28 fevereiro, 2008













Nós os outros, os restantes, os demais,
pobres criaturas adormecidas pela vida
Deambulamos na textura aquosa e impura da cidade
Enquanto o negro sobre ela se abate

Nós, os impuros, os outros,
aqueloutros, os tais
abrigamos o frio em jornais remexidos
Como luta diária em caixotes repelentes
Aninhados no vazio dos cantos
que a pedra cala

Nós, famintos,
gente sem nome nem destino,
Ausentes permanentes, andarilhos de um tempo intemporal
Recolhidos com redes nefastas de peixe miúdo

Nós que também sonhamos
com a intempérie de papeis gastos
Numa metáfora de dias vazios e a essência desconexa de dias plenos
Que não vivemos
Por muros que se erguem em redor

Assim, caminhamos no esquecimento.
O nosso, o teu, o dos outros
Por entre túneis, avenidas esventradas
entre a luz baça da cidade

1 comentário:

Paula disse...

O pessimismo anda no ar.
Todos nós temos um pouco de esquecidos, de vazios e de famintos, nem que seja famintos de afectos, numa sociedade que nos limita.