31 dezembro, 2008

UM SEGREDO FECHADO




Quero ter de novo a minha Fada comigo.

A Fada do dentinho, da amizade, do carinho, da solidão, da alegria e desespero, do agora ou do depois, tanto faz.
Quero é a minha Fada de volta.

Devolvam-ma. Libertem-na.
Preciso dela. Das sua diatribes, dos conselhos, das cócegas no ouvido, dos murros na consciência, das partidas que me pregava.

Quando miúdo, os dias com ela eram uma azáfama de maluqueira.
Os meus amigos não acreditavam que eu tinha uma Fada, mas quando a invocava… zás….
Pózinhos de pirilim-pim-pim pelos ares e … zás….!... Ficavam atónitos de tanta magia.

Coloridos cobriam-nos. Mantos de sol e rasgadas cores destapavam o chão e voávamos para bem longe… até onde a imaginação permitia.

Hoje é tudo plástico.
Pessoas plásticas, atitudes plastificadas, cartões de plástico, sorrisos plásticos, corpos de plástico.

Já não se faz magia.

Da minha Fada, não guardo muros de vergonha, nem curvas traiçoeiras, cínismos ou tratos de polé.
Suavizava com alegria, amaciava o coração, debitava palavras de ânimo e compreensão, que uniam o que o silêncio afastava.

A minha Fada, sabia-me das dores, dos vazios, das feridas que lambia como curandeiro afectivo, e que ela reconhecia como intimo desejo de me resolver.

Era linda a Fada.
Sardas que condiziam com a cor do cabelo, uma ligeira covinha no cantinho da boca, um sorriso milimetricamente desenhado e um olhar de sereia.

Se me perguntassem o que queria… respondia…. Que queria a minha Fada de volta.
Para o meu ombro, o meu aconchego, mesmo com poucos poderes.

Talvez ainda consiga resgatar do meu antigo quarto, no baú das recordações, a varinha e a tiara do cabelo.

Caso consiga e ela desperte…

Será um segredo fechado.

29 dezembro, 2008



















Hoje da minha janela vejo a cidade, o rio colorido com embarcações desassossegadas,
o vinte sete que já não passa, um corredor de bicicletas, e o cambalear dos bêbedos.

Do jardim, vejo o abraçar do fim do dia e de mãos dadas com a noite abraço a madrugada.
Ainda canta a música atrás de mim e o cheiro das rosas que espreitam por entre o relvado que se espraia pela casa.

A ponte engalanada pelo fim de ano na espera do fogo de artificio que se lança em beijos e esboços de corpos, arrastados pelo tudo… ou pelo nada.

Ao cair da noite, o sopro de paixão e a brisa que se apaga num sopro... como a paixão.

Hoje na cidade abandonada de dias envoltos em nuvens de pó, sombrias, conheço as viagens do silêncio. Viagens de circum-navegação por ti, dias a fio, noites infinitas.
E fico ancorado em mim enquanto o teu corpo desce ao cais do desejo.

E de novo a cidade que respira em céu aberto com luz difusa, como silêncios.
Os meus silêncios, vazios, abismos absurdos.

E leio junto à lareira. Um pomar pela vidraça, o apito do comboio na encruzilhada em que se move. Duas linhas, uma, troca de linha, estação, apeadeiro, destino.

O nosso destino no apito de um comboio. A partida e a chegada.
A música que canta atrás de mim, e o cheiro das flores a envolver um abraço na madrugada, enquanto corpos se enlaçam, enredados.

22 dezembro, 2008







Queria resistir, mas fazias-me perder o norte.
Esforçava-me, juro que me esforçava mas paralisava, incerto modo de reagir perante futuro sem vislumbre.

Era noite fria de solidão, um espaço ténue entre ele e a razão.
Tentava em esforço balbuciar palavra, fruto do desejo e sentimento, que fizesse voltar atrás, aos seus braços.

Ainda me percorre a alma e agita o coração em constantes atropelos e labaredas incessantes.
Flutua alegre, não me sai do corpo, beija-me a pele.

Atiça-me como vulcão e esbanja memórias perdidas em mim.
Despe-me com intensidade, cruza-me o olhar e enrola-se entre os dedos.

Fragância suave, envolvente, caprichoso, doce.

Derrama sonetos com canela e suavidade de toque, este
... perfume que me invade.

20 dezembro, 2008

FELIZ NATAL



















Agarra-te a eles na consoada.

Dá-lhes aletria, filhós, rabanadas. Aconchega-os no peito e adoça-lhes
a alma e aquece o coração.

Que não resistam aos teus nem aos mimos dos outros.
Que sejam solidários e capazes, que saltem e brinquem.

Que aguardem pelo Pai Natal, (quem sabe ele chega finalmente), de barba branca, rosadinho e gordito como manda a tradição.

Cuidado com as gomas e o açúcar nos dentes mais o presépio que o musgo seca.
Se os vires agitados pela manhã de 25 na ânsia do sapatinho, enrosca-te com eles na cama e conta-lhes historias de fadas e duendes e príncipes cavaleiros com donzelas a dorsel.

Dá-lhes o canto e um canto, mais a bota e a bola, o chocolate e a cana de pesca.
Não lhes mostres o odioso, nem o assombro, qual inquietação em corações pequeninos.

Na noite do bacalhau e do peru, afasta-lhes as espinhas e o encolho, na direcção do aperto, que o coração está quente e a saudade aperta.
Parte o bolo-rei, e canta-lhe parabéns pois estamos a 24 e ele festeja neste dia.

Não se cheguem à lareira, e aquietem-se de melancolias engalanadas em prendas de laçarotes afivelados.
Escrevam amiúde pedidos e desejos em cartões de boas festas com votos desenhados a relevo.

Neste tempo de espaço perdido no tempo da vida, aperto o cachecol e relembro com paixão e inquieta angustia a consoada em família, quando menino.

Coloco-me na distância exacta do escrito atrás, e povoo pensamentos de épocas longínquas, como figurante e narrador simultâneo.

Um abraço e um beijo engalanado num barrete vermelho e renas saltitantes, com sacos repletos de prendas coloridas que vos aqueçam o coração e vos faça vida mais feliz com saúde a rodos.

FELIZ NATAL

JP

O bilhete














Escrevi-te um bilhete. O ultimo.
Tenho dentro do meu peito um cenário de guerra.
Angustia, inquietação, saudade, medo, ansiedade.
Bulldozers e empilhadoras arrasam-me o bafiento sentido das minhas veias escavadas pelo sangue que gelou na altura da partida.
O ultimo bilhete.

Atravessei campos de batalha, escalei grades nos cenários mais recônditos,
formulei desejos de vingança, apostei cara contra coroa, perdi e ganhei, voltei a perder.
Sufoquei.
Arrastei-me por veredas e caminhos sinuosos, num interior desfeito de amargura, sem luz nem direcção.
O ultimo bilhete.

Sem comiseração, sem drama nem angustia, qual quimera, sem jeito nem despeito nem dor.
A lança que trespassou o medo, a boca do leão no rugido final.
O ultimo bilhete como recado, estalo denso e grotesco.
Aquele que te lançou no panteão negro dos caídos.

19 dezembro, 2008

Melodia






Vou-te aprendendo a letra, ritmo e melodia.
Quando já te sei trautear, ficas-me presa na boca, nos ouvidos e no corpo.
Tens som.

Palpitas arrítmica como um baterista e agarramos arcos de violino como trompetes desafinadas.
Aprendo-te sem pauta.
Cantas-me ao coração e assaltas-me a alma como “” maior por “” menor.
Tens música.

Afinas e desafinas o teu com o meu cuidado.
Solfejas com lábios doces regados a pedaços de morango e teclas a espaços entre as brancas e as pretas nos intervalos de mim.
Já te sei ritmo e melodia, a letra vou aprendendo entre acordes e suspiros de uma guitarra.

Compões em “”, espreitas-me em “Sol” e terminas num “”, “Mi”, “”.
Vou-te afinando as cordas do coração, enquanto Oboés, Xilofones e Tambores, percorrem as veias sanguíneas na imensidão do espaço que te habita numa completa Obra Musical.

A tua “Sonata” em mim.

13 dezembro, 2008












Uma rua de cidade.

Igrejas sem fiéis, cafés carregados de fumo e uma visibilidade a três quartos.
Motéis esquisitos para encontros rápidos e a mercearia de esquina onde se vende “um quartilho”, meio pão e um pastel de bacalhau.
Três homens encostados ao balcão debicam quase nada.

Toma-os pouco a pouco a turbulência no Douro, gaivotas que se envolvem no sonho das águas e pescadores com canas no encalço do engodo.

Caminhos de quem não olha nem sente, numa fugaz passagem para qualquer lado.

Gente que filtra outra gente, e duas voltas na chave, uma tranca na porta, um deslizar de ferrolho.

Fazem silêncios de alma, retiram-se da frente e colocam-se à margem.
Muitas das vezes, sobrevivência, quantas vezes, solidão.
Equilíbrio mantido por extremos, um lado de sombra na procura da felicidade... a eterna procura.

Aliviam cargas das memórias e sacodem o fardo das cicatrizes.
Bebericam “minis” como máximo, enjeitam trabalho e sacodem meio bairro com violência doméstica.

Calcorreiam a Cordoaria, deambulam na Ribeira e trocam saquinhos da branca no mercado, com vista retorcida num céu sem dono.

São equilibristas sem corpo, mascarados sem dentes, amarfanhados por cortinas de inverno numa embriaguez precoce.

Uma falha na calçada, roupa estendida no beiral, e uma meia porta entreaberta.
Gente sem margem, compondo ossos desalinhados e um olhar de relance no baú da memória onde repousam silenciosas imagens a preto e branco

10 dezembro, 2008

Memória...

Vivias numa geometria perfeita de enganos como todos e qualquer um de nós.
Tinhas a perfeição dos predestinados e em aguarelas luminosas espraiavas toda a convicção que mostravas ter, e a leitura que fazias da vida e do mundo que nos engole.

Sombras chinesas pairavam aqui e ali entremeadas por belas luas, desenhadas por anjos de neve.
A tua vida era preenchida por constelações inteiras de amor pelos teus anjos sagrados.

Nuvens de fumo povoavam metros quadrados de talento, e as telas apareciam com contornos de cordilheiras, imagens desemparelhadas, volúpia de ombros tensos, e madrugadas espreitando gulosas por pálpebras semicerradas.

Tínhamos falado de obras por lançar e ritmos de trabalho alucinantes interrompidos a três quartos, depois pela metade, mais tarde por inteiro.
Pintava um, escrevia outro, outros mais falariam e o legado ficava para as nossas constelações estreladas.

Estes golpes de sabre, desferidos pela “puta da vida”, manto negro que nos ensombra, e que nos faz reflectir sobre as eternas correrias, e “se” ou “o que” vale a pena.

Agora que só nos resta a memória urge preservá-la.
Misturar passado com história, presente com serenos futuros e árvores que se continuarão a plantar, dando assim continuidade a novos ramos, novas folhas.

Uma serenidade absoluta que nos deixas, no intervalo da confusão dos dias úteis.
Estes, sem duvida, os mais úteis de todos, aqueles em que nos cruzávamos com as nossas crianças, as constelações estreladas que seguirão o seu rumo.

Eu por mim, preservo a memória dos momentos, das conversas tertúlianas, deste livro que não chegamos a compor e de quando comprávamos o jornal na hora certa do dia certo na “Teresa dos Jornais”.

Até sempre.

Taraio, pintor, recentemente falecido.

30 novembro, 2008

MEUS FANTASMAS DANÇARINOS





Já imaginei separar a raiz em dois.
Já tentei com a mais forte espada cortar tudo pelo caule.

O que nos surpreende negativamente a cada dia que passa por cada hora que vivemos.
Autênticos fantasmas dançarinos que nos envolvem com seus encantos.

Tenho alguma dificuldade em descodificar o tempo, tenho ausências de mim neste ruído que me povoa, como quando me liam pequenos contos de encantar, em que seres se movimentam em focos de luz intensa.

E na minha memória… o que deixo fugir, por este longe e aquele perto.

Uma alma que dança ao som de ritmos suaves, ritmos que se calam quando o meu respirar povoa espaços.
Por vezes sinto o eco das minhas palavras sós.
Uma sonoridade estranha que me entontece e que me faz percorrer calmamente o interior na busca de um sentido.
Um ponto de partida, um ponto de chegada e encruzilhadas enormes, curvas apertadas, rectas infindáveis e rotundas, muitas rotundas.

Esburaco sentimentos para encontrar o equilíbrio em mim.
Um puzzle confuso.
Mente, alma, coração, pele e corpo, ao mesmo tempo assustador de emoções e afectos.
São pianos tocados com teclas gastas de um tempo voraz e acordes em notas de sofrimento.
Como trovoadas, bátegas de chuva que caem incessantemente e que gosto de ouvir umas vezes sim, outras não.

E não me revejo em filmes feitos por medida, num marear sem ondulação nem porto de abrigo, indiferente à brisa que me rouba e leva longe a essência dos dias.

Na procura incessante da extensão palpável de carícias, ternuras e afectos que deveriam embalar os meus dias, todos os dias.

25 novembro, 2008





Estou com sono e de mau humor.
O tempo escurece-me a alma e não apaga o fogo.
Tomei um duche apressado entre o ensaboado e o meio olho aberto.
Comi um iogurte a correr, que de frio me arrefeceu a pele, dei duas voltas à chave com o canhão da fechadura meio zangado pela força imposta.

Cheguei ao café e com o “bom-dia” da praxe sorvi café curto para espevitar meninges e abanar esqueleto.

Cruzo-me no caminho até ao carro com gente resistente a socalcos primaveris, passo apressado, caras rezingonas e um inverno no olhar.
Chego ao consultório meio na lua, tem-te não caias e com um pé cá outro lá.

Às vezes duvido-me.
Sei dos "post-its" que me deixavas na ânsia e no desejo da procura, da vontade de te debicar e o cuidado excessivo no tratamento que te dava.
Atiras-me frases soltas como palavras cruzadas que pretendes entenda, e obrigas-me a penetrar-te memória para te vasculhar antiguidades que te povoam a espaços.

Sou mendigo de ti e tu solidão de mim.
Não me afastes mais.
Faz por te lembrar do meu corpo no abandono, na longitude cansado do teu, entre a liberdade das tuas noites e o resgate dos meus dias.

Acordei afastado de mim, rememorando diatribes nossas que nem sei se aconteceram. Vivo pendurado num misto de sonho e verdade.

Faço um esforço desmesurado, tenho tonturas e vivo entre a espada e a parede, enquanto compões o cabelo desgrenhado, franzindo o olhar numa recolecção de lembranças.

Estou quase lá, do lado direito da loucura na ponta do véu que se levanta para me escancarar portas e janelas e receituários médicos.

Desdobras-te em cuidados quando me debruço sobre varandins, na vã esperança de me saber engolir na voragem do tempo... esse engodo que nos entretém para a vida.

23 novembro, 2008




Colecciono postais, fotos e lembranças das viagens que fiz e de lugares que me ocupam a memória.
Espaços que percorri, com neve e calor, com flores e frutos, sabores a vento e marés, trovoadas e céus brilhantes como um sonho de criança.

E comi belos nacos de prosa engalanados com tintos e brancos de paladar muito recomendável, em tascas com bancos de madeira corridos e guardanapos pendentes do pescoço.
Ensaiava uma expressão de regozijo quando sou bombardeado por dois mísseis teleguiados na minha direcção.

Olhei para ela num canto escuro da sala.
Vultos rondavam as mesas não deixando transparecer os ritmos da noite fria na tasca. Havia uma doçura incerta num doce completo sem queixume, numa promessa suave de tempos melhores.

Tinhas ar de sereia em paraíso divino.
Ergui ligeiramente o meu copo na vã esperança de que entendesses o meu olá, uma ligeira troca de olhares por palavras e um trago de vinho.
Aguardo, emendando palavras em mim e aquecendo o vinho.

E viravas-te vezes sem conta na direcção da porta e perdias o teu no meu olhar enquanto os teus peitos simétricos dançavam boleros quentes em mim.
Sei que poderia ressuscitar em ti, no silêncio vagaroso das bocas que se desnudam em ritmos lúdicos

Se me aconchegasse os braços, nus das tuas mãos na minha pele, as tuas orelhas, os lábios carmesim, o teu lado esquerdo e o olho direito, a tua mão que gesticula no ar, talvez por mais um café, as partes que revejo entre sombras que te envolvem, como passantes sem nexo, e a tua mão que se estende em mim e que acarinho à distância...

...Pensei em três beijos, talvez dois…
… sou subitamente “acordado” por um “café p´rá mesa três e um bife do lombo para a seis…"

E tu lá continuas num informal despojo de ti num inebriante transtorno de mim, enquanto a conta chega e o tempo escassa…

Nessa altura o tempo parou, entrando num parêntesis de nada…!

22 novembro, 2008





As luzes tinham sido amantes nas margens do rio, numa volúpia dançante com jeitos de bailarina.
O espelho de água reflectia cor, tempo, alma e desejo, devolvendo tudo como só o rio o faz.
O tempo, seco e distante não permitia avanços nem recuos.
Era assim e ali.... Só.

A noite era curta para a lassidão de um abraço apertado que te prometera faz tempo.
Escondi as mãos nas tuas costas e soprei-te para te vampirizar pescoço e coração.
O sangue que te percorria gelou, e fincaste unhas na minha direcção.
Interrompi respiração por um abraço. O rio gritou... as margens transbordaram.

As luzes, como néons brilharam mais e mais, fazendo com que a lua se envergonhasse de tanta cor.

Era colorida a noite e tu jazias nos meus braços, quente, intensa, num aconchego doce que inventei só para ti.

18 novembro, 2008

O meu coração é um espaço pequenino, não tem quartos requintados, nem salas, apenas espaços abertos.
Tenho cantos e recantos onde guardo recordações e sobressaltos que vêem aqui parar.

Por vezes apelo aos efeitos da anatomia.
Puxo o amor, afasto desencontros tristes com a alma e serenamente sacudo o pó das janelas.

O meu corpo ressente-se.
Não debito duas palavras e meia, tremo na escrita e cada golfada de ar, transforma-me num moinho de vento.
Fico tempestuoso, enjaulado, absorto, entre o náufrago de ideias e o cavaleiro de armadura na Távola Redonda.

Entro num ritmo frenético a quatro rodas, com luzes e piscas que me incendeiam o olhar e escuto palavras frias que me pedem sentimentos quentes, enquanto me basto e desbasto em ti.

Tento palavras polvilhadas sem parcimónia, portas abertas, e o espelho da vida na passagem do tempo, como sem nada na manga.
Fazes um esforço sublime, anaeróbico sobre o meu corpo num desejo de almas caídas em espaços vagos, como um corpo celeste que vagueia na imensidão do espaço,

E bate devagar, compassado, em sessenta por minuto, mais coisa menos coisa, neste espaço pequenino, onde habitam, funcionários de qualquer multinacional de transporte do sangue e do oxigénio.

Valha-me deus que a coisa está preta e o meu corpo ressente-se.

Já não idealizo nem transformo duas palavras e meia por meia de frase, nem adorno pensamentos com flores e serpentinas.

Já não sei o tempo certo do tempo nem a duração do tempo certo, enquanto ele adormece cansado num batimento cadenciado, como relógio recheado de alquimias.

08 novembro, 2008

CAPICUAS




Vivíamos em três quartos à beira-mar, com paredes caiadas de branco imaculado, como se do nosso palácio se tratasse.
Tocava-te em capicua, e o mar enrolava-nos por entre lençóis, enquanto as minhas mãos gemiam nas tuas e afagavam cabelos enamorados.

O mar fazia torneados de espuma, em línguas afiadas pelo corpo ardente de um desejo macio, suavemente dedilhado como acordes de guitarra portuguesa.

Os dedos dos nossos pés tocavam-se como noz escondida em figos desejosos de tempos de S. Martinho, castanha assada e copos de vinho.

A vadiagem da tua boca que persistia no lóbulo esquerdo, como quebrar de ondas na areia molhada, correndo ao encontro do verdadeiro oceano.

Três quartos e um sótão habitado por nós, tempestuoso renascer como naufrago exaurido, e tu a pores-me os pontos nos iii´s, em poses gramaticalmente erradas.

Tão inevitavelmente como a manhã adora o sol, como o teu peito um abraço e o fogo o calor em que se forja, procuro no espelho do teu rosto a minha alma.

Apeteces-me como as sete cores do arco-íris num céu de Outono, em pautas de carinho num cobertor de sonho e fantasia.

E perdemo-nos nos gestos e nas palavras em teias que emaranham timbres no coração.

Tocava-te em capicua e perdíamo-nos em três quartos num sol de verão com nuvens roubadas ao vento, em traje camaleónico que te equipa a alma.

07 novembro, 2008

Brinco contigo porque me vejo excessivamente preocupado, e formatizo, antecipando situações que nem sei existirem.
Conto-te os meus segredos mais íntimos e bebemos copos ao cair da noite, embriagando as ideias que temos, de saltar pé-cá, pé-lá em queda livre, como Ícaro de ocasião.

Brinco, porque desperdiço horas diante do espelho, com perseverança amorosa, pensando no sexo bestial que invento em coreografias por mim treinadas, qual Gary Cooper.

Brinco, com os teus dilemas, as tuas confusões e transfusões, numa fuga desenfreada sem porto nem norte.
Adormeces, corpo pousado entre imperiais e desventuras e olhas-me de soslaio com sorriso traquina e lanças… “E gajas pá?”…

E no entanto és mulher e amiga, numa roupagem de irmã, confidentes na penumbra e assaz perdidos num tempo que já não volta.

Topavas-me o embaraço pelo canto do olho e eu já te conhecia o jeito do nervoso miudinho quando tinhas presa debaixo de olho.

E anos e luas e ventos, marés, sortes e desgraças, as nuvens do Outono febril colocaram-nos na fronteira de um abraço.
E naqueles breves segundos de aragens velhas embrulhadas em muros de betão, letreiros de Néon e um céu pesado como a barriga de um elefante cúmplice de vidas sincronizadas.

E vem uma ventania no teu olhar que varreu a minha memória da tua, corrido a perfume antigo.
Morreu-me o sorriso nos lábios, como uma porta fechada, e restos de lembranças esbatidas, por uma lassidão que te pendeu braços e te deslaça a mortalha do corpo franzino, porque te perdeste de ti.

E do tempo das procuras de girinos com fisgas penduradas em bolsos de ganga e promessas de envelhecimento tardio, a este embate curioso, sentimos a perda dos pontos cardeais em paixões mal resolvidas por entre segredos, e a vontade ébria de me roçar no canto esquerdo da tua boca.

Brinco de novo para dentro de mim e sorrio, porque me preencheste o milímetro quadrado no canto ao fundo do ventrículo esquerdo que chegava a doer como taquicardias flamejantes.

24 outubro, 2008

Afasta as memórias desfeitas e apaga-as como beatas em cinzeiro de cristal.

Tira os "abat jours" do candeeiro que nos iluminou parte da vida e afasta de vez os retratos "à La Minute" que teimas em manter na cómoda século XVI que me estorva o olhar.

Vai tu e o cabotino do teu irmão, mais a noiva pendurada e a sogra a tiracolo, a arfar do coração que transporta pedras na veia cava superior, mais a vesícula que teima em não saltar.

Transporta as tuas memórias em cartão canelado por caixa de sapatos bicudos, como bicuda era a vida que me davas.

Se passares à minha porta, não pares, nem batas, muito menos telefona, que nesse espaço devo estar no sopro, pé- dentro- pé- fora, de uma cama de solteiro num auspício deslumbrante.

Que o vento me afague as membranas enquanto o sol acaricia a pele, procurando domesticar a minha atenção.

Farei de mim homem coragem, no meio de artroses confusas, cambaleando ternura em desejo manifesto de cama, enrolado em lençóis frios de cetim, enquanto te engasgas em mais uma dose de colagénio.

Esquecerei o teu cheiro, despindo de mim o pelo curto, e farei desencontrar as minhas horas com os teus minutos.

Leva o saco verde alface e enfia o gorro, e não tentes arranhar-me pedindo tréguas, acabando num salto de D. Quixote em Sancho Pança.

Deixa-me a mim com meus discursos, costas arqueadas de rasgos de vida, medindo forças entre aberturas de pernas tardias e beijos na capicua do teu interior.

Não venhas

Nem hoje, nem amanhã, nem o esquálido do teu irmão, o tio da França e o Avô vinhateiro.

Afasta o interesse sorrateiro do olhar e mede a distância entre a corda que esticas e as arestas que não medes.

Vigia-te por dentro e por fora, na vã esperança de um dia te sentires encontrar,
...por ti e para ti.

12 outubro, 2008

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

19 setembro, 2008






BREVE, muito breve terei novidades...!
Entretanto, e porque não vos esqueço fieis amigos, deixo-vos temporariamente com os Coldplay...!

PV

31 agosto, 2008

UMA SÓ PELE





Gosto de sentir a tua pele reposta na minha e a minha boca encostada na tua… sabendo-te os segredos de cor… e pelo cheiro ler-te o pensamento como pelas batidas do coração o peso ou leveza da alma.

Agarrava-me a ti e a tudo o que provinha de ti, numa angústia indecifrável que nem as sete vagas em marés turbulentas me impediam.

Quando me lançavas olhares de reprovação ou qualquer frase a destempo, já eu me sentia atraído a lançar-me como sorvete na tua boca e beijá-la como sem tempo.

Gostava de ti numa meia-lua, um quarto-crescente ou lua nova.

Deixavas a marca dos teus beijos nos meus lábios dos teus dentes na minha pele e da tua pele na minha boca como uma marca de água muito leve e translúcida, para não ser possível reproduzir.

Em cada momento nosso, de laços e abraços, numa comunhão de afectos ritmados, sabíamos da debilidade do tempo e da elegância dos dias, como da falsidade das horas.

E passaste a debitar palavras cansadas, desmitificadas, inseguras, rebeldes e traiçoeiras.

Com as palavras vieram as ausências de ti e dos espaços, e das perdas em lugares por ti pintados.
E senti-me desmembrado.

A doença que se reflectia, espreitando a espaços por entre olhares perdidos e vagos, sem luz, nem cor.

E ainda e sempre a tua presença que me inebriava…

Relatávamos tudo por gestos e palavras, desenhos ou rabiscos, afectos ou sonos prolongados como duas crianças em corpo de setenta.

Massajavas-me o Ego quando podias, enquanto eu tentava aliviar-te o reumático em ossos aniquilados por frescas manhãs.

E vivíamos serenamente, embevecidos num olhar e numa bolacha Maria num púcaro de chá pelas cinco, na companhia de um Alzheimer qualquer.

E seria assim… eternamente jovens enrugados, serenas criaturas apaixonadas, em gestos repetitivos e descontrolados, que aguardaríamos a chegada daquele que nos abençoaria, por termos vivido sempre ....

... Um, nas imperfeições do outro…!

29 agosto, 2008





Vivia-se num mundo de suspeições sobrenaturais.

A população saía de casa, saltitando num pé-coxinho obediente ao primeiro passo.

Era assim há séculos,

Os códigos da aldeia obrigavam a rezas em Domingos de Quaresma, passeios com o gado pelas ruas pintalgadas de tinta branca e a bênção do Padre Zé, omnipresente personagem das peregrinações e romarias.

A Capela brilhava de velas acesas em volta e honra do Senhor, e a música ecoava por entre as árvores frondosas.

Enquanto uns rezavam ao Espírito Santo, outros batiam o pé musical, às escondidas de beatas enfurecidas...

As contas do terço deslizam entre mãos calejadas enquanto percorrem de joelhos três voltas prometidas.

O cobranto, espinhela caída, o mau-olhado e os espíritos que vagueiam, eram discutidos entre ladainhas, enquanto o Padre Zé, espreitava por entre os jeitos e trejeitos da Cristina...... Tina para os amigos...!

Os garotos, filhos de fiéis e outros que se juntavam ao grupo, jogavam à cabra-cega, às escondidas e ao futebol com bolas de trapo e... benza-os-Deus, o Padre Zé estava ocupado, senão.... era "sermão" e "missa cantada".

A D. Alzira da "tasca do Ti-Zé", avantajada em todos os aspectos mais o da coscuvilhice, serve na rua arroz doce e água com gás, para matar a sede a uns e fazer arrotar os possuídos por Belzebu.

Era este o universo do povo da Aldeia, todos os verões mais as festividades natalícias ou o aniversário do Santo.

Quando da presença do Bispo, informou-se que até os porcos, vacas, galinhas e demais animais, deveriam dar 3 voltas à capela, começando pelo lado esquerdo onde batia o sol, sendo abençoados ao sétimo dia com lua nova.

Existe contudo uma sombra por trás do Padre Zé. Chama-se Sebastião. Padre Sebastião.
Patrono, Mestre, nobre de carácter sem ostentação, uma singela humildade, força e perseverança, um magnetismo único e indizível, uma bonança e candura, que nem a ciência conseguirá explicar.

Sentíamos-lhe asas transparentes e uma espécie de hibernação intocável na profundeza do olhar. Quando se cruzava o azul dele com o nosso, arrepiava-nos alma e coração.

As mulheres da Aldeia, são traves mestras das famílias, amparo das almas e porto de abrigo dos arremessos de má-furia de maridos desabrigados por traineiras nocturnas e furtivas.
São elas que carregam os pesos das casas, que estancam o sangue que corre pelas portadas e que evitam entradas de maléficas viroses. Benzem-se a elas, no azeite e adornam paredes com patas de coelho e elefantes com cús virados p´ra lua.

A vida corre branda e costumeira, alojando-se na memória as pedras arrumadas dos caminhos, o riacho que circula vagaroso, as veredas que se encostam umas nas outras e as árvores frondosas com ritmos de sombras harmoniosas, que fazem espairecer qualquer viajante.

Comi as sopas de feijão com couve, pão de milho, bacalhau com batatas a murro e bebi do tinto carrascão, enquanto dois marialvas poisavam versos românticos sobre regaços de moças encantadas.

Este local aprazível com a sua história enraizada no sobrenatural, Aldeia de setenta casas, com serões e noites de vindima, escapadelas no crepúsculo em toques de concertina, gaitas de fole e oboés, mantém a frescura do tijolo burro, a cal que se esboroa nos muros e uma festa de tradição, com benzeduras e vendas de artefactos, para que a vida terrena seja mais feliz, livre de tentações e a prosperidade aconteça, afastando os fantasmas do engulho.

Foi na sedução destes caminhos, destas gentes e destas romarias que me encontrei num olhar. Pelos vistos era assim há seculos...

16 agosto, 2008










A rapariga... valha-me Deus, era pouco mais que nada.

Desdentada, cabelo puxado ao lado e pequenez no tamanho e na limpeza… talvez por isso tenha reparado nela.

Mas mantinha aquele ar de auxiliar de acção administrativa/sectorial, calça de ganga afunilada sobre bota de cano alto, mais a camisinha desbotada e desabotoada sob peito escondido em costelas flutuantes, e um lencinho de cetim... Toda uma personagem de fantasia.

Ar enfático, ponderação ruminante, sabedoria solta em cérebro brando, de meninges apertadas como pé 43 em sapato 39.

Sorria (?) para a criança que trazia a tiracolo com meio cigarro encostado a dois únicos dentes que lhe sobravam da boca escarlate.

As gengivas escurecidas não conheciam escova nem os dentes mortiços e únicos, um belo par de “marjoretes” ostentando “cavalguices” desenfreadas em urros estridentes.

A limpeza não abundava, dentista nem pensar, trocando o tempo que tinha por visitas a centros comerciais, compra de bugigangas insubstituíveis, no meio dos muitos interesses e dos cigarros que fuma a correr por entre os dentes que não tem.

Procurava nela a cor, a saia e o cabelo e esquecia a montra do sorriso amarelo num espaço aberto e cinzento que inquieta a alma.

Balbuciavam-se pequenas frases com a força necessária para navegar noutros mares que não os revoltos, ler outros livros que não os de guerra, ouvir musica em vez do telejornal, mas cruzava e descruzava com 549 pessoas e não via nenhuma nem ninguém, apenas o espelho da vidraça, o fumo desprotegido e a respiração ofegante por meia dúzia de passos dados e a repentina transformação do tempo, de memórias tatuadas em encontros fortuitos.

Os genes misteriosos que a preenchiam, mortiços e desinteressantes, não faziam parar o trânsito mas apenas a carruagem ínfima do comboio das 5.

A um pequeno passo da loucura, viveu em velocidade desenfreada por entre espaços de tempo e tempo sem espaço.

Conta-se que alguma coisa se apoderou dela mais do que devia... e a vida foi-se por um fio.

15 agosto, 2008

Vai onde o meu beijo te leva...!











Adorava saber pintar as sete partidas da vida e as catorze despedidas em 24 esperas infinitas.

Adorava saber das telas, das cores, das molduras exactas do teu corpo e do teu infinito sorriso.

Sei das batalhas que ganho e das guerras em que me perco de todo.

Estou inebriado nos teus dias sem prazo de validade, sem começo nem fim, até um dia... quem sabe.

Estou inquieto... para te ver doce e sublime, repleta, composta e unica, fotografada envolta em mim, com feixes luminosos em arco-íris dentro de ti.

Já experimentei novas telas de cores e troquei-me entre as 9 e as 14,
perdendo-me indefinidamente na proporção do caos em que me deixas

Sou labareda no deserto e tu um oásis deslumbrante com um interminável pôr-do-sol.

Sei também do tempo que não temos, mas peço-te que vás até onde sintas que o meu beijo te leva.

Desfribilha a alma até encontrar um sentido, uma espécie de obscura graça... talvez me encontres, quem sabe meio perdido ou por inteiro...

Talvez demore o tempo da procura no encontro que se tornará efémero, mas lá estarei, meio por meio, pouco num todo, mas estou lá…...

...onde o meu beijo te leva.

03 agosto, 2008




A escuridão invadiu-me.

Primeiro engoliu as pernas, o tronco, os braços, depois, todo o meu ser.
Por fim, dragão insaciável, tragou-me a identidade.

Como D. Quixote moldei castelos efémeros iluminados pelo calor brando do entardecer, na vã esperança de me encontrar.

Traçaram rotas, desenharam no azul do céu e sulcados mares, jamais ressurgi.

Foram muitos os gestos e desejos, tratados e compêndios,palavras gritadas, gestos sufocados, fábulas de desejo e de paixão.

Fui deixando lastro e flor, pisando o limiar de todas as mortes, para que teus olhos decifrassem cadências de passos e recados.

Eram rastos únicos de alguém em mim, que duvido reconhecer.

Recostei-me a um ponto de fuga sem saudade, nos abraços das Searas Alentejanas
e percorri com dedos inquietos espaços de mapas reflectidos na memória.

Desenhei para reter imagens, perdido entre mil cores de mil angústias e mil desejos.

E penso-te como um só corpo recortado na minha pele aguardando teu gesto doce de Dulcineia, indicando-me caminhos eternos;

Na procura cretina desse amor soprado como água transparente, na curva serena do pescoço, durante o tempo de um segredo...

Sim… é inevitável que me beijes.

Alguma vez saberás de mim?




Alguma vez saberás de mim?

Já não habito o quarto esquerdo fronteiro ao jardim onde brincavas, os triciclos desfizeram-se no tempo e as bolas já são de gomos verdadeiros.

As primeiras letras, os primeiros livros, primeiros poemas e primeiros beijos que nasciam num improviso delirante com música perfumada em pano de fundo.

Mais tarde os primeiros cafés ao pôr-do-sol marginal.

O Sudoeste onde nos banhávamos e arrepiávamos de tempos musicais e as tuas mãos que me enlaçam quando me resgatas.

Na padaria da rua já não se coze o pão, restaurantes fecharam, o café é hoje um prédio em ruínas e o tempo já não me guarda espaço.

Tinhas as maçãs do rosto desenhadas e perfil como estátua de deusa grega.

As copas dos plátanos e dos choupos escondem pracetas calcetadas e uma rotunda surgiu do nada.

Esventraram o jardim e o Metro de superfície não me traz o teu cheiro como antes.

Perdemo-nos numa cidade que se repete intemporal.

Alguma vez saberás de mim?

Agora sei que me dói quando não estás perto de mim… sentir-te o coração saltar pelas veias e a jugular desenfreada com o meu coração perto do teu.

Os pombos já não habitam estes lados, troquei o Sudoeste por Paredes – de-Coura e o pão nasce vadio por entre bolos e meias de leite.

Nesta cidade onde moramos, o Rui já não canta o Chico Fininho mas lança Perfume num dueto com intervalo.

Alguma vez saberás de mim?

02 agosto, 2008





Os nossos encontros não eram lugares comuns.
Fazíamos daquele espaço um lugar único, inacessível a tantos, comum a muitos.

Em redor do nosso canto, duas pastelarias e uma tipografia com aquelas Nixdorf velhinhas de canhão enorme com barulho estridente para trabalho ritmado.

O restaurante tinha fechado e a agência de viagens voou para outras paragens.
O tempo foi passando sem atropelos, e não conseguimos ser felizes.
Nem ali nem em lugar algum. Separamo-nos pouco depois.

Razão? Para que interessam as razões, se é que existe alguma razão...

Interiores de agitação, momentos fugazes de felicidade, a doçura do sorriso e o andar inebriante, que se foi perdendo.
Sobrava pouco do que ainda tinha.
Eram tempos a destempo, inseguros.

Tinha o meu sol em Capricórnio e as costas voltadas à lua. Nem o tempo ficou igual…
Aliás, deixei de usar o tempo. Nem relógio, nem agenda. Instrumento algum me faz viver com ele.

O caminho é o mesmo, nesse aspecto nada mudou.
Vivo no sonho. Ele habita-me os passos e pesa-me as lágrimas em sorrisos coloridos.
Procuro outros passos noutros sonhos, pois já era tempo de não seguir o trilho
na esperança de te encontrar as pegadas.
Já era tempo de seguir em frente e não fazer círculos e semi-círculos.

Os barcos estão em terra, parados no vento a secar o sal de outras paragens.
Varinas negras que me avisam dos vampiros nocturnos que buscam a presa antes de nascer o sol.
E neste caleidoscópio em que vivo, depois de ti pouco mais haverá.

Dobrados os Cabos da Costa de África, a chegada do Oriente e eu como um Adamastor que sopra noticias sem retorno.
E procuro nos olhos dos outros o teu olhar sem reflexo nem sombra, enfeitiçados.
Vou caminhando no passo do sonho.

Sou resumo, síntese, rascunho. Um quase nada pintado com cores endiabradas nas cordas de uma guitarra. Quase nada.
Desenhador do impossível, bebido de um trago, rasgado num ápice.
Um macho enfeitiçado, um quase mocho a habitar vapores de solidão.

As palavras já não me falam, escondem-se de mim e rodeiam-me habitáculo em flor de desenho insano.
Nós nunca fomos amantes comuns.

17 julho, 2008




Boas sementes dão bons frutos – dizia a minha avó.

O nosso Mundo era também redondo, e na nossa inquietude abraçávamos com a força possível, os poucos quilómetros em que nos movíamos.

No jogo da casquinha, da bola de trapos, da bicicleta que comprávamos aos pedaços, com peças a cinco escudos e o quadro com a ultima moda de guiador à "corredor".

Adolescente inquieto em permanente incerteza, que pairava pelos recantos da vida, refugiava-se em cafés, vulgo literários, desenvolvimento intelectual em crescimento precoce, feito homem, atirado Europa fora em gloriosas jornadas desportivas.

A Morte assombrava a compreensão em silêncios mal resolvidos.

Era o tempo dos U2 e dos Pink Floyd.

Encostos de face e rubro encanto de meninas em garagem ao som dos "Dark Side of the moon" num nunca acabar de “slow”.

Vivia com memórias passadas em páginas amarelecidas pelo tempo, dando passos cadenciados.

Um cheiro a manjerico nas Fontainhas engalanadas e corrupios frenéticos de povo de mão dada da Ribeira até á Foz.

Toalha deitada na areia para merecido descanso. No Porto, naquele Porto, da noite se faz dia, martelinhos estalam no ar e o alho de porro exterminado, vai passando por cabeças despidas.

Brincava-se a desoras em jogadas intermináveis e bandas de garagem com os "Mini-Pop" a saltarem com "Jáfumega" a viajarem de "taxi".

E nos nossos “territórios” contávamos aventuras de outras paragens onde Cavaleiros e Dragões, Princesas e Castelos habitavam uma inquietude perfumada que nos despertava para realidades distintas e jamais conseguidas.

Ao deitar, ainda sobrava tempo para um aceno ao céu, na vã esperança do arco-íris nos trazer uma Dulcineia, galopando por entre trevas, e que arrojadamente nos transportasse rumo ao infinito.

Faziam-se tratos de sangue com picadelas de agulhas subtraídas à caixa da costura e desembainhávamos espadas cruzando-as numa Irmandade de Alma, partindo em busca de tesouros feitos de vento e pó e Amoras silvestres.

Éramos intrépidos heróis de palmo e meio com um mundo feito de arroz doce, gasosas tipo pirolito e cinemas no Terço a dez tostões.

Eram tempos de corridas desenfreadas em sonhos de balões verdes que povoavam o país em rádio-novelas faiscantes.

Era um tempo de bem-querer por bem amar ecoando risos semeados por campos de trigo amanhados.

E assim regressávamos ao Reino, tantas vezes exaustos e outras tantas felizes, acolhidos aqui e ali por sopas de couve verde em serenos raspanetes… - Boa semente dá bons frutos… dizia a minha Avó.

A imaginação e o Mundo eram nossos…a amizade e a ternura, para sempre!

08 julho, 2008













Escrevo entre dois tempos, o passado e o futuro.

Entre a vontade e o desejo, a necessidade de transferir para o papel a tinta que me agita a memória. Entre o dever e o ter.

Fecho-me em transtornos tais como se as frases escritas me vestissem a alma.

É verdade que tento refinar este vício doido.
Preciso de descanso e paz de espírito para saborear melhor a junção das palavras para que as frases tenham algum sentido.
Não me faz sentido realmente nenhum, escrever apenas uma frase solta como “a do homem que caiu porque lhe escorregou o pé ao subir no autocarro 27 para Belém”.

Sei da minha falta de tempo, da necessidade de preparar, da pouca habilidade, apenas ultrapassada por um ou outro momento em que quase me sinto como uma espingarda semi-automática. Sai tudo engatilhado.

E quando falo nos escritos que aqui trago à liça relembro um Velho Senhor na primeira mesa do café “Bom-Dia” no Porto, fazendo textos melodiosos nos guardanapos de papel.
Ainda hoje quando quero lembrar qualquer coisa, puxo de um pedaço de papel e escrevo ou rabisco ou gatafunho… nem sei bem.

Acho para mim, que esse Velho Senhor, saboreava a infância e juventude no que escrevia, pois entre sorrisos marotos, ia gulosamente lendo entre espaços o que a mão vertiginosamente lançava.

Curiosamente, já naquele tempo deixava as horas escorrerem pela quietude do espaço e olhava enternecido o rabiscar de sabedoria feita.

Quando comecei a escrever, já aprendera que as letras e palavras eram combinações infindáveis e constituíam uma das melhores formas de transmitir emoções, inquietudes, poesia e amor.

E tento, amparado em livros que vou depenicando aqui e ali, por entre almoços a correr e fins de tarde mal amanhados, pelo meio de rabiscos que entrelaço em textos banais, entreabrir um sorriso maroto e guloso.

Transporto desde essa época, a imagem lúcida, serena, de enorme sapiência, nos encontros fugazes que aconteciam em seu redor, no qual se debatia Régio, Torga e um seu amigo de nome Eugénio de Andrade.

As tertúlias percorriam os dias e as noites, terminando na medida exacta do tempo de cada um, recomeçando num qualquer outro dia numa qualquer hora.

Quantas vezes a última “conversa” saltava por entre voltas à Praça Velasquez, em intermináveis maratonas pedestres.

Um dia, o Velho Senhor, pousou na mesa a quantia necessária para pagar o café, ergueu-se e experimentou olhar de frente o mundo em movimento.

Sorriu de novo.

Eu senti que ele transportava as sete cores de um arco-íris glorioso.

20 junho, 2008






Beijou-a três vezes sem conceder desejo.

Abarbatou-lhe um abraço destemido, e contou-lhe algo que tinha em mente vai para dois anos.

Ela corou, e ansiosa sufocou num caleidoscópio de sensações.

A lua crescente dançava libertina num emaranhado de emoções.

Viam-se raramente entre distâncias e inquietudes, mas nunca deixaram de se sentir um no outro.

Ele mais intenso, ela mais envolvente, como fogo que dissipa solidão.

Eram sacro e profano. Debicavam frases contidas entre dentes resplandecendo seiva e orvalho.

Beijavam-se de olhos abertos para percorrerem os contornos do rosto como leitura em Braille esquecidos de tempos mortos ancorados num porto qualquer.

Restava a capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio... um silêncio quase perfeito.

O silêncio dos amantes, nessa faculdade incoercível de sonhar.

O vento empurrava as folhas no sentido contrário ao dos olhares que se perdiam no deslumbre do momento.

Tentou de novo beijá-la, mas quando reparou, restava o sonho...

Inquieto, profundo, sarcástico, cruel,

Refaz-se desfeito olhando as vagas revoltas do mar da Fuzeta.

Renascerá certamente na sétima onda da sétima vaga, beijando-a de novo sem conceder desejo.

05 junho, 2008

O meu Amigo...!












Andam aí umas figurinhas patéticas de rapapé, que lambisgóias, julgam ter o mundo na mão e um homem na outra...

Isto a propósito de um amigo que anda a "bater mal" (agora me lembro que ele nunca bateu bem...), porque uma dessas insensíveis criaturas de poleiro, arrebatou-lhe coração, alma, e bolsos.

Ok, ela era um modelito, talvez mais um avião, mas aquele tipo nunca se contentou com um simples Fiat 500...

Eu cá, quero um amor de armas. Revolucionário.

Daquelas de "estrafegar" tudo na proporção do tempo que levamos a limpar uma Kalashnikov ou uma G3.

Daquelas tipo "Tomb Raider", arma no coldre, amor num abraço e arrebatador despertar dos sentidos. Aquele amor que não caia no comodismo nem o comodismo se incomode com ela.

Aquela que mesmo na maior das refregas, na luta titânica, no incomensurável ataque bélico, seja capaz de me chamar, para lhe passar o creme esfoliante.

Essa que me arranha as entranhas, que me espreita a garganta e com um simples toque na cavidade me exalta freneticamente o coração, passando de uma arritmia incerta para um bater compassado, como mão de cirurgião.

Quero socializar-me com ela, aculturar-me com ela e trocar experiências cientificas no maior arranha-céus do mundo, como se o mundo fosse um metro quadrado em volta.

Agora sim, estaria na penumbra da vida e na indiferença dos olhares como qualquer mortal que se preze.

Com este amor, comprava um terceiro-direito em Xabregas e volteava em danças de lençol, numa distância entre o Cristo-Rei e a Ponte sobre o Tejo.

O meu amigo está recuperado, apesar das meninges atabalhoadas.

Deixou-se de criaturas imberbes da Linha com geminações de sítios brasileiros que até de pronunciar faz doer o céu da boca.

Eu faço-me feliz.

Entre o Azerbaijão e a Arménia, o Kazaquistão e o prémio Pullitzer e uma espingarda de ponta com uma ponta de cair p´ro lado.

Eu e o meu amigo vamos morrer com um sorriso, outros ficarão com rugas na alma e fechos no coração.

... Deixá-los,pobres criaturas...!

01 junho, 2008

Loucuras













Se conseguir saltar três lanços de escada antes que a vizinha abra a porta,

Se conseguir cruzar os ladrilhos pretos sem tocar os brancos numa dança sem par,

Se voltar a por gravata vermelha em vez da azul que já tinha tirado

Se pela enésima vez perguntarem porque não ponho açúcar no café

Se o autocarro 45 não vier atrasado mais do que 2 minutos e 35 segundos

Se o comboio não apitar 3 vezes

Se na sexta-feira ao final da tarde o “Tarzan” do 4ºesqº não vier à varanda em tronco nu.

Se o “bolinhas” não me cheirar os sapatos e não esfregar o focinho nas calças.

Se a Dondoca Graziela Brasileira, não puxar a camisola até se ver a cicatriz do apêndice.

Se o “black” da frente não soltar decibéis indecifráveis enquanto lava e esfrega o carro pela segunda vez consecutiva.

Se conseguir ziguezaguear por entre carros estacionados em cima dos passeios e saltar poças de água sem me molhar,

Se a Viscondessa tagarela com 78 anos me voltar a cumprimentar e deixar ficar a mão esfregando-a na minha em gestos de prazer inquietantes… (os dela…)

Se na padaria me voltarem a dizer que já não cozem pão… mas vendem pizzas…

Se a matrona gordinha de piercing na língua voltar a usar as calças abaixo do limiar do rego do cu e as camisolas acima do umbigo


... Enlouqueci de vez?...

27 maio, 2008

NO INTERIOR DO MEU INTERIOR












Gosto de te ter aqui por dentro
Remexendo pelas veias, tocando na pele e entoando acordes por mim.

Gosto quando me procuras pelo cheiro, me encontras pelo cheiro
e me queres pelo cheiro.

Gosto quando sinto que te sinto

Gosto quando o teu tempo tem o meu tempo, o teu sol os meus raios a tua
chuva as minhas gotas, e a tua nuvem o meu cinzento.

Gosto quando tens segundos nas minhas horas e tardes nas minhas noites.

Gosto do teu vagar na minha pressa a minha escova no teu cabelo e o meu gel no teu corpo.

Gosto do cheiro do teu perfume na curva do meu pescoço e do brilho do teu olhar no branco dos meus dentes.

Gosto da eternidade em cada sorriso que me lanças e da peça que procuro no puzzle que é teu

Gosto quando semeias palavras e nascem frases inebriantes

Gosto quando me procuras porque me queres e me queres porque me procuras

Gosto de te ter aqui por dentro, entre canais e conjugações,
e do amor que imagino na rapidez do teu olhar.

19 maio, 2008




Quero levar-te a paragens longínquas, perto de tudo e de nada.
Onde o nada não esteja, nem que tudo aconteça.

Preciso ter-te em mim, sempre pronta no meu pensamento,
Mesmo na angústia e tormento

e em porções de pedaços de ti
por cada pedaço de mim.

Quero ter-te sem que saibas, mesmo após o raiar ou durante o crepúsculo,
por baixo da macieira no lugar do sol,
encostado à sombra, à beirinha do mar.

Quero ter-te sem que saibas, mesmo agora, ontem e durante,
em interlúdios musicais de fato curto ou completo,
num passo decerto imperfeito, como eu.

Quero ter-te comigo ou perante mim
Por um segundo ou manhã,
tarde ou raiar da aurora,
em noites longas cobertas de sal do suor que emanamos,
como o amor que sobressai num relance de olhar
e martiriza como a nau das descobertas.

Quero levar-te a paragens longínquas… em mim, como eu em ti,
Uno e indivisível, de cheiros e gosto e amor aos molhos
Numa dança inventada a dois, em rodopios inebriantes
como loucos numa noite só.

04 maio, 2008

















Sento-me em lugares vazios e isolados, ausente do mundo.

Entristeço em prolongadas mágoas, revoltas interiores que não posso delegar.

-…” olhe faz favor, … psst,,,pssst… importa-se de ficar aqui com esta mágoa e esta revolta, que vou ali e já venho?”…

Ultrapassei o prazo de validade na paciência.

Não assimilo letras mortas, já só vejo cores e versos rimados. Gosto de abraçar lágrimas e apertar sorrisos contra o peito.

E este sou eu, ausente de mim, a verter letras em cadernos sem pauta em partituras de música escondida.

Eu que, eternamente espero. E que na espera, padecendo, empalideço num tempo longo sem regresso.

E suspiro, definindo contornos dos olhos que me lêem na alma e sugam o sangue na carótida direita após o abraço leve no pescoço.

E vais nutrida de mim, em corpo e alma, que não coração.

Inventas eufemismos e gestos, matando-me nas lâminas dos dias que correm, queimando-me na fogueira dos medos.
Já estou cansado de lutas e os sulcos na pele como que esculpido na madeira do tempo, casca envelhecida.

Fico ausente do mundo e de mim, absorto em pinturas que memorizo e leituras que defino prioritárias.

Do sangue que me tiraste em transfusões sucessivas, enquanto brincavas de “Sherazade” em seduções de mil noites de mil anos e da tua mão ancorada na minha enquanto desfalecia, para retornar breve.

E olho a vida de perto, ansiando que o teu olhar encoste na minha alma, num curto-circuito sintonizado.

-…” faz favor, … psst,,,pssst… importa-se de ficar aqui com a mágoa que volto já??”…










O barco no ancoradouro batido por marés, espumando sem nexo.

Partir era um segredo guardado entre vinhedos e árvores floridas como suave a tua voz.

Olhava-te e recolhia imagens, contos, histórias, marcas sem tempo e o tempo de te olhar de novo.

Vivíamos sufocados pelas margens deste rio que nos abraçava e afagava quando nos amávamos, pé dentro dele e corpo boiando um sobre o outro, num misto de dança e navegação.

Caminhávamos nessa margem faz tempo, dias secos e o teu cheiro a flores de magnólia.

Digerias mal este mundo sem rosto nem culpa. Falsas almas, um agrado permanente aos outros que não a nós. Peles vestidas de outros que não a nossa, ideias perfeitas para outros que não as nossas.

Vivíamos a vacilar entre o ser e a razão, entre o ter e a paixão, dentro de muros, falsos como judas, e tu, banhada pelo rio que nos beija o final de tarde, com cores de Minho verdejante e foguetório que embaraça barcaças presas a amarras de vida.

Perco-me no colorido das tuas palavras e resgatas paixão na masmorra da minha insegurança.

São suaves os encantos maduros, mas intensos os beijos que trocávamos num batom vermelho ofegante.

Desnorteias veias que latejam, desordenas sentimentos quando enrolados na margem de um rio que teima em passar.

Bordamos ao relento, despidos de roupas e preconceitos, orvalhos húmidos que nos confundem,

Arrelio a tua boca, toco-te os lábios em conjunções lascivas, agitas a floresta que te habita e ritmas num feitiço raro, em dedos trôpegos e pernas que espreitam o céu.

26 abril, 2008

Outros tempos...

Eram tempos sem tempo, em que aldeias pintadas de branco com sinos a rebate anunciavam a chegada do Senhor Doutor.

O médico, cura e político, amante de Deus e adorador do Diabo, com mezinhas e opiniões, senhor de terras e vinhedos.

O Padre, mestre de almas e defensor de tentáculos pecaminosos, sobrinho de várias Tias, habituais solteiras e desencontradas por si e em si.

O professor dedicado e mestre das artes e dos ofícios com régua aprumada e cana em riste num apontamento sistemático de rios e afluentes, montanhas e distritos, caminhos-de-ferro e adjacentes.

Separavam-se os sexos como quem giza planos de futuro, masculinamente apropriados.

Falávamos baixo e pouco, pois as paredes “tinham ouvidos” e enclausuravam por períodos, alguns mais afoitos.

Os três "F´s" (Futebol, Fátima e Fado), entretinham as gentes que desbravaram horizontes nas hertzianas da BBC.

Senhorinhas de largos folhos e améns ao Presidente do Conselho mais a sua “entourage”.

Um livro de quarta classe com o menino da mocidade portuguesa de calção e bivaque, como mandam as regras doutrinais.

Homens tombavam numa cruenta guerra colonial, que se arrastava semeando mortes, infrutífera e sem sentido, enquanto outros cruzavam as portas de Caxias ou Peniche.

O Império que emergia povoado por colonizadores, onde por um lado se guerreava e por outro se espraiava nos coqueiros, ou nas avenidas de mar azul e espaços verdejantes.

A cerveja Cuca escorria em gargantas festivas, enquanto por cá o Deus-Pátria-Família vingava em eleições já determinadas.

Num instante para o 25 do 4, com equipamentos de cravos desfraldados e pétalas adormecidas por encantos e paixões.

Numa corrida voraz passaram 34 e marcamos a contratempo um compasso madrigal numa canção do Adeus.


-Coldplay_Fix You-


When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse.

And the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone but it goes to waste
Could it be worse?

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

And high up above or down below
When you're too in love to let it go
But if you never try you'll never know
Just what you're worth

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

Tears stream, down on your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down on your face
And I..

Tears stream, down on your face
I promise you I will learn from my mistakes
Tears stream down on your face
And I..

Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you

25 abril, 2008

Carta de despedida...














Já sequei lágrimas e gestos incontidos de raiva num alcance sem retorno.

Já tentei pegar numa arma e lutar a teu lado, mas o peso dela para ti é maior que o amor que tens por mim

Sei que a guerra e a distância entorpecem e endoidecem, quem lá está e quem por cá fica.

O tempo por agora é brando mas não tarda chega o sol e as risadas dos pássaros que voam em meu redor.

Sinto-me como um doente a quem todos querem disfarçar a verdade, e disfarço quando perguntam por ti.

O espelho que me traz os dias traz caretas a meu favor.

Gostava de provar mais de ti, que de tão pouco até pelos pulsos me entras.

Tenho raízes no sangue por controlar e cores que há muito não se iluminam, portas que nem eu sei da chave e janelas com correntes de ar que me assombram o peito.

Tenho um casaco com um bolso grande do lado do coração que já não me cabe, pois estava repleto de ti.

Fico inquieta por te saber assim e cerrarei os olhos para definitivamente não te ver.

A infância há muito me fechou os sonhos e sinto o pânico nas palavras que te leio.

Tens pensado em ti, porventura…

E em mim…

...já pensaste?

22 abril, 2008

Nova carta dele... na guerra...






Olá.
Recebi a tua já esperada carta... mas não sei como a ler.
Aliás, já nem sei … se te sei ler.

O tempo passa e repassa e já não sei o que fazer.
Ontem um Jeep pisou uma mina, não ficou ninguém.
Eu também já não sei se estou, ou se alguma vez estarei.

Um lápis azul atravessou a carta que o meu Pai me enviou. Já não é a primeira que o regime e a guerra cortam.

Agora, a única coisa que tenho por certo é que, após esta carta, deixarei de pensar em ti.
Deixarei de aguardar por mais uma carta. Por aquela que um dia se tornará órfã de mim…
Aqui, nestas páginas, repousarão as minhas memórias de ti. Fechadas em papel, coladas com a língua que te beijava e que já nem sabor possui.

Já não sou eu, o tipo que um dia te abordou no baile. O nosso baile da espiga.
Eu, tu e o Zé-Tó. Também nada sei do Zé-Tó, nem das cartas dos meus Pais, que a Pide não deixa passar, nem o Alferes Fernandes as entrega sem lhe passar a “unhaca” crescida do dedo mindinho.

Passo noites em branco e já não tenho memória.
Aqui os dias passam secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e hortelã,
e as mulheres não cheiram como as tuas cartas de alfazema.

Bailas nos meus sonhos como um sorriso que plantaste para sempre no meu rosto, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas, a tua pele, os lábios reluzentes.

Sempre soube que eras a mulher da minha vida, mas nós não mandamos no destino e já vários tombaram ao meu lado.
Já não sou eu, como te apercebes... e jamais te faria feliz.
Já sinto o vazio de ti que se alastra logo acima do diafragma comprimindo pulmões
costelas e coração.

Jamais te esquecerei, aconteça o que acontecer.
Teu para sempre

11 abril, 2008

Resposta dela...














Olá Amor.
Tenho medo. Medo por ti e por nós.

As notícias não ajudam na distância.
Sabemos que onde estás, é lindo, tem sol e mar e gente feliz com lágrimas, mas uma guerra tem a capacidade de destruir corações e de esquartejar futuros.

Sinto-me triste com a tua ausência. Mas dispo-me destas roupas de cinza e visto as coloridas que ainda cheiram a ti. Ainda te sinto a pele a percorrer-me, gulosa, inebriante, cheirosa. Fico nua sem ti, despida de ti.

Quero renascer contigo a meu lado. Numa chuva que irrompe pelo corpo e tinge o rosto com gotículas transparentes.

Abro os olhos e inalo o cheiro a terra. Não é pobre esta terra que piso. É rica de humildade nos rostos que revejo, onde me falta o teu.

Trago ainda os cheiros e as palavras de todas as tardes que passamos juntos e as recordações fechadas a sete chaves para não desesperar.

Já lá vai muito tempo, amor.

Tempo de quimeras, de graças e desgraças.

Estamos em 1968 e só regressas em 70…. Maldita guerra que nos dilacera o peito e seca as lágrimas há muito choradas.

Tenho medo de falhar por ti. Medo do regresso, da diferença, dos anos, das balas, das minas, medo de não ser mais a mesma. Medo de me tornar distante, irreal, inquieta, medo de estar gasta pelo tempo, ou quem sabe também partir, sem saber se regresso, ou para quê.

Tenho o cozido de espargos que arrefece e eu que acordo em sobressalto, alagada em suores, porque mais um tiro, mais uma bomba, mais mortes e cadáveres nessa guerra sem princípio nem fim.

E já são tantas as cartas que te escrevo e tantos os dias e os meses e anos sem te ver. Um cheiro a queimado, a pólvora seca, e as cartas muitas, tantas com poemas, fotos, queixumes, amores atados, versos coxos e uma letra tremida e miudinha como eu, a tua namorada de sempre.

Eu que te aguardo como guardo o desejo, de que me aqueças o corpo e o coração, perdido nas vulgaridades dos dias.

Cartas que aperto contra mim num sufoco de abandono e a ultima sempre colocada debaixo da almofada que repousa por baixo de mim… quem sabe num até já.

10 abril, 2008

Carta dele... na guerra...!












Abro as cartas meu amor.
Umas atrás das outras.

Trago-as perto de mim, junto ao coração.

A tua fotografia já não tem cor, como esta guerra que nos distancia cada vez mais.

Já passou o Outono, o capim perdeu a cor, a chuva quente de Angola atordoa-me
e as balas assobiam cada vez mais perto.

"Chego-te" a mim na ausência de ti, e releio-te para não me perder.

As folhas amarelecidas e bem dobradas das cartas, a tua foto.
Caso morra elas morrem comigo, e tu sabes.

Nunca mais são onze horas deste sábado, a ansiedade da espera e a rotina nas voltas do dia.

Abro cada uma como se fosse a ultima, com a sofreguidão do amante quando os corpos se colam num rodopio sem tempo.

Abro-as com os dentes, uma, depois outra, para voltar a sentir cada palavra tua.
Fico em furia comigo.

Em furia com cada coisa que me olha neste metro e meio quadrado de tenda, num mato sem fim.

E embrenho-me de novo nesta guerra que me trouxe sem esperança, e recordações fechadas num tecido tosco, verde, para que me confunda com o espaço, sem ele.

06 abril, 2008



Vives um dá e leva vertiginoso, interminável, que substitui os gestos e as palavras que não exprimes nem dizes.

Vives na cadência do emprego, no limbo dos problemas dos outros e no limiar dos teus.

Saltas da ponta da corda para a corda na ponta num estalar de dedos, não favorecendo imaginativas histórias, diálogos divertidos ou contos anedóticos, dado o “tom sério” com que te encaras e à tua vida.

Não exprimes o que sentes. Vês por outros, ouves de alguém, e tens a língua amordaçada por pedaços de papel colorido de emoções adormecidas.

Um dia esperarás qual sentinela pela “negritude” que sorrateira e maliciosamente intrometida, entrará sem pedir licença, e sem voz, alcançando com a jubilosa elegância dos seus tentáculos a tua presença.

“Ela” olha-nos por cantos e recantos, e quando menos esperas, vê-la passar levando a tiracolo algo teu.

Vives um dá e leva vertiginoso e esqueces-te de ti.

Falas como andas num ritmo cadenciado e que adormece a alma,
num corpo esbelto de mulher, uma medida exacta que exaspera a carne e semeia fogueiras a cada passagem.

Tens percursos de alma em mãos repletas de emoção.

Toque real de mundos invisíveis, um gesto de seda, um corpo e alma e cérebro em delicadeza subtil como um despertar.

Uma nuance de gestos e ternura com cores de fogo em beijos quentes e sobrepostos.

Por isso vive e revive, corre e exala o perfume de cada flor que pisares, em cada gesto faz uma estrofe, em cada beijo alcança os segredos mais profundos da tua alma.

Faz por ti como o tempo fará de nós, encontros e desencontros.

Mas procura-te, a Norte com vento a Sul do Sol, mas nem a Este nem Oeste de mim, que finjo ver-te e perco-me de ti.

Volta, mas volta completa.

01 abril, 2008





Quero o meu amor entre os dentes, apertado nos meus lábios de morango,
feita baunilha e caramelo.

Quero o meu amor, nem largo nem apertado, nem alto nem baixo, mas na medida exacta do termo e o termo exacto na medida.

Quero o meu amor aos pedaços, aos molhos, por inteiro ou entretanto.

Quero o meu amor aconchegado, inquieto, beijoqueiro, atrevido e bem apertado.

Quero o meu amor sem antes nem depois, no momento exacto e presente.

Quero o meu amor pela cintura, e na medida dos pés à cabeça.

Quero o meu amor enquanto dure, com todos os predicados, sujeitos e complementos directos.

Quero-o, livre e solto, acordado e a dormir, com fins, princípios e preliminares, doce e amargo, corajoso e divertido, aos pulos e amarrado, seguro e inseguro, no antes e no depois.

Quero o meu amor, com os defeitos, planos e virtudes, a pé ou de carro, frágil ou confortável.

Quero o meu amor, de olhos claros,

Azuis de água salgada, perfeita dentro de mim.

31 março, 2008

My beloved Clementine














Vejo-os diariamente, arrastando-se por leituras de jornais em cafés com vitrinas largas.

Ela deambula pelas leituras com mímica nos lábios, sublinhando com o indicador a frase que lhe escapa jornal fora.

Roupa de bom corte, cabelo arranjado e pintura sóbria. Expressão carregada de dias invernosos.

Ele com um sorriso simpático, calmo e de aspecto ternurento.

Fala com ela e toca-lhe com frequência nas mãos, na face e saboreia cada instante.

Ela agita-se, esquiva-se dos toques como se a despenteassem ou tirassem o brilho das roupas pintadas por fora e caiadas por dentro.

Os dias passam e com eles os meses e anos.

Ela não dá pelo envelhecer do marido, ele vai tornando soltos os dias e leves as correntes atmosféricas resfriadas da mulher.

Ele perde-se entre a leitura, a atenção à mulher e prolongados reflexos na vidraça do café.

Suspira por entre letras e afagos, desdéns e desditos, afastamentos obtusos no quadrado da vida.

Vivem entre labirintos como se já não se encontrassem.

Sabem-se de cor e lêem-se nas entrelinhas.

Ele ainda apaixonado, pronto para uma valsa mesclada de alecrim e amores-perfeitos, ela, mais circunspecta, entre o chá das cinco e a telenovela das nove.

Vivem sem se terem e têm-se sem se verem.

Ele fraqueja por amor e dedicação, ela dedilha doenças em imersão.

Até ao dia em que sorrateiramente a “negritude” maliciosa e sorrateira lhes bata à porta…!

29 março, 2008



Vejo-te no limiar de qualquer coisa, ou qualquer coisa no teu limiar.

Não estás pronta para coisa nenhuma ou quase nada.

Está frio e tens o coração desengonçado e a alma gelada.

Arrepiaste dos ruídos à tua volta, as buzinas, os gritos, algazarras de feira que retinem dentro de ti.

Ainda não acordaste e apetece-te adormecer de novo.
Queres fugir.
Não de ninguém em especial, eu sei, mas de ti em geral.

Estás cansada de ti, farta de ti, absolutamente entediada de ti.

Vislumbro-te numa imagem de jovem sentada no banco da estação, enquanto o comboio se afasta lentamente. Perdeste-o mais uma vez.

O comboio ou a carruagem da vida.

Mas sabemos que regressa, mais tarde ou mais cedo, para recuperar quem se atrasou.

Pode ser um tempo longo, mas o suficiente para te inteirares de ti, interiormente.
Mas sorri. Sorri do inusitado e das partidas que teimas em pregar a ti própria.

Não, não são os outros, nem a vida, nem o azar, nem a bruxa do quarto-direito.

És apenas tu.

Guardas silêncios que te atormentam e vais esculpindo sentimentos no interior, por vezes muros preenchidos com arame farpado, inexpugnável, inacessível.

Por vezes aproximo-me mas estás naqueles momentos em que os dias não têm inicio e as noites não têm fim.

Deixei-te no correio, livro amarelecido pelo tempo com excertos de frases que se acomodam entre nós dois.

Enviei-te flores, chocolates, arco-íris pintados com pautas de músico em sustenido num “dó-maior”.

E aguardo por um tempo incontável,
mergulhado em sonhos como momentos mágicos de nós.

20 março, 2008

Pelo canto do olho...!




Tens nós atados de pontas escondidas.

Olhas para o espelho e vês rugas que te recortam a pele, os brancos que tingem o cabelo e o tempo que passa sem o veres.

Agradas-lhe. Saltas e mexes, pulas e gritas, soltas ecos roucos e tudo em paz, para que tudo fique bem.

Crescem os filhos e envelheces no acampamento da vida deles.

Entretanto, pegaste-lhe na mão e tentaste saídas a dois, jantares a dois, um namoro mais subtil, uma corridinha aconchegante e diferente, o toque na coxa no elevador, o joelho no carro, meia de copos para te soltar a vida, meio escondido para acicatar a relação.

O hábito, o cansaço, a monotonia, a certeza do tempo no tempo que se tem.

Os filhos crescidos passam de relance pelo canto do olho e procuras tempo perdido.

A viagem, namoro em hotel de charme com velas reluzentes, mãos que entrelaçam no aconchego do avião, o apimentar da relação.

Diversificas no sexo com estranha desenvoltura.

Estranham-te essa desenvoltura. Como estranhas essa postura da negação desenvolta em flores e musicas madrigais.

Panóplias de frases, estudos e diálogos cortantes, arfantes desejos em reforço da relação afectiva.

Ontem de uma maneira, amanhã outra forma e hoje porque cansa, amanhã porque trabalho, depois porque sim, entretanto porque não, e solidificas a trivialidade.

Bebes um café, passeias na avenida, abanas-te num concerto, festejas alegrias, choras tristezas e o tempo passa.

Estreitas os laços ou desenlaças os nós.
Serás avançado, liberal, retrógrado, sistemático, diferente, sexy, altruísta, solidário?
Bom? Mau? Então?
... Pois… tens dificuldade no reconhecimento…

…e olhas o tempo pelo canto do olho e não vês nem revês, nem vislumbras atmosferas circundantes de cores garridas ou arco-íris que te façam vibrar.

Como no casal, também os amigos, conhecidos, colegas que vão passando pela nossa vida, vão sendo "arrumadinhos" em cantos e gavetas consoante a solidez desses laços.

Depois, é o tempo, o nosso e o deles, mais a envolvência e os interesses comuns ou não, em sincronia de pensamento ou ideais de vivência e a tenacidade de ir criando sustentação nessa relação de amizade.

Tens então aquilo a que se chama ombro empático.

Esse ombro é aquele, que ri, chora, refila, discute, chateia, brinca, absorve, que não tem inveja, nem vergonha, nem segundas intenções.

Aquele ombro empático que nos chama de volta à terra, que amiúde nos "puxa as orelhas" ou que canta e disparata connosco como duas imberbes crianças.

São ombros empáticos escolhidos pelos "olhos da alma".

E passa o tempo e com ele os anos e com estes desenganos, num ápice...
... pelo canto do olho...|

17 março, 2008

BEIJOS PELA MANHÃ.






Lá longe, muito longe, nos caminhos de alguém,
Um barco navega a sul,
Num rumo de amarras partidas feito em lágrimas de sal.

Miragens e gritos ancestrais de náufragos com promessas desfeitas.
Voragens de tempo que me cega as manhãs submersas em tons pastel

Desperto do sonho com cheiro a maçã
Que me entra janela dentro como o sol na madrugada
Enquanto me decifro entre sonhos e nuvens de caminho esponjoso
Que moldam o meu corpo ao prazer dos teus gestos
Como quadros que pinto com meus dedos feitos de pincel

Faço esboços de mim em partituras sem ritmo nem som,
E esboço a preto e branco palavras, frases, ideogramas
Como se a ausência em mim fosse um espaço natural.

Sonho lábios ardentes de mel em tempos agrestes de sonhos que não vislumbro
E folheio livros de páginas amarelecidas pelo tempo,
com pétalas de flores de ilusões passageiras e um pó de lembranças que se espalha pelo ar na direcção do infinito.

Exponho-te a nudez da minha alma e os fios ténues do coração que esboça sorrisos quando te vê.
E adormeço nos braços da noite, com a intensidade das esperas,
a ternura das palavras que me sussurras,
o doce arfar de morangos num beijo com frescura de manhã.

Beijo assim, vale uma vida inteira de esperas
nas esquinas do tempo perdido.

15 março, 2008






Não te quero em mim, envolta em mim, agarrada a mim.

Não te imagino, porque nada te poderei dar, senão a mágoa de me veres velho e exausto.

Surgiste-me quimera, como areia aos náufragos, terra aos desprotegidos e fé aos desesperados.

Guardo em mim o teu olhar doce, o meu gesto no teu gesto e em minha a tua voz.

Perdia-me na escuridão das tuas palavras e apenas com a luz do teu olhar reencontrava caminhos perdidos.

Quando partir, vou sentir a essência do abandono desordenado, e aguardar que os teus dedos enlacem os meus em névoa suspensa no espaço.

O horizonte espreita-me no instante em que sonho meu corpo debruçado sobre o sulco dos teus lábios de vermelho pintado e prazer saciado.

Colho plantas que fazes nascer por mim, nos nossos segredos quentes, de bocas molhadas num desejo sem fim.

Esvoaçam presenças estranhas que anseiam despojos dos meus sorrisos em gritos abafados que sufocam os meus.

São ecos sem voz, miragens de náufragos em promessas desfeitas, na trapaça de um destino mais cruel que a morte, lá longe...tão longe como a viagem de um velho
contador de historias...

10 março, 2008














Estou confuso há quase sete dias, uma semana.
Sete dias, uma semana, que se foram tornando em muitos minutos e horas.
Confuso e atónito. Sem saber se beijava, olhava apenas ou falava.
Era um primeiro encontro com gosto a primeiro encontro.
Bem aprumadinho, as palavras e as frases no sítio certo, a garganta seca, o local de encontro.
Estava sem saber se pediria um chá se café. Talvez chá, de ervas doces, mais tranquilizante.
Sentei-me e esperei.
Primeiro encontro. Estava calor, suava das mãos, o cabelo pegava.
A espera.
O amor não espera.
Até podia ser um caso, não fosse o desamor.

Não sei a quem o tempo obedece, mas não é a mim.
Já barafustei, reclamei, fiz pedidos, requerimentos, atrasei e adiantei relógios, e nada.
Tive momentos em que chegava horas adiantado, outros… dias, anos atrasado.

Chove imenso e tenho desejo de ti. Janeiro faz verso com água, mas não rima.
Anoitece rápido, e eu em busca do amor calmo e sem remorsos.

Sinto-me abstracto, em estado latente de apavoramento.
Já me senti mais seguro. Tenho coração Espartano, que perde batalhas não ganha guerras e segue teimoso, passos à frente.

O amor é controverso, o prazer também.
Já vivi amores e desamores em estações incertas.
Amores de verão, Invernosos, desamores Outonais e Primaveris, portanto não são amores de estações.
Já troquei as vestes.
No Inverno, floreio Primaveras pintando escaldantes veraneios que chegados ao Outono repousam vivas em êxtases florais de estrondosos amarelos.
É do rubro vermelho que se faz o amor, como o coração que me enlaça.
Estou confuso há quase sete dias, uma semana.
Já pensei se será este o Amor.

Pintei quadros de memória, fiz esboços criativos, porque o Amor tem arte.
Não te sei a cor, nem o jeito, nem abrindo os olhos te imagino.
Esquecemos as palavras e recriamos espaços temporais.

Estou confuso e atónito.
É apenas um primeiro encontro nos desencontros da vida, e eu lanço aguarelas de cor na tua imagem para nos colorir o futuro.
Sim, porque o Amor tem arte.

08 março, 2008












Já não tens poesia dentro de ti.

Perdura apenas dentro do ventre opaco e doce, que te vai aliviando e adornando a alma, quando o corpo te abandona sem fulgores.

Faço então de encantos minhas dores e de murmúrios a boca, enquanto o peito sangra e sente por perto a morte.

Escondo-me dela, projecto-me no espaço e nego-lhe a sorte.

E desses faiscantes olhos azuis, que cedo me toldaram o olhar e a sensatez em frémitos de amor e paz, sorvendo gelados íntimos em taças de cristal.

Fala-se que a Lua não tem luz própria, mas carrega destinos, leva-os conforme incumbência do vento e aquece pretextos e passos. Os passos da noite na alvorada e desta num amanhecer espreguiçado à beira mar.

Sei que a saudade é um cais de pedra onde os encontros não se fazem, como as ondas que voltam sete após sete.

Preciso ter de novo os manuscritos dos nossos pecados originais.
Doces palavras, carregadas de sais, incisivas, mordazes.

Desejo que me tomes nos braços e me reescrevas caminhos, para que eu, numa letra em desalinho, estreite distâncias e alcance em qualquer tempo e espaço temporal, o verbo e a poesia numa prosa única e definitiva.

07 março, 2008













Comecei mal o dia.
Estava atrasado.

Um banho apressado, uma meia-barba desfeita, faço a estrada dentro dos limites mais um.
Chego à portagem com o cartão multibanco e o Ticket, tudo preparadinho em antecipação. Aguardo que o carro da frente avance.

A dama da viatura, parou, desligou o motor, olhou-se no retrovisor “à La Mode”, procurou a carteira, sacudiu as moedas, vibrou o Ticket no ar, olhou e sorriu para a funcionária. Esta com ar de enfado sorriu também.

A dama resolveu entregar o bilhete mais os trocos em mão cheia. Recibo na mão, troco guardado com esmero, volta a meter a carteira na bolsa, colocando-a no banco do lado, e uma fila enorme atrás de mim.
Liga a ignição, arranca, esqueceu o travão de mão.
Destrava o carro e ainda tem tempo para um ultimo olhar ao espelho retrovisor vendo o seu perfeito "glamour".

Depois de almoço estava com uma valente enxaqueca(costumo dizer que é sempre mais enxa que queca... vá-se lá saber porquê).

Fui à Farmácia. Sempre gostei de Farmácias.
Das novas com os computadores que dando um “enter” nos atiram o medicamento por uns sopradores de vento, numa espiral de fórmula um, mas também das velhas com um “PH” de Pharmácia, mais o Senhor António–dos–óculos-redondos e lentes de fundo de garrafa, o cheiro e o branco imaculado das batas, mais a Dra. Anacleta-pasta colgate, bonitinha com uma falha na ranhura do meio dos dentes de cima.

Adorava as balanças de moeda na ranhura contra peso e medida, o “x-acto” que golpeia embalagens e esquarteja códigos de barras.

A senhora que compra pensos "prós-calos" e o cavalheiro que disfarçadamente amacia o bigode e diz entre dentes:... -”uma caixinha de coisos...”...”sim... preservati.... hum hum...pois”.

Nesse instante entra uma “Gioconda” descapotável, que procura um creme “x” que estica a pele, encolhe a barriga, puxa o queixo, levanta as pálpebras, e todos se viram e todos se calam.

O cavalheiro ajeita-se na fatiota aprumada e a senhora dos calos fala das doenças que a consomem de três gerações a esta parte.

Sempre gostei de farmácias. Daquelas com os frascos de bicarbonato em cima do balcão mesmo ao lado dos rebuçados peitorais, onde no corredor se aviam injecções como colheradas de mel.

Saí muito mais aliviado.
Cheguei a casa e acabei de ler um livro.
Adoro acabá-los. Adoro a parte do meio também, mas folhear quando os compro, devorar as entranhas, saborear frases inteiras e complexas e num salto chegar ao fim.

Fui chamado numa emergência à cozinha porque estava atrasado.

Como sempre, atrasado.

Já tentei dominar os ponteiros do relógio, mas eles não travam, não recuam, andam sempre em frente. Dizem que Graças–a-Deus, mas não sei se Deus tem mesmo alguma coisa a ver com isto.

Descasquei umas batatas e abri o pacote de natas. Sujei as calças.

Tenho um desaguisado permanente com as natas. Ou porque engordam, ou porque sujam, mas não nos entendemos, constato que não.

Ouvi ralhar, que sou desastrado, que não vejo o que faço, que tenho de prestar atenção.

Zanguei-me.

Peguei na fritadeira, mandei-lhe com o óleo, mais umas batatas, um bife com ovo encavalitado quase a cair da sela, mais umas salsichas frescas, tudo bem apaladado.
Zanguei-me mesmo.
O lixo já não o despejei, nem desliguei o gás nem fechei a porta.
Bem que o dia tinha começado mal.

Amanhã levanto-me mais cedo não vá encontrar a "Dama de Copas" pelo caminho e ainda me rifo todo.