20 março, 2008

Pelo canto do olho...!




Tens nós atados de pontas escondidas.

Olhas para o espelho e vês rugas que te recortam a pele, os brancos que tingem o cabelo e o tempo que passa sem o veres.

Agradas-lhe. Saltas e mexes, pulas e gritas, soltas ecos roucos e tudo em paz, para que tudo fique bem.

Crescem os filhos e envelheces no acampamento da vida deles.

Entretanto, pegaste-lhe na mão e tentaste saídas a dois, jantares a dois, um namoro mais subtil, uma corridinha aconchegante e diferente, o toque na coxa no elevador, o joelho no carro, meia de copos para te soltar a vida, meio escondido para acicatar a relação.

O hábito, o cansaço, a monotonia, a certeza do tempo no tempo que se tem.

Os filhos crescidos passam de relance pelo canto do olho e procuras tempo perdido.

A viagem, namoro em hotel de charme com velas reluzentes, mãos que entrelaçam no aconchego do avião, o apimentar da relação.

Diversificas no sexo com estranha desenvoltura.

Estranham-te essa desenvoltura. Como estranhas essa postura da negação desenvolta em flores e musicas madrigais.

Panóplias de frases, estudos e diálogos cortantes, arfantes desejos em reforço da relação afectiva.

Ontem de uma maneira, amanhã outra forma e hoje porque cansa, amanhã porque trabalho, depois porque sim, entretanto porque não, e solidificas a trivialidade.

Bebes um café, passeias na avenida, abanas-te num concerto, festejas alegrias, choras tristezas e o tempo passa.

Estreitas os laços ou desenlaças os nós.
Serás avançado, liberal, retrógrado, sistemático, diferente, sexy, altruísta, solidário?
Bom? Mau? Então?
... Pois… tens dificuldade no reconhecimento…

…e olhas o tempo pelo canto do olho e não vês nem revês, nem vislumbras atmosferas circundantes de cores garridas ou arco-íris que te façam vibrar.

Como no casal, também os amigos, conhecidos, colegas que vão passando pela nossa vida, vão sendo "arrumadinhos" em cantos e gavetas consoante a solidez desses laços.

Depois, é o tempo, o nosso e o deles, mais a envolvência e os interesses comuns ou não, em sincronia de pensamento ou ideais de vivência e a tenacidade de ir criando sustentação nessa relação de amizade.

Tens então aquilo a que se chama ombro empático.

Esse ombro é aquele, que ri, chora, refila, discute, chateia, brinca, absorve, que não tem inveja, nem vergonha, nem segundas intenções.

Aquele ombro empático que nos chama de volta à terra, que amiúde nos "puxa as orelhas" ou que canta e disparata connosco como duas imberbes crianças.

São ombros empáticos escolhidos pelos "olhos da alma".

E passa o tempo e com ele os anos e com estes desenganos, num ápice...
... pelo canto do olho...|

4 comentários:

Acordomar disse...

Ola Jose
... nem sabes o quanto me soube bem ler-te hoje, nem sabes ...!

Tem uma Boa Pascoa com tua familia
beijinhos*

Alda disse...

Parabéns pelo blog!
Belos textos e boa musica.
Adorei...

Paula disse...

É bom ter ombros empáticos!
E é bom manter-se um amor ao longo do tempo! E ver os filhos crescer!
Só quem perde um amor desses é que lhe pode dar valor! É como encontrar e manter a harmonia no caos da existência humana!

antonia disse...

"São ombros empáticos escolhidos pelos "olhos da alma"...
Estou viciada nos teus textos...e quisera ter mais tempo para lê-los.
bom findi...