22 janeiro, 2008




















Maria fazia-me pendurar as orelhas no estendal só para a ver entre as frinchas da janela.


Eu espreitava, Maria despia, eu espevitava, Maria deitava.
A luz apagava, eu tropeçava.

Maria era namoradeira mas pouco motivada. Namorava como cozinhava ou tão só como aspirava -Uma mão na massa, outra no instrumento-.

Deixámos de nos ver porque me trocou por um livro de um escritor Francês….. Pierre qualquer coisa... que jurava a pés juntos ser fantástico, e que não conseguia parar de ler.
Juro que não me recordo de alguma vez ter usado a palavra fantástico comigo…

Maria, lia devagar e calmamente, como se penetrasse cada personagem. Tinha dificuldade em decorar os nomes e as relações entre elas - não só nos livros, mas em tudo-.

Por mais que me aproximasse entre um livro e um chá, pegando-lhe na mão, pousando-a na minha perna esperando autorização, já ela cravava as unhas na lombada de Dickens.

Quando lhe escorria uma nesga de pensamento as mãos dedilhavam botões que lhe fixavam atenção em vez de duas ou mais páginas tenebrosas.
Nesses momentos (raros), um Anjo Azul descia e bendizia olhos, boca e corpo.

Não havia Montesquieu, Dumas, nem peças raras de colecção, as mãos eram veludo, pedaço de inquietação.

Tal assombro pouco durou, como capítulos transfigurados em peças soltas de uma história.
Maria ficava absorta... nada mais mexia… - e a biblioteca era enorme-.

Procurei fugas, saltos, encenação, mas este não era o dia das escolhas acertadas, pois estava escrito em lápis de cor.

Olhei o relógio que conta as horas do esquecimento…- amnésia eterna escrita em bolas de sabão-

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