24 novembro, 2007







Dançamos de novo?

Todos os outros ruídos se silenciam para ficar apenas a melodia liquida de
uma união entre dois corpos que se embalam numa corrente de harmonia melodiosa.

Hoje, apetece-me dançar de novo…

Colaste-te a mim como tatuagem e o teu cheiro cobriu-me como pétalas coloridas

Fazes a minha alma dançar ao ritmo do tango em voltas e voltas que não param mais.

“Carlos Gardel” seria aluno de tão brilhante professora, eu, apenas ritmava passo em compasso de uma doce espera por ti.

Enrolo, viro e reviro e passo a passo conquisto o espaço entre nós.

Voltas-me e enlaças-me, esticas o braço e afastas-me num doce tornear de ancas e o meu coração é uma pergunta difícil que não encontra resposta a não ser em ti.

Agarrei-te de novo e num assomo de importância levantei a cabeça e rodei contigo colada e ombros nos ombros e braços nos braços e coxas nas pernas ou pernas nas coxas que já de mim nem sei…

E perdi-me no tempo e no espaço e atirei com o dia ao chão pontapeei as horas e liquidei os minutos…

E vamos “a volver” e “el dia que me quieras” não acabam nunca, num sapateado que me enlouquece.

Hoje apetece-me dançar contigo…

Porque a vida inteira é pouco para o abraço imenso que te quero dar













As folhas vão caindo neste Outono Primaveril.
As noites são cada vez mais longas e eu esmoreço de mim.

Perdi o passo ligeiro e curvo as mãos para dentro.

Em vão, procuro alhear-me, mas as pessoas caminham cansadas, evoluem em câmara lenta, de vez em quando levantam voo.

Eu olho-as e pergunto se serão Anjos…

Quantos buracos negros na alma terão de tapar para conseguir sorrir por dentro?

Porque tanta gente espeta pregos nas orelhas, nos lábios, na língua e no rosto ?

Porque exorcismo reviram as sobrancelhas e não tomam o tempo que o tempo lhes dá ?

Olhava o balão da máquina de café que aos poucos enchia, enquanto o rádio debitava decibéis de insuportável pandemia acústica

A brisa que solta corpos ondulantes e sacode pedaços de ti

Eu olho-te e pergunto se serás Anjo…

Por vezes, não consigo ver para além da saudade

Enquanto a torrada se faz...

eu viro-me para dentro à procura de mim.

07 novembro, 2007










A morte enfrenta-nos em cada pedaço de caminho em cada segundo de vida.
Quando confrontados com choques violentos, atropelamentos mortais, carros despedaçados, famílias desfeitas, crianças pelo chão, corpos tapados, ganhamos consciência de como a vida se decide num click.

Nesses momentos imaginamos a alegria das pessoas no percurso efectuado, as conversas tidas, as imagens retidas, o sofrimento dos familiares, os filhos, as mães, tudo.

Numa altura em que nos vendem milagres ao molhos, desde depositar as células num congelador, utilizar o ADN para resolver problemas futuros, conservar o cordão umbilical, não comer gorduras nem sal, fazer exercício físico, beber chás milagrosos, um tinto que faz bem ao coração, dentes de alho para a circulação, um pouquinho de chocolate que ajuda a depressão, rezar pai-nosso e fazer figas no sopé de uma montanha, de tudo nos impingem para garantir a imortalidade.
Mas, nem as redomas de vidro ou os elixires de “Itapuama” nos ajudam.

Temos como hábito entregar à Divina Providência a nossa vida e o futuro da nossa gente, mas quando chega a hora, até a Senhora de Fátima discorda dessa irresponsabilidade.
Se pensarmos um pouco, verificamos que, depois de devidamente abençoados com velinhas colocadas no milionário santuário, rezas e orações com terços a circular por entre os dedos, já vai no segundo autocarro que regressa de Fátima e cai numa ravina.

Portanto, o que se sugere é que se viva, com intensidade e alegria, que tratemos bem o próximo, rindo e saltando, beijando e amando, não desperdiçando a oportunidade de dizermos a quem amamos o que sentimos.
Esta vida já de si difícil é mesmo um fiozinho muito ténue.

03 novembro, 2007













O sino tocava pelas 5 da tarde e na rua toda a gente parava

Os homens tiravam o chapéu, algumas mulheres benziam-se. Os homens ainda usavam chapéu.
Não sabia o significado daquilo tudo, mas aquele minuto tinha um silêncio que doía.
Balbuciava-se baixinho e as pessoas apressavam o passo.
Todos se dirigiam para o mesmo local, a igreja paroquial.

Nessa época os dias tinham um cheiro morno que não consigo definir, as árvores cresciam, as plantas esgrimiam argumentos de cores garridas.

O sino tocava acordes vários e cada um tomava o seu lugar, a homilia serena despertava corações em remanso atingindo os mais incautos.
O preto dominava, assim como a longevidade dos presentes.

No largo, pequenos pombos depenicavam restos de presença entre os sobrantes da calçada.

Manuel gostava de Maria que gostava de Manuel, mas não podia.
Maria falava com Manuel deixando espaços em branco entre as palavras.
Manuel olhava com ternura e debitava frases coloridas e Maria corava, arfando por entre dentes.

A vida não acaba. Existe sempre um amanhã. Assim falava o Senhor Prior quando se dirigia aos fiéis.

No Minho da minha infância estes dias eram anos.
As lagoas no sopé das serras, as colinas, as grandes planícies as ravinas enclausuradas, os vales e as flores indescritíveis do Minho Português permanecem pelo tempo.

Gosto de poesia desarrumada e de romances históricos. Também acolho bem as crónicas mais concisas e directas e mais eloquentes. Aprendi a ler o JN nessas visitas em conjunto com uns rojões e um cabrito bem apaladado.

Lembro a literatura popular nas férias de Braga, Ponte de Lima e as ondas frias do mar da Foz e de Moledo.
Do vinhedo minhoto recebi luz, cheiro e sabor agridoce.
Do mosto vinha um aroma que empatava o bacalhau desfiado com azeite, muita cebola e azeitona misturada com broa nas quintas de Entre-Os-Rios

Também os livros do Tintim, Astérix e os inconfessáveis do Pato Donald, Mickey, Patinhas e o sortudo Gastão, faziam das tardes intermináveis um contraponto com o verde que escorria das garrafas geladas e as cataplanas de Vigo com marisco em abundância mais os caramelos de Tuy.

O sino tocava e as procissões abundavam com Anjos vestidos de meninas e meninas emparedadas em asas.

Os homens usavam chapéu, o Manuel gostava da Maria que gostava do Manuel, mas não podia, e ainda hoje o sino toca pelas 5 da tarde, na Igreja do Largo, engalanada pelas festividades minhotas, enquanto o Senhor Prior oferecia bilhetes para o céu a troco de penitências na terra.
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