27 maio, 2008

NO INTERIOR DO MEU INTERIOR












Gosto de te ter aqui por dentro
Remexendo pelas veias, tocando na pele e entoando acordes por mim.

Gosto quando me procuras pelo cheiro, me encontras pelo cheiro
e me queres pelo cheiro.

Gosto quando sinto que te sinto

Gosto quando o teu tempo tem o meu tempo, o teu sol os meus raios a tua
chuva as minhas gotas, e a tua nuvem o meu cinzento.

Gosto quando tens segundos nas minhas horas e tardes nas minhas noites.

Gosto do teu vagar na minha pressa a minha escova no teu cabelo e o meu gel no teu corpo.

Gosto do cheiro do teu perfume na curva do meu pescoço e do brilho do teu olhar no branco dos meus dentes.

Gosto da eternidade em cada sorriso que me lanças e da peça que procuro no puzzle que é teu

Gosto quando semeias palavras e nascem frases inebriantes

Gosto quando me procuras porque me queres e me queres porque me procuras

Gosto de te ter aqui por dentro, entre canais e conjugações,
e do amor que imagino na rapidez do teu olhar.

19 maio, 2008




Quero levar-te a paragens longínquas, perto de tudo e de nada.
Onde o nada não esteja, nem que tudo aconteça.

Preciso ter-te em mim, sempre pronta no meu pensamento,
Mesmo na angústia e tormento

e em porções de pedaços de ti
por cada pedaço de mim.

Quero ter-te sem que saibas, mesmo após o raiar ou durante o crepúsculo,
por baixo da macieira no lugar do sol,
encostado à sombra, à beirinha do mar.

Quero ter-te sem que saibas, mesmo agora, ontem e durante,
em interlúdios musicais de fato curto ou completo,
num passo decerto imperfeito, como eu.

Quero ter-te comigo ou perante mim
Por um segundo ou manhã,
tarde ou raiar da aurora,
em noites longas cobertas de sal do suor que emanamos,
como o amor que sobressai num relance de olhar
e martiriza como a nau das descobertas.

Quero levar-te a paragens longínquas… em mim, como eu em ti,
Uno e indivisível, de cheiros e gosto e amor aos molhos
Numa dança inventada a dois, em rodopios inebriantes
como loucos numa noite só.

04 maio, 2008

















Sento-me em lugares vazios e isolados, ausente do mundo.

Entristeço em prolongadas mágoas, revoltas interiores que não posso delegar.

-…” olhe faz favor, … psst,,,pssst… importa-se de ficar aqui com esta mágoa e esta revolta, que vou ali e já venho?”…

Ultrapassei o prazo de validade na paciência.

Não assimilo letras mortas, já só vejo cores e versos rimados. Gosto de abraçar lágrimas e apertar sorrisos contra o peito.

E este sou eu, ausente de mim, a verter letras em cadernos sem pauta em partituras de música escondida.

Eu que, eternamente espero. E que na espera, padecendo, empalideço num tempo longo sem regresso.

E suspiro, definindo contornos dos olhos que me lêem na alma e sugam o sangue na carótida direita após o abraço leve no pescoço.

E vais nutrida de mim, em corpo e alma, que não coração.

Inventas eufemismos e gestos, matando-me nas lâminas dos dias que correm, queimando-me na fogueira dos medos.
Já estou cansado de lutas e os sulcos na pele como que esculpido na madeira do tempo, casca envelhecida.

Fico ausente do mundo e de mim, absorto em pinturas que memorizo e leituras que defino prioritárias.

Do sangue que me tiraste em transfusões sucessivas, enquanto brincavas de “Sherazade” em seduções de mil noites de mil anos e da tua mão ancorada na minha enquanto desfalecia, para retornar breve.

E olho a vida de perto, ansiando que o teu olhar encoste na minha alma, num curto-circuito sintonizado.

-…” faz favor, … psst,,,pssst… importa-se de ficar aqui com a mágoa que volto já??”…










O barco no ancoradouro batido por marés, espumando sem nexo.

Partir era um segredo guardado entre vinhedos e árvores floridas como suave a tua voz.

Olhava-te e recolhia imagens, contos, histórias, marcas sem tempo e o tempo de te olhar de novo.

Vivíamos sufocados pelas margens deste rio que nos abraçava e afagava quando nos amávamos, pé dentro dele e corpo boiando um sobre o outro, num misto de dança e navegação.

Caminhávamos nessa margem faz tempo, dias secos e o teu cheiro a flores de magnólia.

Digerias mal este mundo sem rosto nem culpa. Falsas almas, um agrado permanente aos outros que não a nós. Peles vestidas de outros que não a nossa, ideias perfeitas para outros que não as nossas.

Vivíamos a vacilar entre o ser e a razão, entre o ter e a paixão, dentro de muros, falsos como judas, e tu, banhada pelo rio que nos beija o final de tarde, com cores de Minho verdejante e foguetório que embaraça barcaças presas a amarras de vida.

Perco-me no colorido das tuas palavras e resgatas paixão na masmorra da minha insegurança.

São suaves os encantos maduros, mas intensos os beijos que trocávamos num batom vermelho ofegante.

Desnorteias veias que latejam, desordenas sentimentos quando enrolados na margem de um rio que teima em passar.

Bordamos ao relento, despidos de roupas e preconceitos, orvalhos húmidos que nos confundem,

Arrelio a tua boca, toco-te os lábios em conjunções lascivas, agitas a floresta que te habita e ritmas num feitiço raro, em dedos trôpegos e pernas que espreitam o céu.