29 dezembro, 2007

Feliz Ano Novo 2008!





"Dentro de alguns dias, um Ano Novo vai chegar a esta estação.

Se não puder ser o maquinista, seja o seu mais divertido passageiro.

Procure um lugar próximo à janela desfrute cada uma das paisagens
que o tempo lhe oferecer, com o prazer de quem realiza a primeira viagem.

Não se assuste com os abismos, nem com as curvas que não deixam
ver os caminhos que estão por vir.

Procure curtir a viagem da vida, observando cada arbusto, cada riacho,
beirais de estrada e tons mutantes de paisagem.

Desdobre o mapa e planeie roteiros.

Preste atenção em cada ponto de parada, e fique atento ao apito da partida.

E quando decidir descer na estação onde a esperança lhe acenou não hesite.
Desembarque nela os seus sonhos...

Desejo que a sua viagem pelos dias do próximo ano 2008, seja de
PRIMEIRA CLASSE."



Muito OBRIGADO
pela força,
pelas visitas,
pela paciência.
e pela Amizade.


JOSÉ PEDRO VIEGAS

26 dezembro, 2007







Sabias-me de cor pelo cheiro, aroma fresco de ternura
Pela música translúcida dos teus lábios em mim

E sabendo-me partido em pedaços, colavas com beijos, saliva e suor na pele rasgada
…e descobríamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.

olhando-te no teu corpo de mulher
Esboçavas rabiscos teus em mim
Como só nós podíamos inventar, novas cores, novos aromas, novos e renovados desejos.

E quando exaustos fechavam os olhos, ainda éramos nós, pinturas soltas e alegres de amantes pendurados no desejo de aguarelas nuas como Van Gogh.

E ver-te nem que pela ultima vez,
Inebriante desejo de orgasmos infindos, como pétalas que se soltam em lugares recônditos do teu corpo, em cheiros e formas e desejos

E ver-te feliz

Com solfejos de lábios em mim, ardendo num contorno, retorno de doces morangos em pele humedecida pelo toque de frutos silvestres em chocolate feito eu.

E busco e rebusco imagem de ti
Com ganas de te engolir inteira, de um trago, de uma só vez
E desapareceres em mim, como eu em ti.

E já soltos e mortos para o mundo voamos em paletes de cores garridas por quadros de pintores famosos como asas de Anjos que sentimos, mas não vemos.

25 dezembro, 2007

Paranoico...










Detesto Dezembro.
Por mim saltava de Novembro directo a Janeiro.
Largava as compras e os enfeites de Natal mais as montras cravejadas de coisas bonitas e eu cabisbaixo, melancólico e cansado.

Tenho um cisco no olho e uma lágrima. Lá no canto, bem no canto do olho. Aí mesmo. Dá p´ra ver ?... Que coisa… eu nunca tenho lágrima no olho…

E tanta gente nas ruas… mais parece Pequim.
O que anda esta gente toda a fazer ?
Sorriem ? Mas porquê ? Desejam Boas-Festas ? Feliz Natal ? Mas será que as festas são mesmo boas e o Natal tão feliz assim ?

Nestas ruas apinhadas de gente, parece que ando de metro em hora de ponta.
Um chega p´ra lá… um abana aqui… um que empurra ali…. chiça.
Até o tipo lá da frente parece o condutor .
- “ Estação dos Restauradores…” Estação do Rossio…” Estação Paraíso”…

Pois só pode… estação Paraiso, na época de Natal…

Estou estranho. Ando estranho.
Aliás, sou estranho, e estou a ficar mais estranho ainda.

Qual Xanax qual Prozac, qual quê... Estou cheio de paranoias…

Tenho sentido alguém que me persegue. Olhares, gestos, vigias por espelhos, sensações esquisitas e um arrepio na espinha.
A porta abriu no café da esquina. Ela saiu atrás de mim. Olha-me sorrateiramente, mas olha-me.
Já acelerei o passo. Estou ofegante, ela disfarça. Põe óculos, tira óculos, Pára. Arranca. Está a ficar para trás.

Calma. Eu sei que isto é táctica. Outro dia vi o 24 h e reparei numa cena idêntica. Eles fazem de propósito para pensarmos que não nos perseguem.

Ainda me vai aparecer de frente. E eu… sei lá o que faço. Corro, fujo ou enfrento ?
Vou falar com ela… “.. desculpe, tem horas ?... “ – bolas, tenho a garganta seca.

Acho que nâo vou conseguir.

Eu também não tenho horas. Aliás eu nunca tenho horas para nada e coisa nenhuma.
Eu passo das horas e salto os minutos. Liquido as horas e extrapulo o tempo.

Desperdiço horas e passo da hora certa. Também as estico (sim, as horas) e desperdiço. Malditas horas. Essas também me perseguem… as horas.

Nunca param.
Olho fixamente os ponteiros… e eles…. Tic-Tac-Tic-Tac, cadenciados, certinhos, sem falas.
Os das horas, depois os dos minutos, mais os dos segundos, mais rápidos, bem mais rapidos.

Fico fulo da vida com esta historia das horas e dos dominios que fazem sobre nós (sobre mim).

Hora de levantar, hora de escovar os dentes e hora de sair de casa. Hora de entrar no emprego e hora do café, mais hora do almoço e hora disto e daquilo e daquele outro e… raios partam o tempo.

Mas fico fulo e sinto-me dominar por essa chatice de forças primitivas que me absorvem o corpo e a mente e a força e me impelem a vingar-me de todos e cada um de nós pelo tempo que perdemos e desperdiçamos.

E quero fazer pagar pelos crimes hediondos a que assistimos diariamente e pela desfaçatez de politiquices que cirandam por aí a toda a hora.

Ora... horas. Sim, as horas… as horas são chatas, controladoras. Chatas.
Mas que se lixem as horas. E neste espaço de tempo a fulana que me perseguia também desapareceu.

Ela volta… sim. Sei que volta.
Voltará um dia para me sacudir o esqueleto e provocar-me a atenção.
Mas que posso fazer… Olho ? não olho? Disfarço ? Mas como ?

Eu tenho grandes pensamentos.
Não deve ser normal uma pessoa ter zilhões de pensamentos por segundo sem que nenhum deles esteja necessariamente correlacionado.

O horizonte parece tão longe e eu não consigo avistá-lo daqui.
Preciso subir, subir, subir….preciso olhar de cima, por cima. Por vezes subo no cimo de um prédio e vejo a cidade inteira apenas coberta por nuvens cinza.

Chovia. E eu pensei que não podia apanhar chuva, pois o eletromagnestismo existente podia-se estragar com os pingos da chuva. E eu posso ficar estragado.

Tenho 28 anos e ainda me sinto um pouco deslocado.
Como se tivesse 14 ou coisa que o valha. Tremo só de pensar. Quando vou terminar esta adolescência eterna ?

Porque não cresço? Raio de borbulhas que me invadem o corpo e pele…
Onde assino o atestado de perdedor? Numa folha de 25 linhas azul? E onde? No picotado ou já aqui? E posso molhar o dedo na almofada e colocar a impressão digital? É que odeio a minha letra e a forma leve e teimosa de escrita.

Devo ser esquizofrenico.
Letra teimosa... humm… letra de miudo da primária.
Letra torta e escorregadia.

Ontem caí. Devia ir a pensar na letra ou na tipa que me perseguia ou nas horas.
Já nem me lembro. Mas sei que caí. Devo ter escorregado e fiquei logo com uma mancha negra e o braço dorido.
Sou destrambelhado, desorganizado, desarranjado, disparatado.

E tambem devo ser esquizofrenico pois não paro de pensar na razão porque caí e porque há 10 anos subi pela primeira vez a uma árvore.

Mas porque raio aparece aqui a árvore neste texto ?

Tenho de adaptar a árvore a qualquer coisa. Transformar isto tudo numa versão Beta 3.5.

Ou dar-lhe um toque cosmético.

Por falar em cosmético, lembrei-me agora que tinha um cisco no olho, bem ao canto do olho e não saiu. E a lágrima... mas eu nunca choro, porquê a lágrima?

Sou apenas um adolescente e as miudas não me largam.
Sobretudo a Joana Macaca Rabana. É linda como o Sol e magra como um funil.
E eu aqui embeiçado por ela e o raio das horas que me atormentam e o cisco do olho que não sai. Já a Isabel pensou que eu estava a fazer-me a ela, de tanto piscar o olho.

Nunca entendi nada. Nada.
Sempre me esforcei tanto, sempre fui tão fundo em tudo... p´ra continuar sem resposta alguma. Porque razão ainda te oiço, aliás?
Tu és e serás sempre o meu limite profundo.
O meu Alter-Ego.
O meu abismo. O tudo e o nada que me engole.
Tu e o cisco e a lágrima,e as horas mais as esquizófrenias, e a fulana de óculos escuros que me perseguia, mas parece que não...mais… sei lá eu.

E o raio da árvore que parou por aqui sem eu saber.
O que faz a árvore neste texto

Estou a ficar paranóico, não estou ?

20 dezembro, 2007










É Dezembro.

Caminho apressadamente para mais um aniversário … está quase…

Interrogo-me e olho-me no espelho. Caramba… rugas, entradas, meu Deus… como estás velho.

Sinto-me repartindo, desconstruindo, desmanchando, derretendo.

Espalhado, transformo-me em mil pedaços que dificilmente se juntam todos, ficando alguma peça por encaixar. A da senilidade vem já a seguir…

Olho-me por dentro, em diferentes ângulos e formas e revejo-me em jeitos e trejeitos num caleidoscópio emocional.

Faço “rewind” no meu percurso e saudoso recordo ciclos de vida com ternura.

Abraços que não dei, beijos que ficaram por dar, sentimentos mal transmitidos, olhares cúmplices, toques de amizade e tanto tanto por dizer e outro tanto por fazer.

E é Dezembro.

Estou nostálgico como em todos os Dezembros desta vida.
Não sou propriamente um consumidor das corridas e festejos de Natal, mas a época traz recordações, angustias e amarguras.

Não se pode estar com um pé no passado e o “cu” sentado no presente (já dizia um velho professor).

E é Dezembro.

Sei disso e de outras coisas.
Sei de sonhos e fantasias, de realidades pesadelos e sensações. Sei de ansiedades, pânicos e comportamentos.

Sei das horas e do tempo e estradas mais avenidas desertas em madrugadas sem fim.

E sei do sabor da maçã, o doce da tua pele e pouco de mim sei.

E sei do inverno do vento em que choro, de sinapses, acordes, terapias e memórias com pensamentos oblíquos, quadrados e rectos, e algumas razões.

Estou perto de mais um aniversário natalício e é de novo Dezembro.

E transformo-me em malabarista, ilusionista, vendedor de banha-da-cobra, para me esconder de mim.

Abanei o mês, atirei com o dia ao chão, pontapeei as horas e matei os minutos a fazer palavras cruzadas sem encontrar significados.

Até um dia… quem sabe…!

18 dezembro, 2007







Era ternura envolta em nuvens de algodão.

Abriu horizontes, perdeu colegas e seduziu outros com a tenacidade feminina que alguns homens teimam em subestimar.

Acabou o verão igual a tantos outros e choveram Invernos uns atrás dos outros.

Passaram vinte anos.

Dobraram-se Cabos Bojadores e Tormentas, mais alguns naufrágios pelo meio.
Nunca se esqueceram.

Davam-se com serenidade, completando-se.
Ela mais afoita ele quietude. Ela mais incisiva ele rodeava.
Tornavam os dias mais redondos e as horas mais suaves.

Não se prendia a quase nada, talvez para não se magoar.
Vestia-se de armadura como cavaleira de quatro em riste, mas sentia-lhe o soluçar interior no olhar.

Hoje tempo passado sinto-lhe a falta das palavras que saíam soltas da boca, por vezes sem intervalos

Éramos como musica. Íamos aprendendo a letra, o ritmo e a melodia. Aos poucos.
Quando se pensava saber tudo de cor, os ritmos surgiam de maneira diferente

O Céu continua fechado por nuvens que não querem desaparecer.

Desconfio que o tempo anda demasiado ocupado e que a vida se esqueceu que ainda ando por cá.

Passaram vinte anos.

Lembrou-se da dança das palavras desacertadas, do cerimonial de desencontros, de histórias sem nome e sem rosto.

E escreveram-se sem se sentirem, sentiram sem se ouvirem, e guardaram num fundo de si, notas musicais como quando se tocavam e diziam tanto sem falarem.

Abrigava-se da dor como da chuva ácida, mas procurava inspirar o mesmo ar, que partilhavam com ternura.

Mais tarde, reencontraram-se no Céu pintando anjos na neve. Ela intensa, doce e bravia, ele mel, paz e carinho.

Afinal… podiam continuar assim para sempre…

11 dezembro, 2007











Toco a tua boca.

Levemente, suavemente com os dedos sentindo todo o contorno dos lábios, vou desenhando essa boca como se pintasse um quadro em pinceladas suaves.

Levemente, suavemente, repouso o meu nariz no teu e percorro as fragrâncias suaves do teu beijo ao chegar os meus nos teus.

Unimos os lábios, a pessoa, a fragrância colorida que emanas de ti como se tivéssemos a boca cheia de flores perfumadas em movimentos vivos.

E se nos perdermos em aromas lancinantes, perdemo-nos os dois.

Se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogarmos num breve e terrível absorver de fôlego, essa instantânea morte é eloquente e bela.

E toco e retoco a tua boca, com um cerimonial de palavras incertas em momentos incertos de pessoas inseguras

E procuro e encontro e vejo e revejo e repito num interminável Bolero, que partilhamos numa conjugada cumplicidade.

Toco a tua boca como me tocas a mim em lances suaves de toques ritmados numa doce e terna loucura.

10 dezembro, 2007














Está sentado num banco de jardim, sozinho, oco.

Completamente oco e sozinho. Apenas uma melodia o acompanha vinda não sei de onde.
Passo por ele diariamente. Observo.

Limpo, cuidado, mas triste, sempre muito triste. Cabisbaixo, animicamente abatido.
Uns olhos azuis que em tempos devem ter sido brilhantes e faiscantes, hoje sem brilho e pouca cor.

Alguém se aproxima... e ele:
- Sai já daqui. Vai morrer longe. Vadio, grande vadio.
... E uns olhos de fome entranhados nos ossos que desaparece.

…De repente, ao fim de alguns meses…
- “Bom dia Dr.
E eu, incrédulo e ao mesmo tempo envergonhado respondo.
- Ah… olá. Bom dia para si também.
- Bem reparo que o Dr. todos os dias olha para mim e até já me tem dito os bons dias, mas pensava que era mais um a ter pena desta velha carcaça. Mas não.
Você olha-me diferente. Olha-me como gente. Com um sorriso e simpatia. E agradeço-lhe por isso. Por me considerar gente. E Vc nem imagina as centenas de pessoas que aqui passam e nem olham para este velho.Eu conheço-os a todos. A si aos seus colegas, aos outros que aqui passam. A todos.

- Peço desculpa, mas realmente tenho reparado que passa aqui os seus dias e questiono-me porque o fará…

- Sabe, já não tenho muita força nem grande vontade a não ser ficar aqui.
Apanho sol, vejo gente, espreito o jornal e aguardo a minha hora. Sim, porque nada mais me resta...
Mas Vcs, rapazes mais novos, não vos auguro grande futuro.
As pessoas são cínicas, perderam a vergonha, mentem. Vivemos num Mundo em que dois lados lutam entre si por petróleo, ganância, armas, diamantes.
Uns são apelidados de terroristas aos outros de justiça, quando são exactamente iguais mas usam máscaras diferentes.

Todos se fecham e resguardam dentro de si, das suas vidas, cada vez mais amargas e violentas, quando deviam estar agradecidas pelo simples facto de viverem...

Quando olho à minha volta só vejo interesses mesquinhos e pessoas que se queixam de tudo, talvez tenha estado cego este tempo todo e pensado que o mundo era melhor mas agora vejo que as pessoas são seres que caminham para a insensibilidade e para a cegueira eterna.

- Mas…Senhor….
- Só lhe posso agradecer. Sabe que nesta luta diária pela vida e pelo tempo que escasseia como se o dia já não albergasse as 24 horas, esquecemos ou tendemos a esquecer essas verdades. Por isso lhe agradeço por mo recordar.

Completamente sozinho continuou. Já não tão oco, já não tão só pelo menos aparentemente.
E durante meses fomos trocando cumprimentos, palavras, desabafos de circunstância. Mostrava alguma pose e muita convicção. Também muita revolta e angústia, desalento pelo hoje e pelo futuro.

Um dia, sem me aperceber a melodia parou.
Os ritmos outrora cadenciados deixaram de ter significado.

Aquele Homem só, observador e invariavelmente oco na sua expressão, partiu.

Hoje, dia de cimeira EU-África, lembrei-me deste episódio e destas palavras.

E questiono-me se não andarão por aí umas aves de rapina à volta dos despojos do sorriso daquele Homem e se os seus “gritos” não ecoam no coração de todos nós?

06 dezembro, 2007

ESTOU UM DESERTO DE IDEIAS…















Deixo por vezes o meu corpo em suspenso num estendal.
Viro e reviro, passo por mangas e cós, do direito, do avesso, torço, sacudo e deixo a secar.
Resgato-me de mim em ideias que não percorrem meninges cansadas, ou repletas de mil e uma coisas mil.

Refugio-me em masmorras de choros e insegurança, que aperto contra mim e revejo pedaços de alma florida em jardins de Éden.

Sorrio por entre máscaras inexpressivas de dias adormecidos mergulhando no lado do esquecimento…

… e solto-me do estendal.

Inteira carcaça que revolta margens do rio do meu ser.
Fortes tempestades que amainei em cores e aromas de tanta espera… por ti.

Confuso o tempo, confusa a vida e a mente desprovida de razão, ou tão só repleta de certezas e razões fortes de palavra… sentimento.

Por entre névoas de paixão contida, retraída e nua, rompendo por breve instante o silêncio de sonhos em contramão.

Sinto a voz cansada e seca e o peito ardente por quebrar cercos e muros e cérebros agrilhoados.

E encosto-me no parapeito do abismo, esperando escorregar pela noite.
Corpo de braços e pernas e tronco e mãos que se atam e desatam e não sabem como fazer nem parar ou soltar e esvoaçam num túnel de vento, ganhando asas e ressurgindo como Anjo em manto branco de paz e silêncio e harmonia.

E olho o vosso rosto e vejo-vos cansados e gastos.
Rostos que arrastam os seus donos como alguns corpos… almas.

03 dezembro, 2007














Sou mesmo “despassarado” ou “deslembrado” ou esquecido ou “cabeça no ar” ou mais concretamente distraído.
Sou assim uma dessas coisas, porque nunca recordo datas e por vezes não encontro a cara no nome nem o nome da cara de um sujeito qualquer.
A idade não perdoa e os neurónios já não são o que eram, se é que alguma vez foram alguma coisa de jeito.
Eu coloco lembretes no telemóvel, na agenda, no portátil, mas falha sempre alguma coisa.

Mas jamais esquecerei a Lua que vi hoje.
Linda, sedutora, sonhadora, deslumbrante.
Uma lua cheia vigorosa, resplandescente.

E aí lembrei-me do arco-íris e dos caminhos que percorremos nesta vida.
Lembram-se do “Feiticeiro de Oz”? Pois foi nessa imagem que me fixei.

O raio do caminho que escolhemos ou que deixamos que nos escolha.
Caminhos onde nos perdemos, ruas que nos levam a lugar nenhum e uns abelhudos de uns tipos que nos tapam o Sol e fazem andar às escuras.

Já vivi caminhos e veredas e estradas largas e azinhagas escuras e realmente existem espaços, caminhos e percursos sinuosos.

Escolher caminhos nesta vida é como tirar uma pedra do sapato, quanto mais dói mais nos apetece que fique, numa auto-flagelação que assusta.

Um amigo, começou em noites de nuvens, com luas em quarto-minguante e estrelas brilhantes. Apanhou as estrelas e meteu-as num frasco de cristal.
Levava o coração apertadinho numa mão e as estrelas na outra. Fatinho aprumado, cabelo três-quartos e sapatos que reluziam num festival de espelhos.

Até meio caminho percorrido nesta estrada da vida, tudo decorreu da melhor forma, mas depois de tanto dar e pouco receber numa partilha de oferendas ficou num céu sem sol e estrelas perdidas em saco roto.

Outro, pegaram-lhe na mão e arrebatadoramente disseram: - “Vamos?”
E ele… nada. Nem reagiu de tão estupefacto por tamanha prova de amor sem rede.
O “vamos” tilintou na cabeça durante alguns minutos, um calor inquietante, fruto da mão quente que lhe acariciava a pele.

Aceitou o desafio e trocou-o por beijos e sorrisos e gargalhadas de coisas sem nexo como corpos que se encaixam na perfeição e se puxam um ao outro inexplicavelmente.
Teres aquela mão que se move na tua e enlaça e entrelaça e que te puxa, levando não sabes para onde, ainda que o saibas perfeitamente…
...É assustador... E perfeito.

Para outros o vento da vida já não traz nada de volta. Estão sós e continuam, como num barco pequeno atolado de coisas mil e insanas loucuras.
E deixam no espelho em que se olham sorrisos para recordarem, como se o arco-íris qual estrada, caísse junto à janela, com folículos cintilantes de luz…