Cala-te Homem! (do quotidiano…)














Homem: - Falta-me o ar.
Juro que me falta mesmo o ar. Já ontem à tarde me senti assim, quando alguém disse: - “Ai coitado, você está muito branco, sente-se bem?”
Ao que procurei de imediato um espelho para ver a minha cara e reparar no branco de cal que me tolhia. Vá lá que o coração tem andado certinho, desde que o Senhor Doutor Luís lá da Farmácia me deu aquele xarope...

E tudo isto por tua causa, que me afliges e adormeces a alma.
Sempre me trataste como um abjecto animal.
Tu, que nem camisas sabes passar nem o pequeno-almoço arranjar, quanto mais saber de alguém?

Passavas de tempo em tempo sem tempo para mim, nem tão pouco para ti.
Não sabias de carícias nem de aconchegos, nem de beijos, apenas de vidas de telenovelas enredadas semanas a fio como se eu fosse membro absoluto dessa teia.

Um simples beijo, coisa simples.
Festas, fazias como se estivesses na paragem do 87 para Almada com a mão a abanar a abanar sacudindo tudo em volta.

Carícias? Era como se esfregasses de pedra-pomes os calcanhares que te apoquentavam.

Casamento querias tu, mas já a Alice, vizinha do terceiro direito me dizia que andavas à caça de casório com um homem abastado.

Coitada, logo te havia de calhar um pobre coitado de Cacilhas que nem embarcação tem. E chamavas-me jumento. Jumento de ti.
Como se tudo o que te dei, berloques para o carro, almofada para te sentares no sofá e encostares a cabecinha no meu ombro enquanto choravas baba e ranho pelas dondocas desprotegidas em canal brasileiro, nada valessem...

Eu que te levava a passear sábado sim, sábado não, e quando o meu Benfica jogava lá estávamos nós a ver passar o pessoal. Festa era o que tu querias, festa.

Passavas o tempo em médicos para te acoitarem as maleitas febris mais as dores nos quadris e os joanetes. Vestias preto e amarelo misturado com roxo, cambraia e cetim, e abanavas o traseiro enquanto mandavas beijo repenicado a um qualquer amigo, sabe Deus.

E bem sei das conversas que tinhas com as tuas amigas depois da canastra. Canastronas, velhas e desempoeiradas que cochichavam afazeres para espreitar as elegantes criaturas aprumadas em fatos de marca.

Vai ser melhor para os dois, que me dê uma “solipampa” qualquer, num qualquer dia e que te estrague a saídinha preparada com bolinhos de cacau e chá adocicado por colher de prata.

Eu que sempre fui muito calmo, de poucas falas e muito sintético no que digo.
Nunca encontrarás outro como eu, isso é que não…!

Ficarás uma velha gaiteira pouco só, que bem te ocupas, como se eu não soubesse dos truques que me fazes e das vergonhas que finjo não ter.
E não dizes nada. Nem me ouves porventura, velha anafada, bolorenta.

Mulher: - “-...Cala-te Homem… !

Comentários

Som do Silêncio disse…
E tu..."nunca te cales!"

Beijo Silencioso
Paula disse…
Adorei o estilo do texto na sua crueza realista!
Sei de um casal de idosos em que ele é mais novo do que ela perto de vinte anos. A senhora idosa maltrata o marido verbalmente rebaixando-o sistematicamente. Dá-lhe com a bengala em cima (a senhora tem noventa anos por amor de Deus!!) quando este deixa cair alguma coisa ou as torradas se queimam. Em troca ele retribui dizendo-lhe que ela é a mulher mais linda que conheceu... Não sei se chore se ria com as contradições do ser humano!!

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