02 outubro, 2007



















Tens medo.
Medo dos meus beijos sem ensaio geral ou antestreia
do inócuo, do profundamente gentil, do terrivelmente belo, do sumptuoso desejo.

Medo de me teres, de confundires tempo com espaço, de trocares os dias pelas noites, a negritude pela coragem e de te perderes na voragem dos dias.

Tens medo,
por isso fazes um cerimonial de palavras desacertadas quando chegas sem avisar,
e procuras a geometria do meu corpo quando bates à porta do coração.

Fixas o meu no teu olhar
e regresso devagar ao teu sorriso
como quem encontra harpas num musical inesperado.

Tens medo
das partituras que trago comigo
do doce solfejo em que te encontras
no âmago da solidão que nos invade
receosas, tenebrosas,
como vasos baratos de roseiras despidas.

Tens medo
que escape sorrateiro pela calada, ou que me desactive temporariamente
como palavras recheadas de adjectivos em perífrases prolongadas.

4 comentários:

olhos grandes disse...

bonito texto...
continua com a beleza das palavras que nos faz vir aqui ao teu cantinho!

Paula disse...

Realmente o tema do "Medo", é sempre interesssante! Também escrevi um poema a certa altura sobre o medo! Infelizmente algumas críticas sobre ele, foram menos positivas! Mas escrever é um risco!
Há sempre quem adore e há quem deteste! As duas reacções são boas porque intensas! As indiferentes é que são negativas!
O seu poema invadiu-me a mente completamente! Fez-me esboçar um sorriso e deu-me um pouco mais de felicidade! Adoro sintonias intelectuais!

Anónimo disse...

A sensação do chão a fugir de baixo de nossos pés... O medo de perder o controlo, o receio da queda, do abismo... Mas felizes os que, mesmo com medo, se lançaram e que assim descobriram que podiam voar!

Anónimo disse...

Ler os teus poemas é descobrir o que se oculta dentro de nós no rebuliço do dia a dia. Não há tempo para "nos" sentirmos, "nos" ouvirmos porque nos deixamos arrastar pelo caminho dos outros... só nos damos conta quando o vazio nos surge, forte, impetuoso, sem clemência. Sempre gostei de te ler e já ha uns tempos que o não fazia. Faz-me bem "ouvir-te" porque sinto o eco, desperto o meu outro lado e percebo que há luz do outro lado. E essa partilha, mesmo que virtual, deixa-me com menos medo! Continua sempre.