20 junho, 2008






Beijou-a três vezes sem conceder desejo.

Abarbatou-lhe um abraço destemido, e contou-lhe algo que tinha em mente vai para dois anos.

Ela corou, e ansiosa sufocou num caleidoscópio de sensações.

A lua crescente dançava libertina num emaranhado de emoções.

Viam-se raramente entre distâncias e inquietudes, mas nunca deixaram de se sentir um no outro.

Ele mais intenso, ela mais envolvente, como fogo que dissipa solidão.

Eram sacro e profano. Debicavam frases contidas entre dentes resplandecendo seiva e orvalho.

Beijavam-se de olhos abertos para percorrerem os contornos do rosto como leitura em Braille esquecidos de tempos mortos ancorados num porto qualquer.

Restava a capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio... um silêncio quase perfeito.

O silêncio dos amantes, nessa faculdade incoercível de sonhar.

O vento empurrava as folhas no sentido contrário ao dos olhares que se perdiam no deslumbre do momento.

Tentou de novo beijá-la, mas quando reparou, restava o sonho...

Inquieto, profundo, sarcástico, cruel,

Refaz-se desfeito olhando as vagas revoltas do mar da Fuzeta.

Renascerá certamente na sétima onda da sétima vaga, beijando-a de novo sem conceder desejo.

05 junho, 2008

O meu Amigo...!












Andam aí umas figurinhas patéticas de rapapé, que lambisgóias, julgam ter o mundo na mão e um homem na outra...

Isto a propósito de um amigo que anda a "bater mal" (agora me lembro que ele nunca bateu bem...), porque uma dessas insensíveis criaturas de poleiro, arrebatou-lhe coração, alma, e bolsos.

Ok, ela era um modelito, talvez mais um avião, mas aquele tipo nunca se contentou com um simples Fiat 500...

Eu cá, quero um amor de armas. Revolucionário.

Daquelas de "estrafegar" tudo na proporção do tempo que levamos a limpar uma Kalashnikov ou uma G3.

Daquelas tipo "Tomb Raider", arma no coldre, amor num abraço e arrebatador despertar dos sentidos. Aquele amor que não caia no comodismo nem o comodismo se incomode com ela.

Aquela que mesmo na maior das refregas, na luta titânica, no incomensurável ataque bélico, seja capaz de me chamar, para lhe passar o creme esfoliante.

Essa que me arranha as entranhas, que me espreita a garganta e com um simples toque na cavidade me exalta freneticamente o coração, passando de uma arritmia incerta para um bater compassado, como mão de cirurgião.

Quero socializar-me com ela, aculturar-me com ela e trocar experiências cientificas no maior arranha-céus do mundo, como se o mundo fosse um metro quadrado em volta.

Agora sim, estaria na penumbra da vida e na indiferença dos olhares como qualquer mortal que se preze.

Com este amor, comprava um terceiro-direito em Xabregas e volteava em danças de lençol, numa distância entre o Cristo-Rei e a Ponte sobre o Tejo.

O meu amigo está recuperado, apesar das meninges atabalhoadas.

Deixou-se de criaturas imberbes da Linha com geminações de sítios brasileiros que até de pronunciar faz doer o céu da boca.

Eu faço-me feliz.

Entre o Azerbaijão e a Arménia, o Kazaquistão e o prémio Pullitzer e uma espingarda de ponta com uma ponta de cair p´ro lado.

Eu e o meu amigo vamos morrer com um sorriso, outros ficarão com rugas na alma e fechos no coração.

... Deixá-los,pobres criaturas...!

01 junho, 2008

Loucuras













Se conseguir saltar três lanços de escada antes que a vizinha abra a porta,

Se conseguir cruzar os ladrilhos pretos sem tocar os brancos numa dança sem par,

Se voltar a por gravata vermelha em vez da azul que já tinha tirado

Se pela enésima vez perguntarem porque não ponho açúcar no café

Se o autocarro 45 não vier atrasado mais do que 2 minutos e 35 segundos

Se o comboio não apitar 3 vezes

Se na sexta-feira ao final da tarde o “Tarzan” do 4ºesqº não vier à varanda em tronco nu.

Se o “bolinhas” não me cheirar os sapatos e não esfregar o focinho nas calças.

Se a Dondoca Graziela Brasileira, não puxar a camisola até se ver a cicatriz do apêndice.

Se o “black” da frente não soltar decibéis indecifráveis enquanto lava e esfrega o carro pela segunda vez consecutiva.

Se conseguir ziguezaguear por entre carros estacionados em cima dos passeios e saltar poças de água sem me molhar,

Se a Viscondessa tagarela com 78 anos me voltar a cumprimentar e deixar ficar a mão esfregando-a na minha em gestos de prazer inquietantes… (os dela…)

Se na padaria me voltarem a dizer que já não cozem pão… mas vendem pizzas…

Se a matrona gordinha de piercing na língua voltar a usar as calças abaixo do limiar do rego do cu e as camisolas acima do umbigo


... Enlouqueci de vez?...