10 abril, 2008

Carta dele... na guerra...!












Abro as cartas meu amor.
Umas atrás das outras.

Trago-as perto de mim, junto ao coração.

A tua fotografia já não tem cor, como esta guerra que nos distancia cada vez mais.

Já passou o Outono, o capim perdeu a cor, a chuva quente de Angola atordoa-me
e as balas assobiam cada vez mais perto.

"Chego-te" a mim na ausência de ti, e releio-te para não me perder.

As folhas amarelecidas e bem dobradas das cartas, a tua foto.
Caso morra elas morrem comigo, e tu sabes.

Nunca mais são onze horas deste sábado, a ansiedade da espera e a rotina nas voltas do dia.

Abro cada uma como se fosse a ultima, com a sofreguidão do amante quando os corpos se colam num rodopio sem tempo.

Abro-as com os dentes, uma, depois outra, para voltar a sentir cada palavra tua.
Fico em furia comigo.

Em furia com cada coisa que me olha neste metro e meio quadrado de tenda, num mato sem fim.

E embrenho-me de novo nesta guerra que me trouxe sem esperança, e recordações fechadas num tecido tosco, verde, para que me confunda com o espaço, sem ele.

1 comentário:

antonia disse...

Pedro
Teus textos estão me ajudando a encontrar respostas para as perguntas que não tenho coragem de fazer...