18 janeiro, 2008














Está Sol mas frio também. Não estou só.

Os anjos que me acompanham sabem tudo de mim, mais do que eu.
Eles entreolham-se e baixam o olhar, eu levanto a cabeça bem acima do possível.

Olho-me ao espelho. Desvio, volto a fixar a imagem até se desfigurar completamente e ser absorvido por um outro tempo, um outro espaço.

Ouço frases feitas e repetidas, gente que caminha sem direcção e direcções sem destino.
Não sei de que lado estou. Se dentro se fora. As palavras surgem como ritos ancestrais.

Lembro-me do Bino no "Júlio de Matos", que caminhava sem sentido e palrava sem conexão.
Debita frases que só terão cabimento no mundo para lá do portão…
Não sei de que lado estou, logo, não saberei o que fazer daquilo que ouvir.

Rebobinam-se personagens. Alguns cujos anjos conheço e me conhecem a mim, porventura.
Outros, perco-os devorados pela multidão. Também devem estar sós, como eu.

Por vezes rebusco imagens e foges-me do lado de lá.
Do espelho? Da vida? Do sonho? Do muro?

Gosto de fazer ar sério… bocejo levemente. Volto-me e desapareço.

Já não me pergunto qual de nós sou realmente eu.
Para o caso pouco interessa, não me posso levar muito a sério…

Ouço ecos, coisas vagas pelo corredor branco, sem pintura, desfeito.
Ouve tempos em que acordava triste da tua tristeza, agora finjo nada saber.

Eu e o Bino. O Bino só, ou eu também, procuramos caminhos que nos levem a algum lado… ou a lado nenhum, desde que nos levem.

As noites são cada vez mais longas e as mãos cada vez mais soltas, como o tempo cada vez mais denso.

Já não te vejo a não ser em visão periférica, nem sei de ti.. como de mim… que vagueio por colecções de pequenas memórias.

Neste tempo de descobertas póstumas sinto-me tão distante e consequentemente tão próximo de ti.

Com o Bino, chegam vários num aconchego que me afaga a alma e corta o coração. Procuram jeitos de herói em perfil mal desenhado.

E eu… conto. Tudo, tudo com a esperança de que ouvidos atentos e interessados darão o tom heróico às personagens.

Se regresso não sei… mas vejo que chegam em catadupa numa implosão anunciada.

3 comentários:

Anónimo disse...

Nunca te sintas perdido, porque sempre há um anjo que vela por ti......

olhos grandes disse...

gostei de te ler, hoje.

Acordomar disse...

Gostei, e muito ... desse emaranhado de situacões sem norte...

Beijoca*