31 janeiro, 2008














Efémera a noite em que me encantei por ti
Num sonho de desejo em que te invado de mim
Pêndulo instável num desequilíbrio permanente e eu… sem ti.

Vou à procura do sonho em mares revoltos,
Um sonho em que desenho nos teus lábios trajectórias com os meus dedos e os contornos de luz que me invade antes do beijo.

Vou à procura do sonho em que me vejo
Numa doce sensação de te invadir pernas e ancas
Em que rodopio e te procuro, afago no pescoço e deleito no leito, contigo quente em meus braços vigorosos.

Gestos que me incendeiam as veias, sopro de ar que me encurrala na tua garganta enquanto vislumbro a curvatura do teu joelho e no qual adoro o sorriso do teu umbigo.

Vou à procura do sonho em que sei dos caminhos em ti, que desejo percorrer,
caminhos de ti.

Desejos ternos rebuscados nos ombros largos que te acolhem, enquanto perscruto a tua imagem de mãos macias como cego em Braille.

E ao teu lado me deito cansado, de voltas e revoltas, de corrupios e rodopios, de mãos entrelaçadas em apertos bruscos do teu corpo no meu.

Vou à procura do sonho em que te vejo enrolada em mares revoltos,
como sereia que me canta e encanta, enquanto me torço, viro e reviro e desespero,
porque…
Se me faltas…
eu morro

No cais da tua vida


















Amavam-se.
Mas como duas tempestades colidiam frequentemente…

Raramente encontravam o paraíso na relação.
Enxofravam-se -dizia ela .
narcoteavam-se - dizia ele.

Contudo, não se deixavam nem por um segundo.
Cada um precisava do seu opositor.

Por simples competição?

Por necessidade de arrumar os diabinhos interiores?

Por que é bom?

Porque no mau se entendem?

Mas amam-se.
Lutam e desesperam um pelo outro.

Quando se entreolham a hipertrofia dos músculos reflecte-se.
Viviam como no cais da vida. Ancorados e no limiar do afogamento.

Mas…uma terrível doença degenerativa apoderou-se dele.

Enlouquecido, vivia espraiando-se em insegurança, rasgando pedaços da vida que lhe restava.

Foi-se consumindo em minutos, em instantes fugazes, devorado infantilmente por um pedaço de qualquer coisa.

Viveram o resto do tempo quase sem mastigar, aprendendo a saborear os momentos e mau grado a vontade... o tempo parou.

23 janeiro, 2008





Gosto de estar contigo por inteiro ou aos bocados, sem futuro nem amanhã.
Como se não houvesse amanhã.

Mesmo quando estás enrodilhada em ti…insegura, como um amor Outonal em meia-estação.
Meia vazia, meia de nada.

Gosto de ti. Do sorriso e da voz… A tua voz.
Gosto dos teus impulsos e do ralhar ternurento que invocas para minha satisfação.
Birrinhas de gajo, dizes tu...

As tuas palavras eram os meus Anjos-da-Guarda.
Palavras que dizias sem prazo de validade.
Palavras que me percorriam a pele e atravessavam ouvidos e boca, e se fixavam num verdadeiro balançar, entre línguas mordidas no aconchego de um sonho.
Palavras que arrastavam o meu corpo, sentindo-lhe o pulso, antes que morra o meu coração nesse espaço de artérias entupidas.

Deste amor em que me sinto como violino de notas graves, sustidas.
Notas suspensas na loucura de um mais Ré, Fá-Lá-Si-Dó. Um Adágio em ritmo de Allegro, e tu… mesmo enrodilhada em ti, insegura, impulsiva, vendo a vida como sem amanhã, como violino que grita para lá da razão.

Vivemos muito para lá do tempo, na incerteza de um sentimento estranho que parece procurar sustento, quebrando regras de ritmo e musicalidade.

Gosto de estar contigo, por inteiro, aos bocados ou mesmo fatiada como se não houvesse amanhã.

22 janeiro, 2008




















Maria fazia-me pendurar as orelhas no estendal só para a ver entre as frinchas da janela.


Eu espreitava, Maria despia, eu espevitava, Maria deitava.
A luz apagava, eu tropeçava.

Maria era namoradeira mas pouco motivada. Namorava como cozinhava ou tão só como aspirava -Uma mão na massa, outra no instrumento-.

Deixámos de nos ver porque me trocou por um livro de um escritor Francês….. Pierre qualquer coisa... que jurava a pés juntos ser fantástico, e que não conseguia parar de ler.
Juro que não me recordo de alguma vez ter usado a palavra fantástico comigo…

Maria, lia devagar e calmamente, como se penetrasse cada personagem. Tinha dificuldade em decorar os nomes e as relações entre elas - não só nos livros, mas em tudo-.

Por mais que me aproximasse entre um livro e um chá, pegando-lhe na mão, pousando-a na minha perna esperando autorização, já ela cravava as unhas na lombada de Dickens.

Quando lhe escorria uma nesga de pensamento as mãos dedilhavam botões que lhe fixavam atenção em vez de duas ou mais páginas tenebrosas.
Nesses momentos (raros), um Anjo Azul descia e bendizia olhos, boca e corpo.

Não havia Montesquieu, Dumas, nem peças raras de colecção, as mãos eram veludo, pedaço de inquietação.

Tal assombro pouco durou, como capítulos transfigurados em peças soltas de uma história.
Maria ficava absorta... nada mais mexia… - e a biblioteca era enorme-.

Procurei fugas, saltos, encenação, mas este não era o dia das escolhas acertadas, pois estava escrito em lápis de cor.

Olhei o relógio que conta as horas do esquecimento…- amnésia eterna escrita em bolas de sabão-

19 janeiro, 2008















Maria Fernanda ou Fernanda Maria, depende dos gestos e do dia.
Moça casadoira, inquieta nas meninges mas esquálida no rosto.
Vive a um ritmo de árvore de fruto... amadurece.

Não se lhe conhecem namoros, pretendentes ou amizades.
Vive para si e para o telemóvel verde, de luzes gritantes, amarelas como néons atmosféricos.

Maria, a Fernanda, galopa a ritmos próprios em dorso que desconhece, noites húmidas por si conquistadas.

Repara passadeiras de passagem envoltas em mistérios insondáveis no seu corpo e arrasta por si e per si, mãos que dedilham músicas eruditas na cintura adelgaçante que Deus-Nosso-Senhor lhe deu.

Fernanda, Maria, escreve e reescreve para um caderninho Moleskin em letra de tinta preta como o luto que a envolve dia a dia, enquanto à noite se solta e arrepia em estrofes Pessoanas.

Maria Fernanda tem o coração gelado mas perna quente, como gazela desenfreada em capim africano.

Maria a Fernanda, Fernanda Maria, traz cabelo repuxado, deixando branca a tez, de negra a vida e colorida a imaginação por si povoada em danças ritmadas com doces toques de magia, sedas que lhe banham a pele em corpo escondido por debaixo de lençóis frenéticos como motores de fórmula-um.

Maria suspira enquanto solta, mansa voz de nevoeiro, traduzindo relances de poesia escrita em acordes madrigais.

Quando a madrugada se solta e o mocho pia as horas, já Maria Fernanda atalha ruelas para servir em casa senhorial, qual palácio habitado por si em sonhos debruados a ouro.

Outro dia passa, e meses e anos e Maria Fernanda, Fernanda Maria, sem namorado nem pretendente, banha de águas doces o sonho, por entre risadas de orvalho em gotas de segredos, os dedos de bruxinha apontando no perfeito momento…
… o momento perfeito .

18 janeiro, 2008














Está Sol mas frio também. Não estou só.

Os anjos que me acompanham sabem tudo de mim, mais do que eu.
Eles entreolham-se e baixam o olhar, eu levanto a cabeça bem acima do possível.

Olho-me ao espelho. Desvio, volto a fixar a imagem até se desfigurar completamente e ser absorvido por um outro tempo, um outro espaço.

Ouço frases feitas e repetidas, gente que caminha sem direcção e direcções sem destino.
Não sei de que lado estou. Se dentro se fora. As palavras surgem como ritos ancestrais.

Lembro-me do Bino no "Júlio de Matos", que caminhava sem sentido e palrava sem conexão.
Debita frases que só terão cabimento no mundo para lá do portão…
Não sei de que lado estou, logo, não saberei o que fazer daquilo que ouvir.

Rebobinam-se personagens. Alguns cujos anjos conheço e me conhecem a mim, porventura.
Outros, perco-os devorados pela multidão. Também devem estar sós, como eu.

Por vezes rebusco imagens e foges-me do lado de lá.
Do espelho? Da vida? Do sonho? Do muro?

Gosto de fazer ar sério… bocejo levemente. Volto-me e desapareço.

Já não me pergunto qual de nós sou realmente eu.
Para o caso pouco interessa, não me posso levar muito a sério…

Ouço ecos, coisas vagas pelo corredor branco, sem pintura, desfeito.
Ouve tempos em que acordava triste da tua tristeza, agora finjo nada saber.

Eu e o Bino. O Bino só, ou eu também, procuramos caminhos que nos levem a algum lado… ou a lado nenhum, desde que nos levem.

As noites são cada vez mais longas e as mãos cada vez mais soltas, como o tempo cada vez mais denso.

Já não te vejo a não ser em visão periférica, nem sei de ti.. como de mim… que vagueio por colecções de pequenas memórias.

Neste tempo de descobertas póstumas sinto-me tão distante e consequentemente tão próximo de ti.

Com o Bino, chegam vários num aconchego que me afaga a alma e corta o coração. Procuram jeitos de herói em perfil mal desenhado.

E eu… conto. Tudo, tudo com a esperança de que ouvidos atentos e interessados darão o tom heróico às personagens.

Se regresso não sei… mas vejo que chegam em catadupa numa implosão anunciada.

14 janeiro, 2008














Desembainho a espada e procuro-te o coração para a desenferrujar.
Estrafego, desmembro-o e liquido-o a copázios de veneno para que me deixe.

Fujo escorregadio, corto-lhe a raiz, mas ressuscita a espaços e amedronta-me o esqueleto, vai moendo a pacatez do meu espaço e aterroriza-me os sentidos.
Este mundo avança e pretende correr sozinho, deixando-nos entregues a abismos demorados por quedas em slow motion.

Corremos vida fora sem saborear os sonhos e promessas que deixamos por aí e atascamo-nos em lamas que nos pesam e atrasam para o calor que deveria ser esta vida.

Tentamos repensar e dizer as tristezas, mas não temos quem nos oiça, valendo o silêncio pois o que não dizemos já é o bastante.

Reina um silêncio profundo quando os corpos recolhem à ternura das sombras.
E é nesses momentos que somos nós. Pele na pele, toque no carinho e o limbo que nos aguenta.
E olhamos o futuro em colinas atapetadas de verde, rodeado por milagres de amores-perfeitos.

As saudades de ti vieram nas asas do pássaro habitar em mim, quando apenas pedia um metro quadrado de nós.
E tentei … que vivêssemos quase por um instante do cheiro, do toque, da música, do calor, do desejo, do sentimento e que não controlássemos o gesto, que fossemos prisioneiros de nós.

Mas desabam pedras e lavas incandescentes que nos envolvem.
Procuramos refúgio mas sentimos uma vida a passar-nos ao lado.

Enlaço a corda e desenlaço o futuro. Aperto bem o baraço, estico e rodopio num instante fugaz.
Dois passos e uma porta. Uma porta e um retrocesso. O medo da fronteira, do invisível.
Caminhamos sem destino, penetrando o futuro num desejo já sonhado.

Limpo a espada no teu peito reluzente.

Viverás por entre mundos, entre duendes e guerreiros, dragões e cães vira-latas, entre muros e praias desertas, entre o verde, azul e o cinza, entre a alvorada e o sol radioso, entre o barco na bolina e o vapor do comboio, entre oboés e pianos de cauda, nas Primaveras da vida que o Inverno quis levar, entre metamorfoses e telas pintadas por ti em livros escritos por mim.

08 janeiro, 2008












Durante imenso tempo interiorizamos a personagem.
Misturando papéis, fazendo perigar o fulgor da actuação, da minha, da tua, outro qualquer, neste palco imenso que é a vida numa mistura de sentimentos contraditórios.

Invariavelmente questionamos o papel que desempenhamos.
Os lugares que ocupamos, as nossas vivências, quem nos rodeia, como e porquê, a importância das coisas e nas coisas, a hierarquização dos espaços e dos tempos.

Neste palco que habitamos e que pisamos numa busca interminável de nós, com máscara ou sem, sem farsa, ou com, ao bom nível das encenações burlescas e rebuscadas, no qual cada um interpreta à sua maneira emprestando o seu cunho pessoal numa peça de teatro mal ensaiada, com toque Shakesperiano.

Mas quantos de nós (se não todos...) vivemos dois ou mais cenários, papéis e personagens, como se em nós coabitassem dois seres diferentes e distintos.

Temos também, em bom rigor, muitos bobos que nos habitam rodeados por diabinhos que nos ameaçam, envoltos nas figuras tristes que fazemos na expectativa de um imerecido aplauso.

Importante encontrar estações de entrada e estações de saída.
E que o teatro dos sonhos não nos tire a lucidez.

07 janeiro, 2008














Agraciada por uma silhueta intermitente,
Inteligência rara e óbvia presunção.

Arrasta um olhar flamejante pela rua fora
Olhando de soslaio para agruras de vida
Quadros inacabados de uma paisagem incerta,
Cuja linha de horizonte, todavia, adivinha...

Páginas escritas sem sentido, desconexas, cruéis e vagas
Frias com memórias vivas e escassas permanências
Vai vida fora sem sentido, bamboleante, gracejando inquietação
Solta-se a bombordo
Ajeita-se a estibordo
Como Éros, bela e irresistível, mas unificadora
Navega em mares como Ulisses sob o canto das Tágides.

Riqueza interior amealhada
Tesouros por partilhar,
uma alma incauta em gestos que anulam distâncias
Como luz fragmentada sob um Deus nu.

06 janeiro, 2008

CENAS DE GAJA




Gostava de ficar diferente.
Por vezes, abandalhar-se e mostrar-se indiferente.

Caminhar por Lisboa antiga em hora de ponta, amarrar o cabelo num rabo-de-cavalo oleoso e repuxar com violência as raízes escuras; manter a curvilínea gostosa do seu corpo em roupas agarradas à pele e estilhaçar a mesma com brincos, fios enormes e um verniz descascado.

Descortinava os olhos, retirando os riméles e nos lábios apenas ligeiro baton de cieiro ou um gloss; vestia camisolas largas de homem, cuecas brancas e preenchidas com altura desusada, meias de lycra com malhas fendidas de cima a baixo; camisa desbotada e um casaco a três quartos cintado.

Atrevia-se a risos obscenos de alarve altitude, mas deixava o olhar matreiro contra o vidro, espreitando o toque atrevido do que passava.

Mandou o ginásio de férias, comia com as pontas dos dedos em jeitos e trejeitos sexy-ambulantes, cotovelos ferrados no prato e esquecia o creme no corpo de propósito para esfoliar em próxima oportunidade.

Saiu várias vezes porta fora a cantar como louca varrida e imaginava que nos tempos mais próximos não veria as mãos dele untando-lhe costas e pernas num movimento circulatório de volta-ao-Mundo-em-poucos-minutos.

Desancava braços e ancas e pernas e traseiro e toda ela respirava Ferrero-Rocher.
Depois de meia cidade calcorreada e transeuntes com torcicolos, voltava às madeixas, manicure e gestos estreitos num assomo pornográfico ao seu próprio corpo.
Com a mão esquerda puxava a direita dele e calmamente colocava-a por entre a alça do sutiã e esticava-o como uma fisga de ir aos pardais.

Dedilhava Odes até ao umbigo num nocturno de Chopin e percorria-lhe os nós dos dedos com a ponta da língua, como Garçon em Restaurante do Guincho para aferir da medida exacta de um ingrediente novo.

Enredava-o no interior das suas pernas e sussurrava isto e aquilo mais
aquele-outro em verdades inconvenientes encaixando como lego.

Puxava o doce de morango enquanto o cobria de chantilly em doses pequenas por recomendação médica aos açúcares.

Adorava o atrevimento e gostava que ele gostasse dela como bicho em corpo frágil.

Ficava com ar misterioso, submerso em saudade…
… até nova tentativa de loucura interior ou saudável ternura
num breve até já.