28 fevereiro, 2008













Nós os outros, os restantes, os demais,
pobres criaturas adormecidas pela vida
Deambulamos na textura aquosa e impura da cidade
Enquanto o negro sobre ela se abate

Nós, os impuros, os outros,
aqueloutros, os tais
abrigamos o frio em jornais remexidos
Como luta diária em caixotes repelentes
Aninhados no vazio dos cantos
que a pedra cala

Nós, famintos,
gente sem nome nem destino,
Ausentes permanentes, andarilhos de um tempo intemporal
Recolhidos com redes nefastas de peixe miúdo

Nós que também sonhamos
com a intempérie de papeis gastos
Numa metáfora de dias vazios e a essência desconexa de dias plenos
Que não vivemos
Por muros que se erguem em redor

Assim, caminhamos no esquecimento.
O nosso, o teu, o dos outros
Por entre túneis, avenidas esventradas
entre a luz baça da cidade

27 fevereiro, 2008

Belle Époque














Já não recordo muita coisa.
Umas porque apago da memória num "delete" permanente, outras porque já não atinjo tempos distantes.
Mas sei que nessa época havia um cão boxer que habitava também o nosso espaço.
Deambulava entre mesas e pernas e recostava-se contra as costas da tua mão para lhe afagares o pelo.

Agora, pela ribeira onde vivemos e rimos, deambulam pela noite 2 a 3 brasileiras, daquelas de trazer debaixo do braço, desmontáveis, pequeninas e desarticuladas.
A noite está perigosa, mas os dias não estão fáceis também. Permaneço intacto mas a penumbra que me abriga solta gritos de revolta.

Recordo que nunca te vi envelhecer, não envelhecias.
Não te via rugas no pescoço. Apenas um dente que espreitava fora dos outros, pequeno, ligeiramente, o que até dava um ar maroto.
O teu ar maroto.

E no entanto resistias a mim, a tudo o que vinha de mim. O teu corpo endurecia ao meu toque, enquanto o sol apimentava a pele .
Vivi tempos infindos por essa ribeira distante, mares de preocupações.
Nunca resolvemos o problema. Foram ficando janelas abertas, mistos de rebeldia, anseios, afastamentos e pedaços de pecado, o teu e o meu.

Gosto dos dedos das mulheres, finos, elegantes, perfeitos. Os teus eram tudo isso.
Dedos musicais, que falavam e dedilhavam emoções. Os dedos que nos percorrem, que nos revolvem por dentro e por fora e destapam, pondo a nu o pouco que somos.

Os dedos delas como elas. Os teus como os teus. Em mim e por mim, em tempos, no seu tempo.
Viramos anos e estações, a da vida também.

Esta memória que me atraiçoa relembra como que por magia o tempo que tivemos.
Não sei se ainda habitas memórias, se deambulas pela cidade eterna, se o rio ainda te banha os pés, mas foi bom recordar-te, mesmo que por instantes, enquanto a doença me permite espaços temporais.

18 fevereiro, 2008




















Desato os nós dentro de mim, como se fosse desatando as dores, uma a uma.
Vou arrancando os fios, descortinando os sonhos, repaginando os dias com sede de sobrevivência, ciclos que não fecharam e outros fechados pelos fios... os fios tecidos na tensão dos dias e das esperas.

A noite chega apressada, e eu, escrevo num papel brilhante, escritos de duvidas, em risos que não dei, lágrimas perdidas em beijos adoçicados de linguas transversas.

Teu coração conhece os detalhes do meu corpo e quando em contra-luz te conduzo pelas minhas mãos, abro caminhos que anseias conhecer e lanças um verbo latente que me arrepia a pele, e um olhar doce que me chega de mansinho como uma onda gigante... silencioso e devastador.

Sinto-te ancorada no meu corpo, com sete vidas, sete toques, sete cores, de sete beijos em sete aconchegos matinais, como navegador numa Nau de Descobertas.

Enfeitiças como poção mágica, num olhar inebriante e um sorriso que me aquece.
Já te senti em partidas, caravela do meu vento, fios de lágrimas salgadas, levados na corrente das ambiguidades.

Já te senti num aceno de mãos que desatam os nós em corpos blindados de morango, mãos que tocaram no fuso do meu tempo, antes que a chuva me desfaça os passos.

Meu nome é diário antigo, pouco interessante, como fotografias recortadas, papel de bombom, beijo de baton, com laços vermelhos de prazer.

Fazias equilibrio em intenções de Faquir, contracenando numa plateia de desejos, em piruetas mortais no meio de palhaços, agitando verves na boca do leão, enquanto me largas no circo da vida.

Quanto mais me espetas em lanças destemidas, mais te desejo... e mais ensaio frases repetidas, mãos em fogo nos teus seios, intimidades bordadas a dois.

17 fevereiro, 2008













Chove muito, e faz frio cá deste lado.

E vejo-me em revoltas para obedecer a um coração que tem as cores completas em agonia.

Não há palavra que salve a imagem que fica do abraço bom na estação da partida, nem alma que supere o espancamento de letra e maldições dos versos que largaste, da luz que me deixou e do último abraço que me adornou.

Já não trocamos bilhete no embarque, nem revistas na viagem, nem bocas que queriam o meio-dia-em-ponto.

Somos inocentes quando amamos.
E também quando traímos a memória, o desejo e a vontade de saltar a fogueira que nos arde as entranhas.

Pede-me para dançar, e rodopia comigo num copo de caipirinha gelada, enquanto o coração procura o alívio de dias azuis escurecidos.

Ainda tenho o fôlego dos mortos vivos.

Da idade que não abranda numa curva mal calculada na auto-estrada da vida, e do gesto que diz que amo e amo todas as palavras ditas e reditas e enroladas em mantas que me cobrem do frio enquanto te sonho quimera.

Pede-me para dançar e liberta-me desta prisão, grilhões do tempo, lugares e prenúncio de tempos que não sei se vejo, dividido em mil prestações a longo prazo.

Estou cansado como tu, fatigada de mil dias sem dormir e inenarraveis prosas de milhares caracteres.
E do tempo não te falo pela distância e ausência entre nós, tempo entrecortado por imagens vulgares.

Pede-me para dançar e nem que seja por cinquenta segundos tira-me desta vida e transporta-me nos teus passos em ondulantes sensações inebriado no teu perfume.

Como será o contorno da tua boca?

E esse verbo latente que me arrepia a pele sempre que te penso, e os lábios que desejo e os dentes que me brilham no olhar enquanto permaneço sonhador.

Vidas. Sete-vidas–tem-o-gato que te enlaça.
E eu um livro de amor recheado com chave para quem conseguir decifrar os códigos: páginas criptografadas.






Namoram faz anos. Nunca se casaram.
Foram-se juntando às horas, aos dias e vivem juntos desde então.
A relação nunca foi fácil. Desencontros, discussões, diferenças, mas amor tórrido romanceado em ternuras a dobrar.
Brincam no amor e com amor.
Ele chama. Ela ronrona, faz-se amuada, esconde as garras e encolhe-se.
Ele, chega com seus encantos e ela mexe-lhe nos cabelos, passa a língua nos seus braços, entrelaça-se nas pernas, mia como uma gata manhosa e depois enfia as unhas nas suas costas, só para que ele não esqueça quem manda ali.
Ele atiça com sensualidade nas palavras doces e ela toca-lhe lá, onde a poesia deixa marca e em cujo palco encena sussurros e beijos.
Ela dançava-lhe no gosto, e ele tímido, escondia o olhar. Desenham rebeldias na pele que tecem a dois, enquanto se alimentam de húmidas voragens, como entre um sim e um não, um agora ou depois.
Quando as palavras se gastam e o tempo parece infinito, Maria sonha tatuar-se nele.
Ele, por ela, sonharia subir telhados, contemplar luas e fazer serenatas, como a bruxa deseja a alquimia da boca e virgens com sinais por mordiscar.
As almas uniram-se numa só e nada oculta fantasia.
O olhar não precisava de palavras precisas, nem da inconfidência das estrelas.
Os olhos colam-se nas retinas, fazendo de dois, um só, eternamente.

11 fevereiro, 2008













Vivo fragmentado em estilhaços de imagens sem sentido,umas que vão, outras que chegam, aquelas que nunca me abandonam e aqueloutras que raios-partam quero que desapareçam.

Há 4 noites que durmo mal. Dormir por si só, durmo, mas brinco na penumbra do sonho com palavras, imagens, ruídos e rostos indecifráveis.

O horizonte ondulou-se de brisa como um Cristal de Sal.
Chego a olhar através dele mas não vislumbro o fio que teimosamente quero observar.

Procurei seguir a luz do farol como barco perdido, cheiro a sal, impureza da cor ígnea das paixões.

Vou e volto já. Espero chegar rápido, como quero seja rápido encontrar-me nestes escombros em que fiquei.
Liberto-me de ideias, sonhos, quimeras, paixões, desenhos, figuras, socos no estômago, doces na alma e beijos no coração.

Preciso de braços que me aconcheguem.

Que me apertem, que me enrolem, que me enlacem, onde me sinta quente e protegido, como no ventre de uma Mãe.
E num instante, eu próprio solto longos braços de penas que me transportam por espaços desabitados e por si já enlaçam e redobram a atenção sobre um outro, manto protector que me habita.

Procuro verdades em imagens sem sentido.
No voo, no horizonte, no cristal de sal, excertos de filmes repassados.
No inchaço dos meus olhos, da voraz idade que passa sem eu ver.
Espírito jovem e guerreiro, positiva criatura, sem erosões de verdades ou mentiras que me atormentem.

Verdades que podem ser tarefa de uma ou de muitas vidas.

De agora, de outrora, quem sabe?
Verdades de actos concretos ou imaginados, registado em memórias vividas ou recriadas em movimentos de um vai-vem imaginário.

Verdades de cada um que trazem significado ao sentido da vida, mesmo quando esta não tem qualquer sentido.
Verdades subjectivas, que mais não são que paliativos induzidos na memória de cada um.

E eu, fragmentado de luzes que me povoam os sentidos e acendem e apagam na medida exacta do tempo em que vivo.
O nosso tempo.

09 fevereiro, 2008

Palavras Minhas

Correspondendo ao convite dirigido pela Ana Vidal, pede-me esta querida amiga que nomeie 12 palavras de que mais gosto.
Apesar da relativa dificuldade, o entusiasmo é enorme, pois de/e com palavras vivo.
Gosto de brincar com elas, de as mudar de lugar, dar-lhes cor e textura, entusiasmo, alegria e tristeza, entoação, eu sei lá, um sem número de coisas que mexem comigo e comigo vibram.
As razões são de significado, de enquadramento, de as saber colocar e de as sentir.
Muitas mais haverá, mas o desafio das 12 aqui vai…


Pai
Mãe
Filho
Beijo
Água
Sol
Mar
Paixão
Amor
Azul
Luz
pele


Passo o desafio à Teresa, à Rosa, à Maria Av, à Syl, à Charlotte, à Patricia, à Cor do Mar, à Paula, à Teresa Paula Marques, ao Azul, que sei são pessoas de palavra e com palavra.
Obrigado pelo convite e parabéns pela iniciativa, que nada tem de correntes manhosas.

JP