15 março, 2008






Não te quero em mim, envolta em mim, agarrada a mim.

Não te imagino, porque nada te poderei dar, senão a mágoa de me veres velho e exausto.

Surgiste-me quimera, como areia aos náufragos, terra aos desprotegidos e fé aos desesperados.

Guardo em mim o teu olhar doce, o meu gesto no teu gesto e em minha a tua voz.

Perdia-me na escuridão das tuas palavras e apenas com a luz do teu olhar reencontrava caminhos perdidos.

Quando partir, vou sentir a essência do abandono desordenado, e aguardar que os teus dedos enlacem os meus em névoa suspensa no espaço.

O horizonte espreita-me no instante em que sonho meu corpo debruçado sobre o sulco dos teus lábios de vermelho pintado e prazer saciado.

Colho plantas que fazes nascer por mim, nos nossos segredos quentes, de bocas molhadas num desejo sem fim.

Esvoaçam presenças estranhas que anseiam despojos dos meus sorrisos em gritos abafados que sufocam os meus.

São ecos sem voz, miragens de náufragos em promessas desfeitas, na trapaça de um destino mais cruel que a morte, lá longe...tão longe como a viagem de um velho
contador de historias...

3 comentários:

olhos grandes disse...

excelente escolha musical para ilustrar o teu belíssimo texto

Paula disse...

Realmente o começo do texto é interessante.
Uma boa forma de começar um poema...

"Não te quero em mim, assim alheio!
Quero que voes para longe
Que navegues em mares de liberdade"
... ...

lamia disse...

Num mundo sensorial, o longe fica sempre já ali. Podemos esquecer-nos dos lugares, das pessoas, até das coisas mais importantes, mas nunca de uma sensação.