04 maio, 2008











O barco no ancoradouro batido por marés, espumando sem nexo.

Partir era um segredo guardado entre vinhedos e árvores floridas como suave a tua voz.

Olhava-te e recolhia imagens, contos, histórias, marcas sem tempo e o tempo de te olhar de novo.

Vivíamos sufocados pelas margens deste rio que nos abraçava e afagava quando nos amávamos, pé dentro dele e corpo boiando um sobre o outro, num misto de dança e navegação.

Caminhávamos nessa margem faz tempo, dias secos e o teu cheiro a flores de magnólia.

Digerias mal este mundo sem rosto nem culpa. Falsas almas, um agrado permanente aos outros que não a nós. Peles vestidas de outros que não a nossa, ideias perfeitas para outros que não as nossas.

Vivíamos a vacilar entre o ser e a razão, entre o ter e a paixão, dentro de muros, falsos como judas, e tu, banhada pelo rio que nos beija o final de tarde, com cores de Minho verdejante e foguetório que embaraça barcaças presas a amarras de vida.

Perco-me no colorido das tuas palavras e resgatas paixão na masmorra da minha insegurança.

São suaves os encantos maduros, mas intensos os beijos que trocávamos num batom vermelho ofegante.

Desnorteias veias que latejam, desordenas sentimentos quando enrolados na margem de um rio que teima em passar.

Bordamos ao relento, despidos de roupas e preconceitos, orvalhos húmidos que nos confundem,

Arrelio a tua boca, toco-te os lábios em conjunções lascivas, agitas a floresta que te habita e ritmas num feitiço raro, em dedos trôpegos e pernas que espreitam o céu.

2 comentários:

Anónimo disse...

Não costumo transcrever palavras de ninguém. Mas este texto é de tal forma belo que só me ocorre escrever algo que alguém já pensou: "Na afinidade da nossa humanidade, somos todos vulgares. Na afinidade da nossa divindade, somos todos extraordinários."

E o extraordinário é que pelo espírito nos unimos, partilhando sensações e ideias!

olhos grandes disse...

"Vivíamos sufocados pelas margens deste rio que nos abraçava e afagava quando nos amávamos, pé dentro dele e corpo boiando um sobre o outro, num misto de dança e navegação."

"Bordamos ao relento, despidos de roupas e preconceitos, orvalhos húmidos que nos confundem"

Duas frases especialmente felizes num texto muito conseguido.

Parabéns por este post.