07 março, 2008













Comecei mal o dia.
Estava atrasado.

Um banho apressado, uma meia-barba desfeita, faço a estrada dentro dos limites mais um.
Chego à portagem com o cartão multibanco e o Ticket, tudo preparadinho em antecipação. Aguardo que o carro da frente avance.

A dama da viatura, parou, desligou o motor, olhou-se no retrovisor “à La Mode”, procurou a carteira, sacudiu as moedas, vibrou o Ticket no ar, olhou e sorriu para a funcionária. Esta com ar de enfado sorriu também.

A dama resolveu entregar o bilhete mais os trocos em mão cheia. Recibo na mão, troco guardado com esmero, volta a meter a carteira na bolsa, colocando-a no banco do lado, e uma fila enorme atrás de mim.
Liga a ignição, arranca, esqueceu o travão de mão.
Destrava o carro e ainda tem tempo para um ultimo olhar ao espelho retrovisor vendo o seu perfeito "glamour".

Depois de almoço estava com uma valente enxaqueca(costumo dizer que é sempre mais enxa que queca... vá-se lá saber porquê).

Fui à Farmácia. Sempre gostei de Farmácias.
Das novas com os computadores que dando um “enter” nos atiram o medicamento por uns sopradores de vento, numa espiral de fórmula um, mas também das velhas com um “PH” de Pharmácia, mais o Senhor António–dos–óculos-redondos e lentes de fundo de garrafa, o cheiro e o branco imaculado das batas, mais a Dra. Anacleta-pasta colgate, bonitinha com uma falha na ranhura do meio dos dentes de cima.

Adorava as balanças de moeda na ranhura contra peso e medida, o “x-acto” que golpeia embalagens e esquarteja códigos de barras.

A senhora que compra pensos "prós-calos" e o cavalheiro que disfarçadamente amacia o bigode e diz entre dentes:... -”uma caixinha de coisos...”...”sim... preservati.... hum hum...pois”.

Nesse instante entra uma “Gioconda” descapotável, que procura um creme “x” que estica a pele, encolhe a barriga, puxa o queixo, levanta as pálpebras, e todos se viram e todos se calam.

O cavalheiro ajeita-se na fatiota aprumada e a senhora dos calos fala das doenças que a consomem de três gerações a esta parte.

Sempre gostei de farmácias. Daquelas com os frascos de bicarbonato em cima do balcão mesmo ao lado dos rebuçados peitorais, onde no corredor se aviam injecções como colheradas de mel.

Saí muito mais aliviado.
Cheguei a casa e acabei de ler um livro.
Adoro acabá-los. Adoro a parte do meio também, mas folhear quando os compro, devorar as entranhas, saborear frases inteiras e complexas e num salto chegar ao fim.

Fui chamado numa emergência à cozinha porque estava atrasado.

Como sempre, atrasado.

Já tentei dominar os ponteiros do relógio, mas eles não travam, não recuam, andam sempre em frente. Dizem que Graças–a-Deus, mas não sei se Deus tem mesmo alguma coisa a ver com isto.

Descasquei umas batatas e abri o pacote de natas. Sujei as calças.

Tenho um desaguisado permanente com as natas. Ou porque engordam, ou porque sujam, mas não nos entendemos, constato que não.

Ouvi ralhar, que sou desastrado, que não vejo o que faço, que tenho de prestar atenção.

Zanguei-me.

Peguei na fritadeira, mandei-lhe com o óleo, mais umas batatas, um bife com ovo encavalitado quase a cair da sela, mais umas salsichas frescas, tudo bem apaladado.
Zanguei-me mesmo.
O lixo já não o despejei, nem desliguei o gás nem fechei a porta.
Bem que o dia tinha começado mal.

Amanhã levanto-me mais cedo não vá encontrar a "Dama de Copas" pelo caminho e ainda me rifo todo.

2 comentários:

tcl disse...

e que tal a via verde? não? pelo menos essa parte do dia tinha sido melhor!

antonia disse...

todos temos os "nossos dias"...
adoro teu jeito de escrever...
me faz sentir, é muito bom...
que amanhã seja um dia melhor prá todo mundo.