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A mostrar mensagens de Agosto, 2008

UMA SÓ PELE

Gosto de sentir a tua pele reposta na minha e a minha boca encostada na tua… sabendo-te os segredos de cor… e pelo cheiro ler-te o pensamento como pelas batidas do coração o peso ou leveza da alma.

Agarrava-me a ti e a tudo o que provinha de ti, numa angústia indecifrável que nem as sete vagas em marés turbulentas me impediam.

Quando me lançavas olhares de reprovação ou qualquer frase a destempo, já eu me sentia atraído a lançar-me como sorvete na tua boca e beijá-la como sem tempo.

Gostava de ti numa meia-lua, um quarto-crescente ou lua nova.

Deixavas a marca dos teus beijos nos meus lábios dos teus dentes na minha pele e da tua pele na minha boca como uma marca de água muito leve e translúcida, para não ser possível reproduzir.

Em cada momento nosso, de laços e abraços, numa comunhão de afectos ritmados, sabíamos da debilidade do tempo e da elegância dos dias, como da falsidade das horas.

E passaste a debitar palavras cansadas, desmitificadas, inseguras, rebeldes e traiçoeiras.

Co…
Vivia-se num mundo de suspeições sobrenaturais.

A população saía de casa, saltitando num pé-coxinho obediente ao primeiro passo.

Era assim há séculos,

Os códigos da aldeia obrigavam a rezas em Domingos de Quaresma, passeios com o gado pelas ruas pintalgadas de tinta branca e a bênção do Padre Zé, omnipresente personagem das peregrinações e romarias.

A Capela brilhava de velas acesas em volta e honra do Senhor, e a música ecoava por entre as árvores frondosas.

Enquanto uns rezavam ao Espírito Santo, outros batiam o pé musical, às escondidas de beatas enfurecidas...

As contas do terço deslizam entre mãos calejadas enquanto percorrem de joelhos três voltas prometidas.

O cobranto, espinhela caída, o mau-olhado e os espíritos que vagueiam, eram discutidos entre ladainhas, enquanto o Padre Zé, espreitava por entre os jeitos e trejeitos da Cristina...... Tina para os amigos...!

Os garotos, filhos de fiéis e outros que se juntavam ao grupo, jogavam à cabra-cega, às escondidas e ao futebol com bol…
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A rapariga... valha-me Deus, era pouco mais que nada.

Desdentada, cabelo puxado ao lado e pequenez no tamanho e na limpeza… talvez por isso tenha reparado nela.

Mas mantinha aquele ar de auxiliar de acção administrativa/sectorial, calça de ganga afunilada sobre bota de cano alto, mais a camisinha desbotada e desabotoada sob peito escondido em costelas flutuantes, e um lencinho de cetim... Toda uma personagem de fantasia.

Ar enfático, ponderação ruminante, sabedoria solta em cérebro brando, de meninges apertadas como pé 43 em sapato 39.

Sorria (?) para a criança que trazia a tiracolo com meio cigarro encostado a dois únicos dentes que lhe sobravam da boca escarlate.

As gengivas escurecidas não conheciam escova nem os dentes mortiços e únicos, um belo par de “marjoretes” ostentando “cavalguices” desenfreadas em urros estridentes.

A limpeza não abundava, dentista nem pensar, trocando o tempo que tinha por visitas a centros comerciais, compra de bugigangas insubstituíveis, no meio dos muitos i…

Vai onde o meu beijo te leva...!

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Adorava saber pintar as sete partidas da vida e as catorze despedidas em 24 esperas infinitas.

Adorava saber das telas, das cores, das molduras exactas do teu corpo e do teu infinito sorriso.

Sei das batalhas que ganho e das guerras em que me perco de todo.

Estou inebriado nos teus dias sem prazo de validade, sem começo nem fim, até um dia... quem sabe.

Estou inquieto... para te ver doce e sublime, repleta, composta e unica, fotografada envolta em mim, com feixes luminosos em arco-íris dentro de ti.

Já experimentei novas telas de cores e troquei-me entre as 9 e as 14,
perdendo-me indefinidamente na proporção do caos em que me deixas

Sou labareda no deserto e tu um oásis deslumbrante com um interminável pôr-do-sol.

Sei também do tempo que não temos, mas peço-te que vás até onde sintas que o meu beijo te leva.

Desfribilha a alma até encontrar um sentido, uma espécie de obscura graça... talvez me encontres, quem sabe meio perdido ou por inteiro...

Talvez demore o tempo da procura no encontro que…
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A escuridão invadiu-me.

Primeiro engoliu as pernas, o tronco, os braços, depois, todo o meu ser.
Por fim, dragão insaciável, tragou-me a identidade.

Como D. Quixote moldei castelos efémeros iluminados pelo calor brando do entardecer, na vã esperança de me encontrar.

Traçaram rotas, desenharam no azul do céu e sulcados mares, jamais ressurgi.

Foram muitos os gestos e desejos, tratados e compêndios,palavras gritadas, gestos sufocados, fábulas de desejo e de paixão.

Fui deixando lastro e flor, pisando o limiar de todas as mortes, para que teus olhos decifrassem cadências de passos e recados.

Eram rastos únicos de alguém em mim, que duvido reconhecer.

Recostei-me a um ponto de fuga sem saudade, nos abraços das Searas Alentejanas
e percorri com dedos inquietos espaços de mapas reflectidos na memória.

Desenhei para reter imagens, perdido entre mil cores de mil angústias e mil desejos.

E penso-te como um só corpo recortado na minha pele aguardando teu gesto doce de Dulcineia, indicando-me caminhos e…

Alguma vez saberás de mim?

Alguma vez saberás de mim?

Já não habito o quarto esquerdo fronteiro ao jardim onde brincavas, os triciclos desfizeram-se no tempo e as bolas já são de gomos verdadeiros.

As primeiras letras, os primeiros livros, primeiros poemas e primeiros beijos que nasciam num improviso delirante com música perfumada em pano de fundo.

Mais tarde os primeiros cafés ao pôr-do-sol marginal.

O Sudoeste onde nos banhávamos e arrepiávamos de tempos musicais e as tuas mãos que me enlaçam quando me resgatas.

Na padaria da rua já não se coze o pão, restaurantes fecharam, o café é hoje um prédio em ruínas e o tempo já não me guarda espaço.

Tinhas as maçãs do rosto desenhadas e perfil como estátua de deusa grega.

As copas dos plátanos e dos choupos escondem pracetas calcetadas e uma rotunda surgiu do nada.

Esventraram o jardim e o Metro de superfície não me traz o teu cheiro como antes.

Perdemo-nos numa cidade que se repete intemporal.

Alguma vez saberás de mim?

Agora sei que me dói quando não estás perto de mim… senti…
Os nossos encontros não eram lugares comuns.
Fazíamos daquele espaço um lugar único, inacessível a tantos, comum a muitos.

Em redor do nosso canto, duas pastelarias e uma tipografia com aquelas Nixdorf velhinhas de canhão enorme com barulho estridente para trabalho ritmado.

O restaurante tinha fechado e a agência de viagens voou para outras paragens.
O tempo foi passando sem atropelos, e não conseguimos ser felizes.
Nem ali nem em lugar algum. Separamo-nos pouco depois.

Razão? Para que interessam as razões, se é que existe alguma razão...

Interiores de agitação, momentos fugazes de felicidade, a doçura do sorriso e o andar inebriante, que se foi perdendo.
Sobrava pouco do que ainda tinha.
Eram tempos a destempo, inseguros.

Tinha o meu sol em Capricórnio e as costas voltadas à lua. Nem o tempo ficou igual…
Aliás, deixei de usar o tempo. Nem relógio, nem agenda. Instrumento algum me faz viver com ele.

O caminho é o mesmo, nesse aspecto nada mudou.
Vivo no sonho. Ele habita-me os passos e pesa-me …