Está Sol mas frio também. Não estou só.

Os anjos que me acompanham sabem tudo de mim, mais do que eu.
Eles entreolham-se e baixam o olhar, eu levanto a cabeça bem acima do possível.

Olho-me ao espelho. Desvio, volto a fixar a imagem até se desfigurar completamente e ser absorvido por um outro tempo, um outro espaço.

Ouço frases feitas e repetidas, gente que caminha sem direcção e direcções sem destino.
Não sei de que lado estou. Se dentro se fora. As palavras surgem como ritos ancestrais.

Lembro-me do Bino no "Júlio de Matos", que caminhava sem sentido e palrava sem conexão.
Debita frases que só terão cabimento no mundo para lá do portão…
Não sei de que lado estou, logo, não saberei o que fazer daquilo que ouvir.

Rebobinam-se personagens. Alguns cujos anjos conheço e me conhecem a mim, porventura.
Outros, perco-os devorados pela multidão. Também devem estar sós, como eu.

Por vezes rebusco imagens e foges-me do lado de lá.
Do espelho? Da vida? Do sonho? Do muro?

Gosto de fazer ar sério… bocejo levemente. Volto-me e desapareço.

Já não me pergunto qual de nós sou realmente eu.
Para o caso pouco interessa, não me posso levar muito a sério…

Ouço ecos, coisas vagas pelo corredor branco, sem pintura, desfeito.
Ouve tempos em que acordava triste da tua tristeza, agora finjo nada saber.

Eu e o Bino. O Bino só, ou eu também, procuramos caminhos que nos levem a algum lado… ou a lado nenhum, desde que nos levem.

As noites são cada vez mais longas e as mãos cada vez mais soltas, como o tempo cada vez mais denso.

Já não te vejo a não ser em visão periférica, nem sei de ti.. como de mim… que vagueio por colecções de pequenas memórias.

Neste tempo de descobertas póstumas sinto-me tão distante e consequentemente tão próximo de ti.

Com o Bino, chegam vários num aconchego que me afaga a alma e corta o coração. Procuram jeitos de herói em perfil mal desenhado.

E eu… conto. Tudo, tudo com a esperança de que ouvidos atentos e interessados darão o tom heróico às personagens.

Se regresso não sei… mas vejo que chegam em catadupa numa implosão anunciada.

Comentários

Anónimo disse…
Nunca te sintas perdido, porque sempre há um anjo que vela por ti......
olhos grandes disse…
gostei de te ler, hoje.
Acordomar disse…
Gostei, e muito ... desse emaranhado de situacões sem norte...

Beijoca*

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