06 abril, 2008



Vives um dá e leva vertiginoso, interminável, que substitui os gestos e as palavras que não exprimes nem dizes.

Vives na cadência do emprego, no limbo dos problemas dos outros e no limiar dos teus.

Saltas da ponta da corda para a corda na ponta num estalar de dedos, não favorecendo imaginativas histórias, diálogos divertidos ou contos anedóticos, dado o “tom sério” com que te encaras e à tua vida.

Não exprimes o que sentes. Vês por outros, ouves de alguém, e tens a língua amordaçada por pedaços de papel colorido de emoções adormecidas.

Um dia esperarás qual sentinela pela “negritude” que sorrateira e maliciosamente intrometida, entrará sem pedir licença, e sem voz, alcançando com a jubilosa elegância dos seus tentáculos a tua presença.

“Ela” olha-nos por cantos e recantos, e quando menos esperas, vê-la passar levando a tiracolo algo teu.

Vives um dá e leva vertiginoso e esqueces-te de ti.

Falas como andas num ritmo cadenciado e que adormece a alma,
num corpo esbelto de mulher, uma medida exacta que exaspera a carne e semeia fogueiras a cada passagem.

Tens percursos de alma em mãos repletas de emoção.

Toque real de mundos invisíveis, um gesto de seda, um corpo e alma e cérebro em delicadeza subtil como um despertar.

Uma nuance de gestos e ternura com cores de fogo em beijos quentes e sobrepostos.

Por isso vive e revive, corre e exala o perfume de cada flor que pisares, em cada gesto faz uma estrofe, em cada beijo alcança os segredos mais profundos da tua alma.

Faz por ti como o tempo fará de nós, encontros e desencontros.

Mas procura-te, a Norte com vento a Sul do Sol, mas nem a Este nem Oeste de mim, que finjo ver-te e perco-me de ti.

Volta, mas volta completa.

7 comentários:

olhos grandes disse...

Escondida dentro de mim, com medo de me descobrir para não me perder de novo, espero que alguém me encontre longe dos pontos cardeais. Aqui.

Paula disse...

Um texto encantador!
A "negritude" é a morte em si ou um morrendo aos poucos em vida?
Porquê sempre a "negritude"?
Vamos ter de afastá-la, mesmo em dias de trovoada e temporal... como hoje!!

lamia disse...

A sul, um porto.
A norte, uma viagem.
Longa ou curta.
Com ou sem regresso ou resgate.

tcl disse...

É. Esta palavra "negritude" aparece muito nos teus textos, Pedro. Vê o Sol :-)

Anónimo disse...

Maravilhoso.
Toda eu tremo ao ler-te.
Sinto-me agradecida por ler o que escreves.
Estou encantada.

Serena

Pedro Viegas disse...

Caros Amigos
A "negritude" é texto e é vida, infelizmente. E na realidade os meus textos focam muitas vezes o lado amargo da vida. Não que eu goste nem que o pratique, mas que o vejo.

Obg pelas V/ visitas e pelo V/ incentivo.

antonia disse...

Pedro, me vi inteira no teu texto. Não sei como, mas consegues isso, a cada um deles...
Quanto a "negritude", para mim ela é a morte e essa levou o meu amor a tiracolo, já faz algum tempo.
Ah, e quanto a "esqueçer de mim", tenha a certeza, tem vezes, que só assim prá continuar aqui.