06 janeiro, 2008

CENAS DE GAJA




Gostava de ficar diferente.
Por vezes, abandalhar-se e mostrar-se indiferente.

Caminhar por Lisboa antiga em hora de ponta, amarrar o cabelo num rabo-de-cavalo oleoso e repuxar com violência as raízes escuras; manter a curvilínea gostosa do seu corpo em roupas agarradas à pele e estilhaçar a mesma com brincos, fios enormes e um verniz descascado.

Descortinava os olhos, retirando os riméles e nos lábios apenas ligeiro baton de cieiro ou um gloss; vestia camisolas largas de homem, cuecas brancas e preenchidas com altura desusada, meias de lycra com malhas fendidas de cima a baixo; camisa desbotada e um casaco a três quartos cintado.

Atrevia-se a risos obscenos de alarve altitude, mas deixava o olhar matreiro contra o vidro, espreitando o toque atrevido do que passava.

Mandou o ginásio de férias, comia com as pontas dos dedos em jeitos e trejeitos sexy-ambulantes, cotovelos ferrados no prato e esquecia o creme no corpo de propósito para esfoliar em próxima oportunidade.

Saiu várias vezes porta fora a cantar como louca varrida e imaginava que nos tempos mais próximos não veria as mãos dele untando-lhe costas e pernas num movimento circulatório de volta-ao-Mundo-em-poucos-minutos.

Desancava braços e ancas e pernas e traseiro e toda ela respirava Ferrero-Rocher.
Depois de meia cidade calcorreada e transeuntes com torcicolos, voltava às madeixas, manicure e gestos estreitos num assomo pornográfico ao seu próprio corpo.
Com a mão esquerda puxava a direita dele e calmamente colocava-a por entre a alça do sutiã e esticava-o como uma fisga de ir aos pardais.

Dedilhava Odes até ao umbigo num nocturno de Chopin e percorria-lhe os nós dos dedos com a ponta da língua, como Garçon em Restaurante do Guincho para aferir da medida exacta de um ingrediente novo.

Enredava-o no interior das suas pernas e sussurrava isto e aquilo mais
aquele-outro em verdades inconvenientes encaixando como lego.

Puxava o doce de morango enquanto o cobria de chantilly em doses pequenas por recomendação médica aos açúcares.

Adorava o atrevimento e gostava que ele gostasse dela como bicho em corpo frágil.

Ficava com ar misterioso, submerso em saudade…
… até nova tentativa de loucura interior ou saudável ternura
num breve até já.

Sem comentários: