20 junho, 2008






Beijou-a três vezes sem conceder desejo.

Abarbatou-lhe um abraço destemido, e contou-lhe algo que tinha em mente vai para dois anos.

Ela corou, e ansiosa sufocou num caleidoscópio de sensações.

A lua crescente dançava libertina num emaranhado de emoções.

Viam-se raramente entre distâncias e inquietudes, mas nunca deixaram de se sentir um no outro.

Ele mais intenso, ela mais envolvente, como fogo que dissipa solidão.

Eram sacro e profano. Debicavam frases contidas entre dentes resplandecendo seiva e orvalho.

Beijavam-se de olhos abertos para percorrerem os contornos do rosto como leitura em Braille esquecidos de tempos mortos ancorados num porto qualquer.

Restava a capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio... um silêncio quase perfeito.

O silêncio dos amantes, nessa faculdade incoercível de sonhar.

O vento empurrava as folhas no sentido contrário ao dos olhares que se perdiam no deslumbre do momento.

Tentou de novo beijá-la, mas quando reparou, restava o sonho...

Inquieto, profundo, sarcástico, cruel,

Refaz-se desfeito olhando as vagas revoltas do mar da Fuzeta.

Renascerá certamente na sétima onda da sétima vaga, beijando-a de novo sem conceder desejo.

6 comentários:

Anónimo disse...

Você anda muito silencioso... mas quando escreve, vale todo o tempo do mundo.
Parabéns.

olhos grandes disse...

pois é, anónimo. ele precisa da inspiração das suas musas privadas. como rita lee. (há quê, uns 20 anos?)

antonia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
antonia disse...

JP

Foi inspiração em excesso.

abraços

Paula disse...

A inspiração nunca pode ser em excesso...principalmente numa alma poética!
A poesia é universal!
Quando se escreve é para todos! E as múltiplas interpretações fazem parte!
São estados de alma comuns, mas que nem todos têm capacidade de expressar!

antonia disse...

pois é, paula, eu estava me referindo, não ao belíssimo texto do JP, mas ao meu comentário, que eliminei por achar excessivamente inspirado.