03 novembro, 2007













O sino tocava pelas 5 da tarde e na rua toda a gente parava

Os homens tiravam o chapéu, algumas mulheres benziam-se. Os homens ainda usavam chapéu.
Não sabia o significado daquilo tudo, mas aquele minuto tinha um silêncio que doía.
Balbuciava-se baixinho e as pessoas apressavam o passo.
Todos se dirigiam para o mesmo local, a igreja paroquial.

Nessa época os dias tinham um cheiro morno que não consigo definir, as árvores cresciam, as plantas esgrimiam argumentos de cores garridas.

O sino tocava acordes vários e cada um tomava o seu lugar, a homilia serena despertava corações em remanso atingindo os mais incautos.
O preto dominava, assim como a longevidade dos presentes.

No largo, pequenos pombos depenicavam restos de presença entre os sobrantes da calçada.

Manuel gostava de Maria que gostava de Manuel, mas não podia.
Maria falava com Manuel deixando espaços em branco entre as palavras.
Manuel olhava com ternura e debitava frases coloridas e Maria corava, arfando por entre dentes.

A vida não acaba. Existe sempre um amanhã. Assim falava o Senhor Prior quando se dirigia aos fiéis.

No Minho da minha infância estes dias eram anos.
As lagoas no sopé das serras, as colinas, as grandes planícies as ravinas enclausuradas, os vales e as flores indescritíveis do Minho Português permanecem pelo tempo.

Gosto de poesia desarrumada e de romances históricos. Também acolho bem as crónicas mais concisas e directas e mais eloquentes. Aprendi a ler o JN nessas visitas em conjunto com uns rojões e um cabrito bem apaladado.

Lembro a literatura popular nas férias de Braga, Ponte de Lima e as ondas frias do mar da Foz e de Moledo.
Do vinhedo minhoto recebi luz, cheiro e sabor agridoce.
Do mosto vinha um aroma que empatava o bacalhau desfiado com azeite, muita cebola e azeitona misturada com broa nas quintas de Entre-Os-Rios

Também os livros do Tintim, Astérix e os inconfessáveis do Pato Donald, Mickey, Patinhas e o sortudo Gastão, faziam das tardes intermináveis um contraponto com o verde que escorria das garrafas geladas e as cataplanas de Vigo com marisco em abundância mais os caramelos de Tuy.

O sino tocava e as procissões abundavam com Anjos vestidos de meninas e meninas emparedadas em asas.

Os homens usavam chapéu, o Manuel gostava da Maria que gostava do Manuel, mas não podia, e ainda hoje o sino toca pelas 5 da tarde, na Igreja do Largo, engalanada pelas festividades minhotas, enquanto o Senhor Prior oferecia bilhetes para o céu a troco de penitências na terra.
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2 comentários:

Paula disse...

Uma apologia cheia de ternura ao Minho!

E como o Minho é lindo!!
Lindo na paisagem e genuíno nas gentes!
Abraço

Anónimo disse...

Afinal a tradição ainda é o que era!!!!!
ainda bem...porque a ternura com que vestiste o teu post, roubou-me um sorriso.....
Lu