31 março, 2008

My beloved Clementine














Vejo-os diariamente, arrastando-se por leituras de jornais em cafés com vitrinas largas.

Ela deambula pelas leituras com mímica nos lábios, sublinhando com o indicador a frase que lhe escapa jornal fora.

Roupa de bom corte, cabelo arranjado e pintura sóbria. Expressão carregada de dias invernosos.

Ele com um sorriso simpático, calmo e de aspecto ternurento.

Fala com ela e toca-lhe com frequência nas mãos, na face e saboreia cada instante.

Ela agita-se, esquiva-se dos toques como se a despenteassem ou tirassem o brilho das roupas pintadas por fora e caiadas por dentro.

Os dias passam e com eles os meses e anos.

Ela não dá pelo envelhecer do marido, ele vai tornando soltos os dias e leves as correntes atmosféricas resfriadas da mulher.

Ele perde-se entre a leitura, a atenção à mulher e prolongados reflexos na vidraça do café.

Suspira por entre letras e afagos, desdéns e desditos, afastamentos obtusos no quadrado da vida.

Vivem entre labirintos como se já não se encontrassem.

Sabem-se de cor e lêem-se nas entrelinhas.

Ele ainda apaixonado, pronto para uma valsa mesclada de alecrim e amores-perfeitos, ela, mais circunspecta, entre o chá das cinco e a telenovela das nove.

Vivem sem se terem e têm-se sem se verem.

Ele fraqueja por amor e dedicação, ela dedilha doenças em imersão.

Até ao dia em que sorrateiramente a “negritude” maliciosa e sorrateira lhes bata à porta…!

1 comentário:

antonia disse...

"Vivem sem se terem e têm-se sem se verem"...
Todos os casais deviam ler esta tua frase, antes da maldita negritude que nos deixa apenas as lágrimas, e depois, nem elas...