05 março, 2008










Estive recentemente no Porto. No meu Porto.
Encontrei-o triste, melancólico, velho e pobre.

A minha relação com a cidade foi sempre estranha.
Se por um lado a adoro e sinto-lhe a tristeza nas veias, por outro tento distanciar-me o mais que posso para não a ver sofrer.

Vislumbro muros velhos quase desfeitos pelas raízes e trepadeiras que cobrem parte das casas.
Ainda tenho comigo o cheiro a laranjas do quintal e a maresia da Foz.
Revi mendigos que cirandam perto do “kapa Negra” numa obsessiva e triturante procura de escapatórias para a “branquinha”.

Um triste Porto vestido de sombras nos meus degredos nocturnos, que me acolheu meninice e juventude.
O Porto do “tostãozinho p´ro S. João” e das noites gloriosas do dragão.

Um Porto com esboço a preto e branco, longe no horizonte das memórias que me trazem esta cor tão cinzenta, num regresso a lugares que julgava esquecidos numa penumbra militante e onde o Universo pode ser visto num céu de meia-noite e eu posso oferecer as constelações todas de uma vez.

E é como esta cidade que me entristece, que faço de mim camaleão ficando melancólico ao crepúsculo.

Arrasto-me corpo e mente, numa tristeza mansa, que não consigo explicar.

E é com este Porto saudoso de lembranças familiares e de amigos irrecuperáveis que me vejo envolvido em escritos e em sonhos supérfluos.

3 comentários:

ariana luna disse...

Existem cores escondidas neste nosso Porto que talvez já não te lembres.

Mas se olhares bem [com os olhos do coração], talvez lhe sintas a mansidão nos gestos demorados nas manhãs de nevoeiro envolventes [como nenhumas outras], os cheiros misturados das gentes e dos jardins, os sorrisos tímidos e as mãos sempre em dádiva.

av disse...

Um texto lindo e melancólico, que devia ser lido ao som do Porto Sentido, do Rui Veloso.
Beijinhos

PATIVIEGAS disse...

Triste mas sempre tão 'PORTO'e mesmo triste como tu o descreves talvez pela sua cor tão parisiense não consegues tu nem ninguém que por cá passa ou mora deixar de sentir a saudade eterna desta tão maravilhosa e envolvente cidade.
Parece triste mas nem sempre que nos vestimos de negro é porque estamos tristes, muitas vezes é para nos sentir-mos elegantes e ou pura e simplesmente porque esta cor somos 'nós' a nossa alma, não necessáriamente triste até porque o preto sempre se mistura com o branco...:-)
Lindo o 'nosso' Porto

Bjinhos da tua sobrinha Nortenha