22 abril, 2008

Nova carta dele... na guerra...






Olá.
Recebi a tua já esperada carta... mas não sei como a ler.
Aliás, já nem sei … se te sei ler.

O tempo passa e repassa e já não sei o que fazer.
Ontem um Jeep pisou uma mina, não ficou ninguém.
Eu também já não sei se estou, ou se alguma vez estarei.

Um lápis azul atravessou a carta que o meu Pai me enviou. Já não é a primeira que o regime e a guerra cortam.

Agora, a única coisa que tenho por certo é que, após esta carta, deixarei de pensar em ti.
Deixarei de aguardar por mais uma carta. Por aquela que um dia se tornará órfã de mim…
Aqui, nestas páginas, repousarão as minhas memórias de ti. Fechadas em papel, coladas com a língua que te beijava e que já nem sabor possui.

Já não sou eu, o tipo que um dia te abordou no baile. O nosso baile da espiga.
Eu, tu e o Zé-Tó. Também nada sei do Zé-Tó, nem das cartas dos meus Pais, que a Pide não deixa passar, nem o Alferes Fernandes as entrega sem lhe passar a “unhaca” crescida do dedo mindinho.

Passo noites em branco e já não tenho memória.
Aqui os dias passam secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e hortelã,
e as mulheres não cheiram como as tuas cartas de alfazema.

Bailas nos meus sonhos como um sorriso que plantaste para sempre no meu rosto, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas, a tua pele, os lábios reluzentes.

Sempre soube que eras a mulher da minha vida, mas nós não mandamos no destino e já vários tombaram ao meu lado.
Já não sou eu, como te apercebes... e jamais te faria feliz.
Já sinto o vazio de ti que se alastra logo acima do diafragma comprimindo pulmões
costelas e coração.

Jamais te esquecerei, aconteça o que acontecer.
Teu para sempre

2 comentários:

antonia disse...

Este me fez chorar...
"Já sinto o vazio de ti que se alastra logo acima do diafragma comprimindo pulmões, costelas e coração"
Quem vc perdeu para descrever tão bem este vazio?

ariana luna disse...

Se fosse verdade não seria tão sentido.

Um beijo no teu coração