30 setembro, 2007
















Se me quiseres encontrar
estou aqui.
Entre o céu e a terra
entre a montanha e o mar
Talvez pendurado numa corda,
talvez a amar
Se me quiseres encontrar
estou aqui
Ora no aquário onde por vezes vivo
ou na concha que trago agarrada a mim.
Mas se me quiseres encontrar
despacha-te
pois podes não chegar a tempo de veres quem sou.

JP

27 setembro, 2007













No caso Esmeralda assisto a um convénio de palermice e de soluções absurdas que parece não ter fim.
Existe um Pai biológico que só teve interesse em conhecer a filha, "quando lhe deu jeito", e uma Mãe biológica que os jornais descobriram.

Um casal "adopta" a criança ainda pequenina que cresce agarrada a esse amor e aos mimos desses Pais, os únicos que afinal conhece desde os 3 meses de idade.

Entretanto, no circo mediático esgrimem-se argumentos dos dois lados. Como em tudo, há os "coitados" os "desgraçados" e os "arrependidos" .

Da principal interessada - a Criança -, poucos se lembram. Ela é o caso menor neste enredo.

Entretanto Esmeralda começa a dar sinais.
Sente-se angustiada, nervosa, inquieta, com insónias, um estado psicológico preocupante.
Vá-se lá entender porquê, qual capuchinho vermelho, agora com cinco anos, percebe que existem os "maus" que a querem tirar dos "Pais".
Neste pingue-pongue mediático e circense com escapadelas à justiça, prisões, julgamentos etc, tentam explicar à criança que afinal os "maus" são apenas agradáveis e óptimos para comer gelados e brincar ao esconde-esconde.

Por incrível e mal dos pecados de quem dita as leis e julga crianças de 5 anos, a atrevida criancinha em vez de aceitar tudo isto servido em bandeja... assusta-se.

Então, alguns técnicos, Psicólogos, Psiquiatras, Médicos, Juízes, Jornalistas, Cronistas, Vendedores de jornais, Vendedores de castanhas, Peixeiras e Taberneiros, resolvem em novas análises, redefinir as visitas de quinzenais a mensais pois a "criatura infantil" tinha reagido mal à situação.

Entretanto um Douto Doutor de Leis, que já não se lembra do tempo em que deu a mão aos seus pais nem os banhos que lhe deram, nem a papinha que comeu nem as fraldas que lhe mudaram, decreta que Esmeralda deve ser entregue aos Pais Biológicos.

Dá-se assim um remate final e marca um golo a equipa visitante para gáudio dos seus apaniguados.

A bola (vulgo Esmeralda) lá vai rolando de Herodes para Pilatos, provavelmente com noites mal dormidas, sonhos preenchidos com papões, dores de barriga, inquietação permanente e um retrato no futuro-imediato pouco favorável.

Pais... são aqueles que nos dão a mão para dormir, embalam os sonos, ajudam a baixar a febre quando aperta e nos limpam o ranhito do nariz.
Pais são os que estão ao nosso lado dia após dia e noite após noite que nos dão afecto, carinho e amor.

Mas também quem disse que a Criança Esmeralda de apenas cinco anos tinha alguma coisa a ver com isto?

25 setembro, 2007

ESTOU ESQUINADO…


Vida para mim…


É parar numa esquina e seguir,

Saltar no zebrado entre a barra preta e a branca num pé-coxinho libertador.

É vestir de novo o velho casaco e olhar na montra o novo que não consigo comprar.

Comer gelados e fazer desporto, beber um copo com os amigos e fazer amor até cair.

Vestir o fato número 18, a gravata 33 a camisa 12 e levar sapatos trocados.

Querer imitar quem salta do autocarro em andamento e malhar com as trombas no chão.

Caminhar ao longo da marginal de S. Martinho e sentir a chuva que borrifa e molha até aos ossos.

Mas sei…

Alimentar o sótão que me habita com coisas agradáveis e reservar espaços para outros que virão.

Fazer dele um quarto agradável, onde assisto à lua cheia e onde vou limpando janelas de boas vivências de memórias passadas.

Guardar num cantinho do coração a tua imagem e atafulhar de vestígios teus os restantes pedaços

No porão a que chamo intestino vou despejando atitudes, verborreias de quadrúpedes animados de verve fácil mas de difícil postura, onde cabem lembranças que organizo e escolho se vale a pena serem guardadas.

Assim, transformo muitas deselegâncias, muitas tempestades em copos de água e consigo matar a minha sede para me entender melhor

De vez em quando faço um despejo completo desses males que me apoquentam e literalmente empurro-os para a fossa do tempo.


Não gosto…

Receber e-mails do tamanho do primeiro testamento, ser culpado da fome no Darfur, da guerra no Líbano e da peste na Eritreia.

Levar com um tipo no café que diz que me conhece de qualquer lado, e sem nexo,conta as posições que adopta e a suposta performance de trás para a frente mais a qualidade da gaja com que namora e a dele.

Aturar gajos dependentes de uma dependência qualquer para o qual vão pedir um subsídio do qual ficarão dependentes e sorrateiramente irão reverter essa dependência numa outra qualquer e só me apetece gritar …VÃO TRABALHAR PORRA!

23 setembro, 2007


















Ando por aqui e por aí, e não te vejo.

Vislumbro vultos, inconsciente, desconhecido.
Existo e resisto a tirar a poeira que me cobre, um espelho que me assusta.

Estou enroscado em ti. Pele com pele, carne na carne. Enroscado num beijo.

Como os corais que se agarram às pedras
Cúmplices de duas metades iguais.

Gosto quando enrosco nesta sensação
De dar e receber na mesma proporção

Gosto de ti com a energia de dois continentes e a beleza de mil chamas ardentes
Gosto que me gostes e me chames louco e te enroles e reboles nos meus lençóis.

Transformo diabinhos de mim em fantasmas de ti e piso os teus passos por caminhos inventados.
Vivo com o teu cheiro no meu espírito movediço, planto flores onde existiam nuvens e agarro no sol com os dentes e trago a lua no bolso para te oferecer.

Mas vivem alcateias vigorosas, presas em redil vazio, que te olham e me inquietam.
E abraço-te e danço mil músicas de mil razões com mil poemas de aventuras mil
E sofregamente te enlaço e te afago e beijo e percorro o meu desejo em ti
E vibras e ris e choras e olhas lânguida de ternura transparente
E soletras beijos em poemas de canções que te escrevi, com parágrafos triunfais.

Ando por aqui e por aí e não te vejo
Acordo num sono alvorada, com um copo de rícino esbatido
Depois de olhar mortificado, o espelho que te substitui.

Vou agora, desta vez e já não volto.
Levo comigo um beijo, redenção
Por não te saber reter na memória,
desatenção.

20 setembro, 2007















Ofereces-me as mãos dou-te um olhar

Ofereço-te um abraço, dás-me um sorriso, profundo, contido, quente, meigo e animal.

A tua presença e o teu cheiro tiram-me da razão, tremem-me as pernas, falta-me o ar, o teu toque acalma-me e agita-me, simultaneamente.
Os teus lábios que devoro, consomem-me numa sintonia perfeita. A roupa que sai, a pele que se queima. O corpo, a mente, a alma e de novo o coração que se desprende e agita, o belo, o pecado, o sagrado.

A tua boca cala-se, a minha seca. Os teus olhos brilham, os meus fecham-se. Os teus ouvidos redobram, os meus tapam, o teu coração acelera, o meu… acho que tropeça.

Vivo numa anatomia de palavras para te envolver, o doce da dança dos fios cruzados, de uma boca sequiosa de pele molhada de lábios gulosos gozados como os meus.

Há coisas que não quero que me saiam da cabeça, como a tua presença em mim, o sol no inverno e o sorriso na tua boca. Vivo continuamente espartilhado nas palavras e não consigo fazer-te cócegas no olhar.

Agora, amo-te às cores, aos berros, aos pulos, na inquieta ânsia de ter um só dos teus carinhos...!
Amo-te com atilhos no coração, roupa com ar de fim-de-semana, fita no cabelo e a loucura a roçar-me os lábios.

Ficas a navegar ao sabor do vento levada por ondas de paixão e num ápice percorres constelações. Aprendo a fazer dez magias percorrendo cem vezes o mesmo caminho.

Quando os teus lábios segredam coisas aos meus e suspiram desesperados por novos segredos que necessidade tenho de ouvir? E que capacidade tenho para te ouvir?

Ofereço-te um abraço, dás-me a mão,
ofereces-me um sorriso, enlouqueço em ti.

19 setembro, 2007

Cala-te Homem! (do quotidiano…)














Homem: - Falta-me o ar.
Juro que me falta mesmo o ar. Já ontem à tarde me senti assim, quando alguém disse: - “Ai coitado, você está muito branco, sente-se bem?”
Ao que procurei de imediato um espelho para ver a minha cara e reparar no branco de cal que me tolhia. Vá lá que o coração tem andado certinho, desde que o Senhor Doutor Luís lá da Farmácia me deu aquele xarope...

E tudo isto por tua causa, que me afliges e adormeces a alma.
Sempre me trataste como um abjecto animal.
Tu, que nem camisas sabes passar nem o pequeno-almoço arranjar, quanto mais saber de alguém?

Passavas de tempo em tempo sem tempo para mim, nem tão pouco para ti.
Não sabias de carícias nem de aconchegos, nem de beijos, apenas de vidas de telenovelas enredadas semanas a fio como se eu fosse membro absoluto dessa teia.

Um simples beijo, coisa simples.
Festas, fazias como se estivesses na paragem do 87 para Almada com a mão a abanar a abanar sacudindo tudo em volta.

Carícias? Era como se esfregasses de pedra-pomes os calcanhares que te apoquentavam.

Casamento querias tu, mas já a Alice, vizinha do terceiro direito me dizia que andavas à caça de casório com um homem abastado.

Coitada, logo te havia de calhar um pobre coitado de Cacilhas que nem embarcação tem. E chamavas-me jumento. Jumento de ti.
Como se tudo o que te dei, berloques para o carro, almofada para te sentares no sofá e encostares a cabecinha no meu ombro enquanto choravas baba e ranho pelas dondocas desprotegidas em canal brasileiro, nada valessem...

Eu que te levava a passear sábado sim, sábado não, e quando o meu Benfica jogava lá estávamos nós a ver passar o pessoal. Festa era o que tu querias, festa.

Passavas o tempo em médicos para te acoitarem as maleitas febris mais as dores nos quadris e os joanetes. Vestias preto e amarelo misturado com roxo, cambraia e cetim, e abanavas o traseiro enquanto mandavas beijo repenicado a um qualquer amigo, sabe Deus.

E bem sei das conversas que tinhas com as tuas amigas depois da canastra. Canastronas, velhas e desempoeiradas que cochichavam afazeres para espreitar as elegantes criaturas aprumadas em fatos de marca.

Vai ser melhor para os dois, que me dê uma “solipampa” qualquer, num qualquer dia e que te estrague a saídinha preparada com bolinhos de cacau e chá adocicado por colher de prata.

Eu que sempre fui muito calmo, de poucas falas e muito sintético no que digo.
Nunca encontrarás outro como eu, isso é que não…!

Ficarás uma velha gaiteira pouco só, que bem te ocupas, como se eu não soubesse dos truques que me fazes e das vergonhas que finjo não ter.
E não dizes nada. Nem me ouves porventura, velha anafada, bolorenta.

Mulher: - “-...Cala-te Homem… !

18 setembro, 2007







Sei percorrer caminhos dificeis até encontrar flores frescas para te dar.

Sei correr em sentido contrário ao sentido do tempo que tem um compasso muito seu, diferente do meu, diferente do que dele pensamos.

Eu não tenho o meu passo na medida certa do teu, nem o tempo a medida certa do nosso.
Sei quando o vento sopra em sentido contrário ao tempo, e eu corro contra o tempo a favor do vento.

Sei percorrer caminhos dificeis até encontrar conchas no mar e poemas para dedicar de versos preparados em noites mal dormidas.

Sei correr em passos ritmados com coração solto e selvagem, no qual cada curva é uma incerteza, cada onda sensação, cada caminho a intenção de um lugar.

Sei que a ausência é um mar que não devolve as ondas e uma alga escura que traz sal no olhar.

Sei percorrer estradas que me levam a algum lugar quando venho de lugar nenhum.

E sei correr num tempo nosso entre nuvens de mar e ondas de sol por caminhos fadados a um encontro.

Percorro e corro e parto-me em mil pedaços de mim por outros tantos de ti, entre quatro colunas por entre a saudade que me espera.

Flores frescas para ti !

14 setembro, 2007

Ver a vida de pernas para o ar





Mudei de alma e bagagem para este mundo.
Já não sei quando nem porquê.

Quando vim trouxe os anjos comigo, eles que me acompanham e sabem tudo de mim.

Quando por vezes fecho os olhos e venço o desejo de me rever ao espelho tento saber de que lado estou.
Raramente me sinto e quando olho bem, a imagem vai-se desfigurando pois este olhar precede um outro bem mais desperto e mais real.
Vejo de esguelha, torço o pescoço, contorno o olhar por cima do ombro e reparo que o outro olhar mais penetrante, mais astuto sobrepõe-se ao meu.

Saio devagar, deixando que se afaste também a minha imagem, lentamente, deixando apenas um rasto de mim para mim.

Quem estiver a ler dirá que estas palavras só têm cabimento no mundo lá de fora… mas eu não sei de que lado estou.

Várias vezes nos cruzamos, olhamos, sabemos da existência um do outro, até os anjos comuns são amigos, mas nunca conversamos pois somos engolidos pela multidão a cada passagem. Jogamos ao “toca-e-foge”, e perdemo-nos na multidão que passa e enche as avenidas da vida.

O meu coração cospe lavas com cheiro a incenso.
Sei que não tarda vai-se arrancar de mim.
Coração moído, rasgado em pedaços, retalhos, meros grãos de areia que por vezes guardo no bolso, não vá fazer-me falta.

Mudei de alma e bagagem para este mundo…sei lá como e porquê.

12 setembro, 2007















E ofereceste-me sorrisos aos molhos, noites de luar, amor em lua cheia e eu, trapezista em corda-bamba aceitei-te tal como vinhas.
Perturbada, inquieta, metafórica, destruída, com um pé fora outro no abismo.

E ofereceste-me rios de palavras, lindas, quentes, alucinantes, inebriantes, aconchegantes contos e recontos em curvas apertadas estradas rectilíneas e um manancial de descobertas. E eu... deixei-me levar na corrente das palavras.

Passavas das palavras aos actos como quem navega à bolina contra cais de nevoeiros, e eu, ilusionista na vida e palhaço no circo, deixava-me levar por águas sulfurosas corrompendo o casco desse veleiro.

Trocávamos monólogos redondos enfeitados com fitas multi-cores que acalentam os ânimos e afagam o ego. E eu, impotente na verve, sonhava palavras doces que raro decifrava, trocando a obra-prima-do-mestre pela prima-do-mestre-de-obras, espraiando no limbo das incertezas.

E atiravas com amores-felizes, num turbilhão de palavras ditas, mas de frases inúteis e sem sentido, precisando aqui e ali de adjectivos, predicados e até complementos directos.

E ofereceste-me livros de conquistas, guerreiros em cada esquina, arqueiros de Rei Artur.

Sentia-me como Lancelot, até chegarem gnomos, feitiços, fadas e poções mágicas que nada fazem.

E ofereceste-me o Sul quando eu procurava o Norte, encheste-me de reflexos e eu buscava a sorte caminhavas sem sentido eu evitava a morte.

Sem palavras nem actos, contos nem recontos, ditos ou reditos, sem duendes nem feitiços, fadas e archotes, nem lança-chamas, bobos de Camelot.

10 setembro, 2007











E mexias em tintas coloridas de mãos abertas ao mundo, inventando caminhos desbravando a pele.
De mãos pintadas percorrias o meu corpo espalhando cor e amor em doses proporcionais.

Decifravas tonalidades em cada passagem de mim por ti, rebuscando sentidos estéticos em cada toque em cada aroma.

Éramos ambos sonhadores descalços, pincelando teoremas em partes iguais de corpo em corpo de toque em toque.

Percorrias com teu no meu olhar e espalhavas língua em corpo ardente como fogo em noite de lua cheia.
Vampirizavas sal em bater descoordenado de coração.
Rasgavas pele com ardor aguçado de saliva e vibravas como nadador em apneia demorada.

Pintaste a noite como manto que nos cobre de carícias.
Aqui sou tudo e sou nada, apareço e desapareço em ti, e desmaio e morro em odes triunfais.

E é efémero este tempo este espaço em que vivemos em que sentimos que a vida passou perto de nós, porque sentimos na bruma que o tempo parou.
E gemias gritando e gritando gemias, palavras loucas roucas enevoadas perdidas num tempo sem tempo em êxtase sem fim.

E mexes em tintas coloridas espalhando por ti e por mim multi-cores açucaradas, ternas, belas, sedutoras.

Rasguei o manto que me cobria sonho e medo, meio-verdade, meio-loucura, funesta imagem translúcida da febre que me cobre.

Finalmente acordei encharcado do teu suor em mim ou do meu amor em ti,

Jamais saberei a tonalidade da verdade, se da febre que me tinge alma e lucidez se do sal que me cobre o corpo e que tem cheiro de pétalas como valsas em nocturno de Chopin.










Sei do doce da tua pele e do sal no mar, do frio nas montanhas e do aperto no coração sempre que te vejo.

Conheço de cor o teu riso e a forma como o usas para me fazer vibrar.
Conheço de cor a tua boca e a forma como a usas para te ouvir sussurrar.

Percorres os meus com os teus dedos e instalas sons na minha alma.
Entrelaças os teus nos meus dedos e dizes que sim sem eu ter perguntado nada.

Falas e fazes música com o teu olhar no meu fazendo a vida num concerto.
Não questionas a minha sanidade mental quando te abraço e beijo, o que agradeço.

Olho-te e vejo-te como aos 14 instalando melodias numa ária de Bach.
Solto palavras esvoaçantes como alma sem destino certo e um bando de pássaros que ruma ao sul deixando a promessa de voltar na Primavera.

A jornada começa no primeiro degrau da porta pequena, libertando-nos de prisões das quais dificilmente saímos, amarras que trazemos ancoradas a nós.

Deixamos enrodilhar afectos enquanto o mundo corre ao nosso lado, despertos numa realidade alheia

Quero ter-te num amanhã despido de sombras num nevoeiro de carícias doces e sou feliz porque me roubas um sorriso
quando pretendo soltar uma lágrima.