08 julho, 2008













Escrevo entre dois tempos, o passado e o futuro.

Entre a vontade e o desejo, a necessidade de transferir para o papel a tinta que me agita a memória. Entre o dever e o ter.

Fecho-me em transtornos tais como se as frases escritas me vestissem a alma.

É verdade que tento refinar este vício doido.
Preciso de descanso e paz de espírito para saborear melhor a junção das palavras para que as frases tenham algum sentido.
Não me faz sentido realmente nenhum, escrever apenas uma frase solta como “a do homem que caiu porque lhe escorregou o pé ao subir no autocarro 27 para Belém”.

Sei da minha falta de tempo, da necessidade de preparar, da pouca habilidade, apenas ultrapassada por um ou outro momento em que quase me sinto como uma espingarda semi-automática. Sai tudo engatilhado.

E quando falo nos escritos que aqui trago à liça relembro um Velho Senhor na primeira mesa do café “Bom-Dia” no Porto, fazendo textos melodiosos nos guardanapos de papel.
Ainda hoje quando quero lembrar qualquer coisa, puxo de um pedaço de papel e escrevo ou rabisco ou gatafunho… nem sei bem.

Acho para mim, que esse Velho Senhor, saboreava a infância e juventude no que escrevia, pois entre sorrisos marotos, ia gulosamente lendo entre espaços o que a mão vertiginosamente lançava.

Curiosamente, já naquele tempo deixava as horas escorrerem pela quietude do espaço e olhava enternecido o rabiscar de sabedoria feita.

Quando comecei a escrever, já aprendera que as letras e palavras eram combinações infindáveis e constituíam uma das melhores formas de transmitir emoções, inquietudes, poesia e amor.

E tento, amparado em livros que vou depenicando aqui e ali, por entre almoços a correr e fins de tarde mal amanhados, pelo meio de rabiscos que entrelaço em textos banais, entreabrir um sorriso maroto e guloso.

Transporto desde essa época, a imagem lúcida, serena, de enorme sapiência, nos encontros fugazes que aconteciam em seu redor, no qual se debatia Régio, Torga e um seu amigo de nome Eugénio de Andrade.

As tertúlias percorriam os dias e as noites, terminando na medida exacta do tempo de cada um, recomeçando num qualquer outro dia numa qualquer hora.

Quantas vezes a última “conversa” saltava por entre voltas à Praça Velasquez, em intermináveis maratonas pedestres.

Um dia, o Velho Senhor, pousou na mesa a quantia necessária para pagar o café, ergueu-se e experimentou olhar de frente o mundo em movimento.

Sorriu de novo.

Eu senti que ele transportava as sete cores de um arco-íris glorioso.

2 comentários:

antonia disse...

JP
Entreabres bem mais que sorrisos, entreabres sonhos. Por isso visito teu blog sempre que posso. Aqui encontro as "palavras" que preciso para viver melhor!
bjs

PATIVIEGAS disse...

Assim como tu transportas certamente todas as palavras de um dicionario Lindo,que tão bem tranmites nestes teus fantásticos textos.
Adoro lê-los... Que orgulho e um pouquinho de inveja! :-)
Bjinhos e parabens aos meus priminhos que estão também de parabéns estou muito orgulhosa deles.
Boa sorte e juizo aos dois :-)