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A mostrar mensagens de Março, 2008

My beloved Clementine

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Vejo-os diariamente, arrastando-se por leituras de jornais em cafés com vitrinas largas.

Ela deambula pelas leituras com mímica nos lábios, sublinhando com o indicador a frase que lhe escapa jornal fora.

Roupa de bom corte, cabelo arranjado e pintura sóbria. Expressão carregada de dias invernosos.

Ele com um sorriso simpático, calmo e de aspecto ternurento.

Fala com ela e toca-lhe com frequência nas mãos, na face e saboreia cada instante.

Ela agita-se, esquiva-se dos toques como se a despenteassem ou tirassem o brilho das roupas pintadas por fora e caiadas por dentro.

Os dias passam e com eles os meses e anos.

Ela não dá pelo envelhecer do marido, ele vai tornando soltos os dias e leves as correntes atmosféricas resfriadas da mulher.

Ele perde-se entre a leitura, a atenção à mulher e prolongados reflexos na vidraça do café.

Suspira por entre letras e afagos, desdéns e desditos, afastamentos obtusos no quadrado da vida.

Vivem entre labirintos como se já não se encontrassem.

Sabem-se de cor e …
Vejo-te no limiar de qualquer coisa, ou qualquer coisa no teu limiar.

Não estás pronta para coisa nenhuma ou quase nada.

Está frio e tens o coração desengonçado e a alma gelada.

Arrepiaste dos ruídos à tua volta, as buzinas, os gritos, algazarras de feira que retinem dentro de ti.

Ainda não acordaste e apetece-te adormecer de novo.
Queres fugir.
Não de ninguém em especial, eu sei, mas de ti em geral.

Estás cansada de ti, farta de ti, absolutamente entediada de ti.

Vislumbro-te numa imagem de jovem sentada no banco da estação, enquanto o comboio se afasta lentamente. Perdeste-o mais uma vez.

O comboio ou a carruagem da vida.

Mas sabemos que regressa, mais tarde ou mais cedo, para recuperar quem se atrasou.

Pode ser um tempo longo, mas o suficiente para te inteirares de ti, interiormente.
Mas sorri. Sorri do inusitado e das partidas que teimas em pregar a ti própria.

Não, não são os outros, nem a vida, nem o azar, nem a bruxa do quarto-direito.

És apenas tu.

Guardas silêncios que te atormentam e va…

Pelo canto do olho...!

Tens nós atados de pontas escondidas.

Olhas para o espelho e vês rugas que te recortam a pele, os brancos que tingem o cabelo e o tempo que passa sem o veres.

Agradas-lhe. Saltas e mexes, pulas e gritas, soltas ecos roucos e tudo em paz, para que tudo fique bem.

Crescem os filhos e envelheces no acampamento da vida deles.

Entretanto, pegaste-lhe na mão e tentaste saídas a dois, jantares a dois, um namoro mais subtil, uma corridinha aconchegante e diferente, o toque na coxa no elevador, o joelho no carro, meia de copos para te soltar a vida, meio escondido para acicatar a relação.

O hábito, o cansaço, a monotonia, a certeza do tempo no tempo que se tem.

Os filhos crescidos passam de relance pelo canto do olho e procuras tempo perdido.

A viagem, namoro em hotel de charme com velas reluzentes, mãos que entrelaçam no aconchego do avião, o apimentar da relação.

Diversificas no sexo com estranha desenvoltura.

Estranham-te essa desenvoltura. Como estranhas essa postura da negação desenvolta em flore…

BEIJOS PELA MANHÃ.

Lá longe, muito longe, nos caminhos de alguém,
Um barco navega a sul,
Num rumo de amarras partidas feito em lágrimas de sal.

Miragens e gritos ancestrais de náufragos com promessas desfeitas.
Voragens de tempo que me cega as manhãs submersas em tons pastel

Desperto do sonho com cheiro a maçã
Que me entra janela dentro como o sol na madrugada
Enquanto me decifro entre sonhos e nuvens de caminho esponjoso
Que moldam o meu corpo ao prazer dos teus gestos
Como quadros que pinto com meus dedos feitos de pincel

Faço esboços de mim em partituras sem ritmo nem som,
E esboço a preto e branco palavras, frases, ideogramas
Como se a ausência em mim fosse um espaço natural.

Sonho lábios ardentes de mel em tempos agrestes de sonhos que não vislumbro
E folheio livros de páginas amarelecidas pelo tempo,
com pétalas de flores de ilusões passageiras e um pó de lembranças que se espalha pelo ar na direcção do infinito.

Exponho-te a nudez da minha alma e os fios ténues do coração que esboça sorrisos qu…
Não te quero em mim, envolta em mim, agarrada a mim.

Não te imagino, porque nada te poderei dar, senão a mágoa de me veres velho e exausto.

Surgiste-me quimera, como areia aos náufragos, terra aos desprotegidos e fé aos desesperados.

Guardo em mim o teu olhar doce, o meu gesto no teu gesto e em minha a tua voz.

Perdia-me na escuridão das tuas palavras e apenas com a luz do teu olhar reencontrava caminhos perdidos.

Quando partir, vou sentir a essência do abandono desordenado, e aguardar que os teus dedos enlacem os meus em névoa suspensa no espaço.

O horizonte espreita-me no instante em que sonho meu corpo debruçado sobre o sulco dos teus lábios de vermelho pintado e prazer saciado.

Colho plantas que fazes nascer por mim, nos nossos segredos quentes, de bocas molhadas num desejo sem fim.

Esvoaçam presenças estranhas que anseiam despojos dos meus sorrisos em gritos abafados que sufocam os meus.

São ecos sem voz, miragens de náufragos em promessas desfeitas, na trapaça de um destino mais cruel …
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Estou confuso há quase sete dias, uma semana.
Sete dias, uma semana, que se foram tornando em muitos minutos e horas.
Confuso e atónito. Sem saber se beijava, olhava apenas ou falava.
Era um primeiro encontro com gosto a primeiro encontro.
Bem aprumadinho, as palavras e as frases no sítio certo, a garganta seca, o local de encontro.
Estava sem saber se pediria um chá se café. Talvez chá, de ervas doces, mais tranquilizante.
Sentei-me e esperei.
Primeiro encontro. Estava calor, suava das mãos, o cabelo pegava.
A espera.
O amor não espera.
Até podia ser um caso, não fosse o desamor.

Não sei a quem o tempo obedece, mas não é a mim.
Já barafustei, reclamei, fiz pedidos, requerimentos, atrasei e adiantei relógios, e nada.
Tive momentos em que chegava horas adiantado, outros… dias, anos atrasado.

Chove imenso e tenho desejo de ti. Janeiro faz verso com água, mas não rima.
Anoitece rápido, e eu em busca do amor calmo e sem remorsos.

Sinto-me abstracto, em estado latente de apavoramento.
Já me senti mais …
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Já não tens poesia dentro de ti.

Perdura apenas dentro do ventre opaco e doce, que te vai aliviando e adornando a alma, quando o corpo te abandona sem fulgores.

Faço então de encantos minhas dores e de murmúrios a boca, enquanto o peito sangra e sente por perto a morte.

Escondo-me dela, projecto-me no espaço e nego-lhe a sorte.

E desses faiscantes olhos azuis, que cedo me toldaram o olhar e a sensatez em frémitos de amor e paz, sorvendo gelados íntimos em taças de cristal.

Fala-se que a Lua não tem luz própria, mas carrega destinos, leva-os conforme incumbência do vento e aquece pretextos e passos. Os passos da noite na alvorada e desta num amanhecer espreguiçado à beira mar.

Sei que a saudade é um cais de pedra onde os encontros não se fazem, como as ondas que voltam sete após sete.

Preciso ter de novo os manuscritos dos nossos pecados originais.
Doces palavras, carregadas de sais, incisivas, mordazes.

Desejo que me tomes nos braços e me reescrevas caminhos, para que eu, numa letra em desali…
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Comecei mal o dia.
Estava atrasado.

Um banho apressado, uma meia-barba desfeita, faço a estrada dentro dos limites mais um.
Chego à portagem com o cartão multibanco e o Ticket, tudo preparadinho em antecipação. Aguardo que o carro da frente avance.

A dama da viatura, parou, desligou o motor, olhou-se no retrovisor “à La Mode”, procurou a carteira, sacudiu as moedas, vibrou o Ticket no ar, olhou e sorriu para a funcionária. Esta com ar de enfado sorriu também.

A dama resolveu entregar o bilhete mais os trocos em mão cheia. Recibo na mão, troco guardado com esmero, volta a meter a carteira na bolsa, colocando-a no banco do lado, e uma fila enorme atrás de mim.
Liga a ignição, arranca, esqueceu o travão de mão.
Destrava o carro e ainda tem tempo para um ultimo olhar ao espelho retrovisor vendo o seu perfeito "glamour".

Depois de almoço estava com uma valente enxaqueca(costumo dizer que é sempre mais enxa que queca... vá-se lá saber porquê).

Fui à Farmácia. Sempre gostei de Farmácias.
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Estive recentemente no Porto. No meu Porto.
Encontrei-o triste, melancólico, velho e pobre.

A minha relação com a cidade foi sempre estranha.
Se por um lado a adoro e sinto-lhe a tristeza nas veias, por outro tento distanciar-me o mais que posso para não a ver sofrer.

Vislumbro muros velhos quase desfeitos pelas raízes e trepadeiras que cobrem parte das casas.
Ainda tenho comigo o cheiro a laranjas do quintal e a maresia da Foz.
Revi mendigos que cirandam perto do “kapa Negra” numa obsessiva e triturante procura de escapatórias para a “branquinha”.

Um triste Porto vestido de sombras nos meus degredos nocturnos, que me acolheu meninice e juventude.
O Porto do “tostãozinho p´ro S. João” e das noites gloriosas do dragão.

Um Porto com esboço a preto e branco, longe no horizonte das memórias que me trazem esta cor tão cinzenta, num regresso a lugares que julgava esquecidos numa penumbra militante e onde o Universo pode ser visto num céu de meia-noite e eu posso oferecer as constelações todas de um…