03 agosto, 2008




A escuridão invadiu-me.

Primeiro engoliu as pernas, o tronco, os braços, depois, todo o meu ser.
Por fim, dragão insaciável, tragou-me a identidade.

Como D. Quixote moldei castelos efémeros iluminados pelo calor brando do entardecer, na vã esperança de me encontrar.

Traçaram rotas, desenharam no azul do céu e sulcados mares, jamais ressurgi.

Foram muitos os gestos e desejos, tratados e compêndios,palavras gritadas, gestos sufocados, fábulas de desejo e de paixão.

Fui deixando lastro e flor, pisando o limiar de todas as mortes, para que teus olhos decifrassem cadências de passos e recados.

Eram rastos únicos de alguém em mim, que duvido reconhecer.

Recostei-me a um ponto de fuga sem saudade, nos abraços das Searas Alentejanas
e percorri com dedos inquietos espaços de mapas reflectidos na memória.

Desenhei para reter imagens, perdido entre mil cores de mil angústias e mil desejos.

E penso-te como um só corpo recortado na minha pele aguardando teu gesto doce de Dulcineia, indicando-me caminhos eternos;

Na procura cretina desse amor soprado como água transparente, na curva serena do pescoço, durante o tempo de um segredo...

Sim… é inevitável que me beijes.

3 comentários:

antonia disse...

Acessar o teu blog é que é inevitável. Ótima semana prá vc.

Paula disse...

Mas quem é que se atreve a afirmar que o senhor Pedro Viegas anda pouco inspirado?
Talvez ande mais distraído com a paisagem nostálgica do Alentejo...

Este texto invade-nos os sentidos!

Nelinha disse...

Adorei! Este texto faz qualquer um descer até ao seu interior. Está demais!