10 dezembro, 2007














Está sentado num banco de jardim, sozinho, oco.

Completamente oco e sozinho. Apenas uma melodia o acompanha vinda não sei de onde.
Passo por ele diariamente. Observo.

Limpo, cuidado, mas triste, sempre muito triste. Cabisbaixo, animicamente abatido.
Uns olhos azuis que em tempos devem ter sido brilhantes e faiscantes, hoje sem brilho e pouca cor.

Alguém se aproxima... e ele:
- Sai já daqui. Vai morrer longe. Vadio, grande vadio.
... E uns olhos de fome entranhados nos ossos que desaparece.

…De repente, ao fim de alguns meses…
- “Bom dia Dr.
E eu, incrédulo e ao mesmo tempo envergonhado respondo.
- Ah… olá. Bom dia para si também.
- Bem reparo que o Dr. todos os dias olha para mim e até já me tem dito os bons dias, mas pensava que era mais um a ter pena desta velha carcaça. Mas não.
Você olha-me diferente. Olha-me como gente. Com um sorriso e simpatia. E agradeço-lhe por isso. Por me considerar gente. E Vc nem imagina as centenas de pessoas que aqui passam e nem olham para este velho.Eu conheço-os a todos. A si aos seus colegas, aos outros que aqui passam. A todos.

- Peço desculpa, mas realmente tenho reparado que passa aqui os seus dias e questiono-me porque o fará…

- Sabe, já não tenho muita força nem grande vontade a não ser ficar aqui.
Apanho sol, vejo gente, espreito o jornal e aguardo a minha hora. Sim, porque nada mais me resta...
Mas Vcs, rapazes mais novos, não vos auguro grande futuro.
As pessoas são cínicas, perderam a vergonha, mentem. Vivemos num Mundo em que dois lados lutam entre si por petróleo, ganância, armas, diamantes.
Uns são apelidados de terroristas aos outros de justiça, quando são exactamente iguais mas usam máscaras diferentes.

Todos se fecham e resguardam dentro de si, das suas vidas, cada vez mais amargas e violentas, quando deviam estar agradecidas pelo simples facto de viverem...

Quando olho à minha volta só vejo interesses mesquinhos e pessoas que se queixam de tudo, talvez tenha estado cego este tempo todo e pensado que o mundo era melhor mas agora vejo que as pessoas são seres que caminham para a insensibilidade e para a cegueira eterna.

- Mas…Senhor….
- Só lhe posso agradecer. Sabe que nesta luta diária pela vida e pelo tempo que escasseia como se o dia já não albergasse as 24 horas, esquecemos ou tendemos a esquecer essas verdades. Por isso lhe agradeço por mo recordar.

Completamente sozinho continuou. Já não tão oco, já não tão só pelo menos aparentemente.
E durante meses fomos trocando cumprimentos, palavras, desabafos de circunstância. Mostrava alguma pose e muita convicção. Também muita revolta e angústia, desalento pelo hoje e pelo futuro.

Um dia, sem me aperceber a melodia parou.
Os ritmos outrora cadenciados deixaram de ter significado.

Aquele Homem só, observador e invariavelmente oco na sua expressão, partiu.

Hoje, dia de cimeira EU-África, lembrei-me deste episódio e destas palavras.

E questiono-me se não andarão por aí umas aves de rapina à volta dos despojos do sorriso daquele Homem e se os seus “gritos” não ecoam no coração de todos nós?

1 comentário:

Paula disse...

Quanta sabedoria pode estar por detrás de um sorriso aparentemente apagado!
E que poder tem um simples olhar!...