Paranoico...










Detesto Dezembro.
Por mim saltava de Novembro directo a Janeiro.
Largava as compras e os enfeites de Natal mais as montras cravejadas de coisas bonitas e eu cabisbaixo, melancólico e cansado.

Tenho um cisco no olho e uma lágrima. Lá no canto, bem no canto do olho. Aí mesmo. Dá p´ra ver ?... Que coisa… eu nunca tenho lágrima no olho…

E tanta gente nas ruas… mais parece Pequim.
O que anda esta gente toda a fazer ?
Sorriem ? Mas porquê ? Desejam Boas-Festas ? Feliz Natal ? Mas será que as festas são mesmo boas e o Natal tão feliz assim ?

Nestas ruas apinhadas de gente, parece que ando de metro em hora de ponta.
Um chega p´ra lá… um abana aqui… um que empurra ali…. chiça.
Até o tipo lá da frente parece o condutor .
- “ Estação dos Restauradores…” Estação do Rossio…” Estação Paraíso”…

Pois só pode… estação Paraiso, na época de Natal…

Estou estranho. Ando estranho.
Aliás, sou estranho, e estou a ficar mais estranho ainda.

Qual Xanax qual Prozac, qual quê... Estou cheio de paranoias…

Tenho sentido alguém que me persegue. Olhares, gestos, vigias por espelhos, sensações esquisitas e um arrepio na espinha.
A porta abriu no café da esquina. Ela saiu atrás de mim. Olha-me sorrateiramente, mas olha-me.
Já acelerei o passo. Estou ofegante, ela disfarça. Põe óculos, tira óculos, Pára. Arranca. Está a ficar para trás.

Calma. Eu sei que isto é táctica. Outro dia vi o 24 h e reparei numa cena idêntica. Eles fazem de propósito para pensarmos que não nos perseguem.

Ainda me vai aparecer de frente. E eu… sei lá o que faço. Corro, fujo ou enfrento ?
Vou falar com ela… “.. desculpe, tem horas ?... “ – bolas, tenho a garganta seca.

Acho que nâo vou conseguir.

Eu também não tenho horas. Aliás eu nunca tenho horas para nada e coisa nenhuma.
Eu passo das horas e salto os minutos. Liquido as horas e extrapulo o tempo.

Desperdiço horas e passo da hora certa. Também as estico (sim, as horas) e desperdiço. Malditas horas. Essas também me perseguem… as horas.

Nunca param.
Olho fixamente os ponteiros… e eles…. Tic-Tac-Tic-Tac, cadenciados, certinhos, sem falas.
Os das horas, depois os dos minutos, mais os dos segundos, mais rápidos, bem mais rapidos.

Fico fulo da vida com esta historia das horas e dos dominios que fazem sobre nós (sobre mim).

Hora de levantar, hora de escovar os dentes e hora de sair de casa. Hora de entrar no emprego e hora do café, mais hora do almoço e hora disto e daquilo e daquele outro e… raios partam o tempo.

Mas fico fulo e sinto-me dominar por essa chatice de forças primitivas que me absorvem o corpo e a mente e a força e me impelem a vingar-me de todos e cada um de nós pelo tempo que perdemos e desperdiçamos.

E quero fazer pagar pelos crimes hediondos a que assistimos diariamente e pela desfaçatez de politiquices que cirandam por aí a toda a hora.

Ora... horas. Sim, as horas… as horas são chatas, controladoras. Chatas.
Mas que se lixem as horas. E neste espaço de tempo a fulana que me perseguia também desapareceu.

Ela volta… sim. Sei que volta.
Voltará um dia para me sacudir o esqueleto e provocar-me a atenção.
Mas que posso fazer… Olho ? não olho? Disfarço ? Mas como ?

Eu tenho grandes pensamentos.
Não deve ser normal uma pessoa ter zilhões de pensamentos por segundo sem que nenhum deles esteja necessariamente correlacionado.

O horizonte parece tão longe e eu não consigo avistá-lo daqui.
Preciso subir, subir, subir….preciso olhar de cima, por cima. Por vezes subo no cimo de um prédio e vejo a cidade inteira apenas coberta por nuvens cinza.

Chovia. E eu pensei que não podia apanhar chuva, pois o eletromagnestismo existente podia-se estragar com os pingos da chuva. E eu posso ficar estragado.

Tenho 28 anos e ainda me sinto um pouco deslocado.
Como se tivesse 14 ou coisa que o valha. Tremo só de pensar. Quando vou terminar esta adolescência eterna ?

Porque não cresço? Raio de borbulhas que me invadem o corpo e pele…
Onde assino o atestado de perdedor? Numa folha de 25 linhas azul? E onde? No picotado ou já aqui? E posso molhar o dedo na almofada e colocar a impressão digital? É que odeio a minha letra e a forma leve e teimosa de escrita.

Devo ser esquizofrenico.
Letra teimosa... humm… letra de miudo da primária.
Letra torta e escorregadia.

Ontem caí. Devia ir a pensar na letra ou na tipa que me perseguia ou nas horas.
Já nem me lembro. Mas sei que caí. Devo ter escorregado e fiquei logo com uma mancha negra e o braço dorido.
Sou destrambelhado, desorganizado, desarranjado, disparatado.

E tambem devo ser esquizofrenico pois não paro de pensar na razão porque caí e porque há 10 anos subi pela primeira vez a uma árvore.

Mas porque raio aparece aqui a árvore neste texto ?

Tenho de adaptar a árvore a qualquer coisa. Transformar isto tudo numa versão Beta 3.5.

Ou dar-lhe um toque cosmético.

Por falar em cosmético, lembrei-me agora que tinha um cisco no olho, bem ao canto do olho e não saiu. E a lágrima... mas eu nunca choro, porquê a lágrima?

Sou apenas um adolescente e as miudas não me largam.
Sobretudo a Joana Macaca Rabana. É linda como o Sol e magra como um funil.
E eu aqui embeiçado por ela e o raio das horas que me atormentam e o cisco do olho que não sai. Já a Isabel pensou que eu estava a fazer-me a ela, de tanto piscar o olho.

Nunca entendi nada. Nada.
Sempre me esforcei tanto, sempre fui tão fundo em tudo... p´ra continuar sem resposta alguma. Porque razão ainda te oiço, aliás?
Tu és e serás sempre o meu limite profundo.
O meu Alter-Ego.
O meu abismo. O tudo e o nada que me engole.
Tu e o cisco e a lágrima,e as horas mais as esquizófrenias, e a fulana de óculos escuros que me perseguia, mas parece que não...mais… sei lá eu.

E o raio da árvore que parou por aqui sem eu saber.
O que faz a árvore neste texto

Estou a ficar paranóico, não estou ?

Comentários

Paula disse…
Texto cheio de humor!
Se são textos que estiveram na gaveta, então bendita a hora em que se lembrou de os partilhar connosco!
Abraço
Anónimo disse…
muito ritmo, rapidez...
linda estafeta!!! :)

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