagar, embalada em doces gotículas do perfume que amei, olhando as estrelas que povoam esse nobre Alentejo, possas revisitar tudo isso.
Guarda contigo o cheiro a alfazema das belas paisagens francesas. Guarda os recantos dos livros, a memória, fios dos meus poucos cabelos e um abraço.
Lambe as feridas e deixa que sangrem para melhor cicatrização.

Não te afastes de ti como de mim.
Vai regando as flores e plantando novas, gatafunha escritos que nunca entendi e grita bem alto sentimentos que nunca ouvi.
Escuta quem te elege e acorda numa alvorada para ver os lírios, pássaros, frio agreste que corta, e embrulha-te na manta de retalhos da vida que construímos.
Por mim, fico na solidão em que me perco… não te percas tu de ti, também.

Comentários

lamia disse…
Que em breve abandones a solidão para abraçares a solitude.
Se não existisse a raiva na revolta do que não se aceita, as pedras que se chutam no caminho para se voltarem a encontrar mais adiante, as lágrimas de hoje teriam um sabor doce.
Moura ao Luar disse…
É tão bom perdermo-nos de vez em quando... a mim não me assusta

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