29 março, 2008



Vejo-te no limiar de qualquer coisa, ou qualquer coisa no teu limiar.

Não estás pronta para coisa nenhuma ou quase nada.

Está frio e tens o coração desengonçado e a alma gelada.

Arrepiaste dos ruídos à tua volta, as buzinas, os gritos, algazarras de feira que retinem dentro de ti.

Ainda não acordaste e apetece-te adormecer de novo.
Queres fugir.
Não de ninguém em especial, eu sei, mas de ti em geral.

Estás cansada de ti, farta de ti, absolutamente entediada de ti.

Vislumbro-te numa imagem de jovem sentada no banco da estação, enquanto o comboio se afasta lentamente. Perdeste-o mais uma vez.

O comboio ou a carruagem da vida.

Mas sabemos que regressa, mais tarde ou mais cedo, para recuperar quem se atrasou.

Pode ser um tempo longo, mas o suficiente para te inteirares de ti, interiormente.
Mas sorri. Sorri do inusitado e das partidas que teimas em pregar a ti própria.

Não, não são os outros, nem a vida, nem o azar, nem a bruxa do quarto-direito.

És apenas tu.

Guardas silêncios que te atormentam e vais esculpindo sentimentos no interior, por vezes muros preenchidos com arame farpado, inexpugnável, inacessível.

Por vezes aproximo-me mas estás naqueles momentos em que os dias não têm inicio e as noites não têm fim.

Deixei-te no correio, livro amarelecido pelo tempo com excertos de frases que se acomodam entre nós dois.

Enviei-te flores, chocolates, arco-íris pintados com pautas de músico em sustenido num “dó-maior”.

E aguardo por um tempo incontável,
mergulhado em sonhos como momentos mágicos de nós.

3 comentários:

Paula disse...

Temos mesmo que ser nós a alterar a perspectiva do mundo e das relações humanas, já que não o podemos transformar totalmente e adapatar a nós!
Há quem defenda que é no deixar fluir dos sentimentos que está o segredo da harmonia.

Anónimo disse...

Vejo-te a partir e a chegar.
Cansado do cansaço que teimas em despertar.
Vejo-te a acordar mas apetece-te adormecer de novo.
Estás farto de ti, no limiar da fronteira entre o chegar, o partir e o ficar.

Acabas por sorrir.
Sorris do inusitado, das partidas que pregas a ti próprio.
Da música que fazes carregada de sustenidos e bemóis.
Acabas por guardar silêncios que te atormentam e terminas por esculpir muros.
Muros de papel com arame farpado.

Vejo-te a chegar e a partir.
Vejo-te a ficar...


Lu

antonia disse...

Entediada de mim...
vc conseguiu mais uma vez...
Cada texto teu é como um desafio, eu penso: este não vou gostar e aí, lá está uma palavra, uma frase que me esbofeteia... e me obriga a admitir... eu desejo imensamente que a carruagem da vida pare a minha frente, prá que eu possa embarcar e tentar de novo ser feliz.