UMA SÓ PELE





Gosto de sentir a tua pele reposta na minha e a minha boca encostada na tua… sabendo-te os segredos de cor… e pelo cheiro ler-te o pensamento como pelas batidas do coração o peso ou leveza da alma.

Agarrava-me a ti e a tudo o que provinha de ti, numa angústia indecifrável que nem as sete vagas em marés turbulentas me impediam.

Quando me lançavas olhares de reprovação ou qualquer frase a destempo, já eu me sentia atraído a lançar-me como sorvete na tua boca e beijá-la como sem tempo.

Gostava de ti numa meia-lua, um quarto-crescente ou lua nova.

Deixavas a marca dos teus beijos nos meus lábios dos teus dentes na minha pele e da tua pele na minha boca como uma marca de água muito leve e translúcida, para não ser possível reproduzir.

Em cada momento nosso, de laços e abraços, numa comunhão de afectos ritmados, sabíamos da debilidade do tempo e da elegância dos dias, como da falsidade das horas.

E passaste a debitar palavras cansadas, desmitificadas, inseguras, rebeldes e traiçoeiras.

Com as palavras vieram as ausências de ti e dos espaços, e das perdas em lugares por ti pintados.
E senti-me desmembrado.

A doença que se reflectia, espreitando a espaços por entre olhares perdidos e vagos, sem luz, nem cor.

E ainda e sempre a tua presença que me inebriava…

Relatávamos tudo por gestos e palavras, desenhos ou rabiscos, afectos ou sonos prolongados como duas crianças em corpo de setenta.

Massajavas-me o Ego quando podias, enquanto eu tentava aliviar-te o reumático em ossos aniquilados por frescas manhãs.

E vivíamos serenamente, embevecidos num olhar e numa bolacha Maria num púcaro de chá pelas cinco, na companhia de um Alzheimer qualquer.

E seria assim… eternamente jovens enrugados, serenas criaturas apaixonadas, em gestos repetitivos e descontrolados, que aguardaríamos a chegada daquele que nos abençoaria, por termos vivido sempre ....

... Um, nas imperfeições do outro…!

Comentários

Paula disse…
Mas que amor tão sublime, quando se gosta em qualquer circunstância.

"E seria assim… eternamente jovens enrugados, serenas criaturas apaixonadas, em gestos repetitivos e descontrolados, que aguardaríamos a chegada daquele que nos abençoaria, por termos vivido sempre ....Um, nas imperfeições do outro…!"

Maravilha!

Nem Alzheimer nem o passar do tempo impediria a continuação deste amor!

Quando observo um casal de idosos em gestos carinhosos, é comovedor...
antonia disse…
Qual o critério "daquele", para deixar uns o aguardando com todo o amor do mundo e levando outros... espalhando tristeza e solidão.
É injusto!
Absurda e patéticamente injusto!!

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