14 janeiro, 2008














Desembainho a espada e procuro-te o coração para a desenferrujar.
Estrafego, desmembro-o e liquido-o a copázios de veneno para que me deixe.

Fujo escorregadio, corto-lhe a raiz, mas ressuscita a espaços e amedronta-me o esqueleto, vai moendo a pacatez do meu espaço e aterroriza-me os sentidos.
Este mundo avança e pretende correr sozinho, deixando-nos entregues a abismos demorados por quedas em slow motion.

Corremos vida fora sem saborear os sonhos e promessas que deixamos por aí e atascamo-nos em lamas que nos pesam e atrasam para o calor que deveria ser esta vida.

Tentamos repensar e dizer as tristezas, mas não temos quem nos oiça, valendo o silêncio pois o que não dizemos já é o bastante.

Reina um silêncio profundo quando os corpos recolhem à ternura das sombras.
E é nesses momentos que somos nós. Pele na pele, toque no carinho e o limbo que nos aguenta.
E olhamos o futuro em colinas atapetadas de verde, rodeado por milagres de amores-perfeitos.

As saudades de ti vieram nas asas do pássaro habitar em mim, quando apenas pedia um metro quadrado de nós.
E tentei … que vivêssemos quase por um instante do cheiro, do toque, da música, do calor, do desejo, do sentimento e que não controlássemos o gesto, que fossemos prisioneiros de nós.

Mas desabam pedras e lavas incandescentes que nos envolvem.
Procuramos refúgio mas sentimos uma vida a passar-nos ao lado.

Enlaço a corda e desenlaço o futuro. Aperto bem o baraço, estico e rodopio num instante fugaz.
Dois passos e uma porta. Uma porta e um retrocesso. O medo da fronteira, do invisível.
Caminhamos sem destino, penetrando o futuro num desejo já sonhado.

Limpo a espada no teu peito reluzente.

Viverás por entre mundos, entre duendes e guerreiros, dragões e cães vira-latas, entre muros e praias desertas, entre o verde, azul e o cinza, entre a alvorada e o sol radioso, entre o barco na bolina e o vapor do comboio, entre oboés e pianos de cauda, nas Primaveras da vida que o Inverno quis levar, entre metamorfoses e telas pintadas por ti em livros escritos por mim.

5 comentários:

Paula disse...

Como é que um coração pode aterrorizar-nos os sentidos!?... E merece ele ser esquartejado assim?
E... não temos quem nos ouça?
Talvez!
Mas indubitavelmente temos quem nos leia e releia!
E depois que importa viver apenas num mundo de sonho?!
O mundo dos sonhos chega a ser mais forte que o mundo "real" e insensato em que rastejamos!

Anónimo disse...

... se fosse uma carta de amor... seria seguramente a mais linda carta de amor!

Rosa disse...

"Estrafegar". Gosto muito desse verbo. É tão... visual.

Som do Silêncio disse...

Gostei de te ler!

Bjs

Antonia disse...

Meu Deus!
O que vc escreve é tão lindo... e dói...machuca e ri...suave e desleal para quem está só...
Abraço
Antonia