06 agosto, 2007


Hoje há festa!
Hoje danço contigo, Maria.
Vamos dançar e esquecer quem somos, nesta esquina de rua estreita.
Hoje há festa.
Hoje, um dia qualquer.
Ouvimos um tiro no beco ao lado e alguém tomba no chão de pedra fria.
No restaurante fino do fundo da rua tiram sacos de comida e bebida quase intacta. Alguém apanhou para vender no mercado da sobrevivência.
Barracas instáveis e insalubres, e nós dançamos Maria.
Esquecer o que és, o que somos.
Calcorrear caminhos entrelaçados, e eu, bem agarradinho a ti.
Falavas no selo do carro e na factura da electricidade, no cozido do almoço e eu cheirava-te o perfume no pescoço.
O raio do café que não prestava e a tua atenção que não sai do quadrado em volta.
Sorvo-te o cheiro, a cor e o tempo. Dou-te até “carradas de razão”, mas nem te oiço.
Falas-me na prisão do “Chico da Trenga” e no “Zé da Nora”, os “chutos” no passeio, um-tiro-no-porta-aviões e a chave do Euromilhões.
Rio-me contigo, mas não estou lá.
Percorro-te com os dedos numa dança sem fim e contas-me enredos de novelas no meio deste turbilhão.
E danças comigo nesta festa que sabemos pode nem ser.
Foge-me o pé e vamos de encontro ao muro.
Como podemos dançar Maria?
Se não me sentes, se não me envolves, se chibatadas fervem nas costas de alguém e armas soltam disparos de raiva incontida e se perdem no ar como poeira, assentando nas pernas de um ou nas costas de um outro que tomba aos repelões.
Hoje era dia de festa Maria.
Alguém trocou a noite pelo dia e assentou arraiais pelos becos da desgraça.
Quero fugir contigo Maria…

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