27 fevereiro, 2008

Belle Époque














Já não recordo muita coisa.
Umas porque apago da memória num "delete" permanente, outras porque já não atinjo tempos distantes.
Mas sei que nessa época havia um cão boxer que habitava também o nosso espaço.
Deambulava entre mesas e pernas e recostava-se contra as costas da tua mão para lhe afagares o pelo.

Agora, pela ribeira onde vivemos e rimos, deambulam pela noite 2 a 3 brasileiras, daquelas de trazer debaixo do braço, desmontáveis, pequeninas e desarticuladas.
A noite está perigosa, mas os dias não estão fáceis também. Permaneço intacto mas a penumbra que me abriga solta gritos de revolta.

Recordo que nunca te vi envelhecer, não envelhecias.
Não te via rugas no pescoço. Apenas um dente que espreitava fora dos outros, pequeno, ligeiramente, o que até dava um ar maroto.
O teu ar maroto.

E no entanto resistias a mim, a tudo o que vinha de mim. O teu corpo endurecia ao meu toque, enquanto o sol apimentava a pele .
Vivi tempos infindos por essa ribeira distante, mares de preocupações.
Nunca resolvemos o problema. Foram ficando janelas abertas, mistos de rebeldia, anseios, afastamentos e pedaços de pecado, o teu e o meu.

Gosto dos dedos das mulheres, finos, elegantes, perfeitos. Os teus eram tudo isso.
Dedos musicais, que falavam e dedilhavam emoções. Os dedos que nos percorrem, que nos revolvem por dentro e por fora e destapam, pondo a nu o pouco que somos.

Os dedos delas como elas. Os teus como os teus. Em mim e por mim, em tempos, no seu tempo.
Viramos anos e estações, a da vida também.

Esta memória que me atraiçoa relembra como que por magia o tempo que tivemos.
Não sei se ainda habitas memórias, se deambulas pela cidade eterna, se o rio ainda te banha os pés, mas foi bom recordar-te, mesmo que por instantes, enquanto a doença me permite espaços temporais.

3 comentários:

Paula disse...

Tão lindo este texto, de uma beleza!...
Também eu permaneço intacta mas a penumbra que me abriga solta gritos de revolta!

Vóny Ferreira disse...

É enternecedor este texto de uma beleza surpreendente.
Apetece-nos ao lê-lo mergulhar no mais profundo de nós mesmo e vasculhar todo o lodo que nos impede de ver mais além...
Vóny Ferreira

http://vony-ferreira.blogspot.com/

av disse...

Escreves bem, Pedro. É um prazer ler-te.
Bjs