17 julho, 2008




Boas sementes dão bons frutos – dizia a minha avó.

O nosso Mundo era também redondo, e na nossa inquietude abraçávamos com a força possível, os poucos quilómetros em que nos movíamos.

No jogo da casquinha, da bola de trapos, da bicicleta que comprávamos aos pedaços, com peças a cinco escudos e o quadro com a ultima moda de guiador à "corredor".

Adolescente inquieto em permanente incerteza, que pairava pelos recantos da vida, refugiava-se em cafés, vulgo literários, desenvolvimento intelectual em crescimento precoce, feito homem, atirado Europa fora em gloriosas jornadas desportivas.

A Morte assombrava a compreensão em silêncios mal resolvidos.

Era o tempo dos U2 e dos Pink Floyd.

Encostos de face e rubro encanto de meninas em garagem ao som dos "Dark Side of the moon" num nunca acabar de “slow”.

Vivia com memórias passadas em páginas amarelecidas pelo tempo, dando passos cadenciados.

Um cheiro a manjerico nas Fontainhas engalanadas e corrupios frenéticos de povo de mão dada da Ribeira até á Foz.

Toalha deitada na areia para merecido descanso. No Porto, naquele Porto, da noite se faz dia, martelinhos estalam no ar e o alho de porro exterminado, vai passando por cabeças despidas.

Brincava-se a desoras em jogadas intermináveis e bandas de garagem com os "Mini-Pop" a saltarem com "Jáfumega" a viajarem de "taxi".

E nos nossos “territórios” contávamos aventuras de outras paragens onde Cavaleiros e Dragões, Princesas e Castelos habitavam uma inquietude perfumada que nos despertava para realidades distintas e jamais conseguidas.

Ao deitar, ainda sobrava tempo para um aceno ao céu, na vã esperança do arco-íris nos trazer uma Dulcineia, galopando por entre trevas, e que arrojadamente nos transportasse rumo ao infinito.

Faziam-se tratos de sangue com picadelas de agulhas subtraídas à caixa da costura e desembainhávamos espadas cruzando-as numa Irmandade de Alma, partindo em busca de tesouros feitos de vento e pó e Amoras silvestres.

Éramos intrépidos heróis de palmo e meio com um mundo feito de arroz doce, gasosas tipo pirolito e cinemas no Terço a dez tostões.

Eram tempos de corridas desenfreadas em sonhos de balões verdes que povoavam o país em rádio-novelas faiscantes.

Era um tempo de bem-querer por bem amar ecoando risos semeados por campos de trigo amanhados.

E assim regressávamos ao Reino, tantas vezes exaustos e outras tantas felizes, acolhidos aqui e ali por sopas de couve verde em serenos raspanetes… - Boa semente dá bons frutos… dizia a minha Avó.

A imaginação e o Mundo eram nossos…a amizade e a ternura, para sempre!

08 julho, 2008













Escrevo entre dois tempos, o passado e o futuro.

Entre a vontade e o desejo, a necessidade de transferir para o papel a tinta que me agita a memória. Entre o dever e o ter.

Fecho-me em transtornos tais como se as frases escritas me vestissem a alma.

É verdade que tento refinar este vício doido.
Preciso de descanso e paz de espírito para saborear melhor a junção das palavras para que as frases tenham algum sentido.
Não me faz sentido realmente nenhum, escrever apenas uma frase solta como “a do homem que caiu porque lhe escorregou o pé ao subir no autocarro 27 para Belém”.

Sei da minha falta de tempo, da necessidade de preparar, da pouca habilidade, apenas ultrapassada por um ou outro momento em que quase me sinto como uma espingarda semi-automática. Sai tudo engatilhado.

E quando falo nos escritos que aqui trago à liça relembro um Velho Senhor na primeira mesa do café “Bom-Dia” no Porto, fazendo textos melodiosos nos guardanapos de papel.
Ainda hoje quando quero lembrar qualquer coisa, puxo de um pedaço de papel e escrevo ou rabisco ou gatafunho… nem sei bem.

Acho para mim, que esse Velho Senhor, saboreava a infância e juventude no que escrevia, pois entre sorrisos marotos, ia gulosamente lendo entre espaços o que a mão vertiginosamente lançava.

Curiosamente, já naquele tempo deixava as horas escorrerem pela quietude do espaço e olhava enternecido o rabiscar de sabedoria feita.

Quando comecei a escrever, já aprendera que as letras e palavras eram combinações infindáveis e constituíam uma das melhores formas de transmitir emoções, inquietudes, poesia e amor.

E tento, amparado em livros que vou depenicando aqui e ali, por entre almoços a correr e fins de tarde mal amanhados, pelo meio de rabiscos que entrelaço em textos banais, entreabrir um sorriso maroto e guloso.

Transporto desde essa época, a imagem lúcida, serena, de enorme sapiência, nos encontros fugazes que aconteciam em seu redor, no qual se debatia Régio, Torga e um seu amigo de nome Eugénio de Andrade.

As tertúlias percorriam os dias e as noites, terminando na medida exacta do tempo de cada um, recomeçando num qualquer outro dia numa qualquer hora.

Quantas vezes a última “conversa” saltava por entre voltas à Praça Velasquez, em intermináveis maratonas pedestres.

Um dia, o Velho Senhor, pousou na mesa a quantia necessária para pagar o café, ergueu-se e experimentou olhar de frente o mundo em movimento.

Sorriu de novo.

Eu senti que ele transportava as sete cores de um arco-íris glorioso.