11 abril, 2008

Resposta dela...














Olá Amor.
Tenho medo. Medo por ti e por nós.

As notícias não ajudam na distância.
Sabemos que onde estás, é lindo, tem sol e mar e gente feliz com lágrimas, mas uma guerra tem a capacidade de destruir corações e de esquartejar futuros.

Sinto-me triste com a tua ausência. Mas dispo-me destas roupas de cinza e visto as coloridas que ainda cheiram a ti. Ainda te sinto a pele a percorrer-me, gulosa, inebriante, cheirosa. Fico nua sem ti, despida de ti.

Quero renascer contigo a meu lado. Numa chuva que irrompe pelo corpo e tinge o rosto com gotículas transparentes.

Abro os olhos e inalo o cheiro a terra. Não é pobre esta terra que piso. É rica de humildade nos rostos que revejo, onde me falta o teu.

Trago ainda os cheiros e as palavras de todas as tardes que passamos juntos e as recordações fechadas a sete chaves para não desesperar.

Já lá vai muito tempo, amor.

Tempo de quimeras, de graças e desgraças.

Estamos em 1968 e só regressas em 70…. Maldita guerra que nos dilacera o peito e seca as lágrimas há muito choradas.

Tenho medo de falhar por ti. Medo do regresso, da diferença, dos anos, das balas, das minas, medo de não ser mais a mesma. Medo de me tornar distante, irreal, inquieta, medo de estar gasta pelo tempo, ou quem sabe também partir, sem saber se regresso, ou para quê.

Tenho o cozido de espargos que arrefece e eu que acordo em sobressalto, alagada em suores, porque mais um tiro, mais uma bomba, mais mortes e cadáveres nessa guerra sem princípio nem fim.

E já são tantas as cartas que te escrevo e tantos os dias e os meses e anos sem te ver. Um cheiro a queimado, a pólvora seca, e as cartas muitas, tantas com poemas, fotos, queixumes, amores atados, versos coxos e uma letra tremida e miudinha como eu, a tua namorada de sempre.

Eu que te aguardo como guardo o desejo, de que me aqueças o corpo e o coração, perdido nas vulgaridades dos dias.

Cartas que aperto contra mim num sufoco de abandono e a ultima sempre colocada debaixo da almofada que repousa por baixo de mim… quem sabe num até já.

3 comentários:

Paula disse...

São cartas verídicas? Parecem, tal é a força que transmitem!

Pedro Viegas disse...

São veridicas porque são minhas... (rs).

São supostas cartas de guerra, da guerra colonial.

Obg

JP

ariana luna disse...

Tenho tantas dessas dos meus pais!...
São um tesouro, um mimo, um privilégio.