Alguma vez saberás de mim?




Alguma vez saberás de mim?

Já não habito o quarto esquerdo fronteiro ao jardim onde brincavas, os triciclos desfizeram-se no tempo e as bolas já são de gomos verdadeiros.

As primeiras letras, os primeiros livros, primeiros poemas e primeiros beijos que nasciam num improviso delirante com música perfumada em pano de fundo.

Mais tarde os primeiros cafés ao pôr-do-sol marginal.

O Sudoeste onde nos banhávamos e arrepiávamos de tempos musicais e as tuas mãos que me enlaçam quando me resgatas.

Na padaria da rua já não se coze o pão, restaurantes fecharam, o café é hoje um prédio em ruínas e o tempo já não me guarda espaço.

Tinhas as maçãs do rosto desenhadas e perfil como estátua de deusa grega.

As copas dos plátanos e dos choupos escondem pracetas calcetadas e uma rotunda surgiu do nada.

Esventraram o jardim e o Metro de superfície não me traz o teu cheiro como antes.

Perdemo-nos numa cidade que se repete intemporal.

Alguma vez saberás de mim?

Agora sei que me dói quando não estás perto de mim… sentir-te o coração saltar pelas veias e a jugular desenfreada com o meu coração perto do teu.

Os pombos já não habitam estes lados, troquei o Sudoeste por Paredes – de-Coura e o pão nasce vadio por entre bolos e meias de leite.

Nesta cidade onde moramos, o Rui já não canta o Chico Fininho mas lança Perfume num dueto com intervalo.

Alguma vez saberás de mim?

Comentários

antonia disse…
Nostalgicamente lindo. Valeu o tempo que ficaste sem postar. Estava com saudade, não deixes de escrever. Abraços
Anónimo disse…
foi lindo...parece que ainda há poetas

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