22 outubro, 2007











Hoje acordei com medo, mas não chorei.
Não que chorar fizesse diferença, apenas não tinha lágrimas.
Medo de tudo e de nada, de mim e dos outros.

No seu tempo, Adão tinha medo de cair em tentação, os Egípcios não dormiam com medo das pragas de sapos…
Eu acordei com medo e procurei no escuro… e não vi nada.

Fico a pensar se serei uma pessoa corajosa, já tentei lutar no escuro para perder o medo, mas dei por mim numa figura ridícula.

Também os Gauleses tinham medo que o céu lhes caísse na cabeça, mais tarde surgiu o medo dos leprosos, depois nos descobrimentos era o Adamastor e as tormentas, a peste e a fome.
Mas procurar algo no escuro, tão perto e tão longe… tão inquietante.

Vivemos em acrobacias de alma, como trapezistas sem rede em corpos semi-nus sem chama de vida.
Solidão de vida, mesmo para os acompanhados, solidão de gestos, de vazios, de desencontros, de estados de alma de funestas esperanças de que hoje será, o ontem foi e o amanhã vamos ver…

Solidão de percursos antagónicos como diferentes os trilhos percorridos.

Tudo isto por causa do medo e do escuro, do sobressalto temporal, num nocturno adormecido.
O tempo olha para ti com desdém. Não tens idade nem hora, apenas a escuridão da noite que te povoa.

E o medo do escuro na noite ao acordar, generoso e doce, o medo.
Como eu. Distraído mas pensador, de infinita bondade rodeado de ideias com o cérebro atafulhado de novas cores, novos quadrantes.
O que é isto se não sonhos?

Aqueles acontecimentos que colocamos numa gaveta a meio da cómoda onde alojamos sentimentos.
Umas vezes junto aos lenços perfumados, coloco os sonhos amarfanhados, outras, arrumadinhos e vincados.
Consoante chegam, a gaveta enche e chega a abarrotar.

Os sonhos nunca são demais, por isso pouco ligo ao inchaço da gaveta.

Medos em sobressalto que evocam risos de infância, a exaltação de uma primeira paixão, a memória de viagens a locais por descobrir. Cores e cheiros, canela e cor de fogo, intensos,límpidos e cristalinos, vales verdejantes, céu aberto à harmonia.

Somos uma vida de pedras soltas, colocadas energicamente umas sobre as outras estrategicamente preparadas.

O medo e a noite.

Já não tenho medo, mas se tiver que chorar... choro.
Esse medo não tenho.












Este deveria ser um Outono mágico,

mas sinto-me afastado do mundo, afastado de mim.

Estou entre o frio e o calor, o sol e a chuva.

Quero ser redescoberto sem GPS, instalado numa canoa a dobrar o Cabo Bojador.

Quero que me ouçam como se debitasse palavras plurais de sujeitos e predicados e sentissem nelas a mais antiga sabedoria.

Quero sentir-me embalado por mãos de veludo carinhosas e penetrantes.

Quero ser abraçado e tocado e mimado como se fosse fonte de calor inesgotável no mais rigoroso inverno e de mim dependesse o equilíbrio do mundo.

Quero ser beijado como se fosse um ribeiro à solta fertilizando campos e um sol que poisa devagar na montanha da vida

Quero ser respirado como peixe debaixo de água,

Como se fosse o ultimo sopro de vida.

09 outubro, 2007



















São tuas as histórias sem nome e sem rosto…

Palavras que lês sofregamente e me fazes perder num deserto de emoções.

Tiveste-me como uma miragem! Tocas-te e desvaneceste
(Não eu! a imagem que querias ver em mim!)

Procuras e não vês, eu vejo que não vês, mas tu não vês nada de mim.

Quando te olho não preciso de palavras

Quando te oiço não preciso da tua presença

São tuas as histórias sem nome e sem rosto…
Tal como as flores em que mexes e exalam perfume que te acompanha
Como folhas no coração.

Por não me quereres ouvir…
Morderás teus lábios deslumbrados e saberás a sangue dos sentidos

Lábios sedentos que tocaram no mais fundo do âmago e encontraram
Palavras escritas por mim.

Porque esperas meu Deus,
Para me cravares de palavras petrificadas
De sangue que jorra como lava
Por dentro de mim como vulcão.

Porque me tornei efígie de sal
Como mito, aguarela de espanto
E “obrigo” outros a ouvir-me e a entender o que sonho.

Para mim traço desafio… por querer tanto
Dou o peito às balas com incenso e encanto.

E prendem-me língua, seguram-me dedo
amarrotam-me a alma e censuram a escrita
Proíbem palavras.

Lanço-me então ao céu em asas
E esvoaço entre nuvens de ciprestes
Como Anjo.

Fui
Esfumei
Perdi-me em nuvens ancestrais penduradas em arco-íris.

São tuas as histórias sem nome e sem rosto…

Quando te olho não preciso de palavras
Quando te oiço não preciso da tua presença

Quando me lês não precisas de mim
Porque tantas vezes me silencio e são tão poucas as pessoas que sabem…
Chegar a mim…!

02 outubro, 2007



















Tens medo.
Medo dos meus beijos sem ensaio geral ou antestreia
do inócuo, do profundamente gentil, do terrivelmente belo, do sumptuoso desejo.

Medo de me teres, de confundires tempo com espaço, de trocares os dias pelas noites, a negritude pela coragem e de te perderes na voragem dos dias.

Tens medo,
por isso fazes um cerimonial de palavras desacertadas quando chegas sem avisar,
e procuras a geometria do meu corpo quando bates à porta do coração.

Fixas o meu no teu olhar
e regresso devagar ao teu sorriso
como quem encontra harpas num musical inesperado.

Tens medo
das partituras que trago comigo
do doce solfejo em que te encontras
no âmago da solidão que nos invade
receosas, tenebrosas,
como vasos baratos de roseiras despidas.

Tens medo
que escape sorrateiro pela calada, ou que me desactive temporariamente
como palavras recheadas de adjectivos em perífrases prolongadas.