Hoje acordei com medo, mas não chorei.
Não que chorar fizesse diferença, apenas não tinha lágrimas.
Medo de tudo e de nada, de mim e dos outros.

No seu tempo, Adão tinha medo de cair em tentação, os Egípcios não dormiam com medo das pragas de sapos…
Eu acordei com medo e procurei no escuro… e não vi nada.

Fico a pensar se serei uma pessoa corajosa, já tentei lutar no escuro para perder o medo, mas dei por mim numa figura ridícula.

Também os Gauleses tinham medo que o céu lhes caísse na cabeça, mais tarde surgiu o medo dos leprosos, depois nos descobrimentos era o Adamastor e as tormentas, a peste e a fome.
Mas procurar algo no escuro, tão perto e tão longe… tão inquietante.

Vivemos em acrobacias de alma, como trapezistas sem rede em corpos semi-nus sem chama de vida.
Solidão de vida, mesmo para os acompanhados, solidão de gestos, de vazios, de desencontros, de estados de alma de funestas esperanças de que hoje será, o ontem foi e o amanhã vamos ver…

Solidão de percursos antagónicos como diferentes os trilhos percorridos.

Tudo isto por causa do medo e do escuro, do sobressalto temporal, num nocturno adormecido.
O tempo olha para ti com desdém. Não tens idade nem hora, apenas a escuridão da noite que te povoa.

E o medo do escuro na noite ao acordar, generoso e doce, o medo.
Como eu. Distraído mas pensador, de infinita bondade rodeado de ideias com o cérebro atafulhado de novas cores, novos quadrantes.
O que é isto se não sonhos?

Aqueles acontecimentos que colocamos numa gaveta a meio da cómoda onde alojamos sentimentos.
Umas vezes junto aos lenços perfumados, coloco os sonhos amarfanhados, outras, arrumadinhos e vincados.
Consoante chegam, a gaveta enche e chega a abarrotar.

Os sonhos nunca são demais, por isso pouco ligo ao inchaço da gaveta.

Medos em sobressalto que evocam risos de infância, a exaltação de uma primeira paixão, a memória de viagens a locais por descobrir. Cores e cheiros, canela e cor de fogo, intensos,límpidos e cristalinos, vales verdejantes, céu aberto à harmonia.

Somos uma vida de pedras soltas, colocadas energicamente umas sobre as outras estrategicamente preparadas.

O medo e a noite.

Já não tenho medo, mas se tiver que chorar... choro.
Esse medo não tenho.

Comentários

Anónimo disse…
“Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear, ou fazer sexo...
Isto é carência.
Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar...
Isto é saudade.
Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos...
Isto é equilíbrio.
Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida...
Isto é um princípio da natureza.
Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado...
Isto é circunstância.
Solidão é muito mais que isto.
Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa Alma.” Francisco Buarque de Holanda

Um beijinho da "Carla"
Paula disse…
Tenho medo de não ter tempo para ti
Medo do adeus que sei irá acontecer
Medo que um sentimento me avassale
Sem que eu o controle
E me convença que afinal a vida é a preto e branco
Que as cores foram para outras galáxias
E que o meu sorriso se desvaneça
Na escuridão do vazio…

Abraço
Moura ao Luar disse…
Gosto de sentir a liberdade que as lágrimas me trazem quando tenho a coragem de chorar. beijo

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