08 março, 2008












Já não tens poesia dentro de ti.

Perdura apenas dentro do ventre opaco e doce, que te vai aliviando e adornando a alma, quando o corpo te abandona sem fulgores.

Faço então de encantos minhas dores e de murmúrios a boca, enquanto o peito sangra e sente por perto a morte.

Escondo-me dela, projecto-me no espaço e nego-lhe a sorte.

E desses faiscantes olhos azuis, que cedo me toldaram o olhar e a sensatez em frémitos de amor e paz, sorvendo gelados íntimos em taças de cristal.

Fala-se que a Lua não tem luz própria, mas carrega destinos, leva-os conforme incumbência do vento e aquece pretextos e passos. Os passos da noite na alvorada e desta num amanhecer espreguiçado à beira mar.

Sei que a saudade é um cais de pedra onde os encontros não se fazem, como as ondas que voltam sete após sete.

Preciso ter de novo os manuscritos dos nossos pecados originais.
Doces palavras, carregadas de sais, incisivas, mordazes.

Desejo que me tomes nos braços e me reescrevas caminhos, para que eu, numa letra em desalinho, estreite distâncias e alcance em qualquer tempo e espaço temporal, o verbo e a poesia numa prosa única e definitiva.

1 comentário:

antonia disse...

Pedro, teus textos me devolvem a emoção que julgada perdida.
Eu amo a lua e saber que ela "carrega destinos" me fez bem!

Ótima semana prá vc