O sal não lava a alma.
Tinha carro, cão, gato e pássaro.
Um peixinho, quatro pares de botas e um rímel desbotado.
Uma lágrima a três quartos que teimava em cair e o mar que não via faz tempo.
Um saco de roupa, mais um jantar e uma fralda mudada, comida p´ro gato e periquito da vizinha que saiu para férias e deixou-lho sem remorsos.

O sal não lava a alma.
Saiu pela romaria, visitou os primos e foi de França que chegaram as alegrias.
Apanhou o cabelo que lhe tocava nos ombros e vestiu a saia rodada. Estava linda.

Os olhos da populaça viraram na sua direcção e os homens aperaltaram as camisas, coçando os pelos do bigode.
Deixou cão, gato e pássaro, mais o periquito da vizinha que saiu para férias.
Bailou e cantou até que a noite gelada entrou nos ombros despidos.
Do rímel desbotado saltaram dois lindos olhos azuis que faiscavam de alegria e saudade.

O sal não lava a alma.
No regresso deu de caras com o Tó da Jorna e tocaram-se ao de leve numa passagem fugaz de olhares há muito desencontrados.
Tapou os ombros despidos pelo vento frio da madrugada e calcorreou a calçada em passo apressado.
Da casa enorme, fronteira ao átrio da Igreja, uma luz tombava sobre o jardim amarelecido.
Puxou a saia rodada para baixo do joelho, soltou os cabelos e sem tempo virou de encontro ao muro estatelando-se no chão pisado por agruras e destinos.

Ao levantar-se, enfrentou-o mais uma vez (era a terceira esta semana) e decidida deixou para trás quatro pares de botas, o carro, gato e passarada, mais um saco de roupa, aguardando melhor momento para embrulhar fraldas.
Não.
O sal não lava a alma!

Comentários

tcl disse…
E fez ela muito bem!

Mensagens populares deste blogue

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS

EXISTISTE ANTES DE EXISTIR