31 agosto, 2008

UMA SÓ PELE





Gosto de sentir a tua pele reposta na minha e a minha boca encostada na tua… sabendo-te os segredos de cor… e pelo cheiro ler-te o pensamento como pelas batidas do coração o peso ou leveza da alma.

Agarrava-me a ti e a tudo o que provinha de ti, numa angústia indecifrável que nem as sete vagas em marés turbulentas me impediam.

Quando me lançavas olhares de reprovação ou qualquer frase a destempo, já eu me sentia atraído a lançar-me como sorvete na tua boca e beijá-la como sem tempo.

Gostava de ti numa meia-lua, um quarto-crescente ou lua nova.

Deixavas a marca dos teus beijos nos meus lábios dos teus dentes na minha pele e da tua pele na minha boca como uma marca de água muito leve e translúcida, para não ser possível reproduzir.

Em cada momento nosso, de laços e abraços, numa comunhão de afectos ritmados, sabíamos da debilidade do tempo e da elegância dos dias, como da falsidade das horas.

E passaste a debitar palavras cansadas, desmitificadas, inseguras, rebeldes e traiçoeiras.

Com as palavras vieram as ausências de ti e dos espaços, e das perdas em lugares por ti pintados.
E senti-me desmembrado.

A doença que se reflectia, espreitando a espaços por entre olhares perdidos e vagos, sem luz, nem cor.

E ainda e sempre a tua presença que me inebriava…

Relatávamos tudo por gestos e palavras, desenhos ou rabiscos, afectos ou sonos prolongados como duas crianças em corpo de setenta.

Massajavas-me o Ego quando podias, enquanto eu tentava aliviar-te o reumático em ossos aniquilados por frescas manhãs.

E vivíamos serenamente, embevecidos num olhar e numa bolacha Maria num púcaro de chá pelas cinco, na companhia de um Alzheimer qualquer.

E seria assim… eternamente jovens enrugados, serenas criaturas apaixonadas, em gestos repetitivos e descontrolados, que aguardaríamos a chegada daquele que nos abençoaria, por termos vivido sempre ....

... Um, nas imperfeições do outro…!

2 comentários:

Paula disse...

Mas que amor tão sublime, quando se gosta em qualquer circunstância.

"E seria assim… eternamente jovens enrugados, serenas criaturas apaixonadas, em gestos repetitivos e descontrolados, que aguardaríamos a chegada daquele que nos abençoaria, por termos vivido sempre ....Um, nas imperfeições do outro…!"

Maravilha!

Nem Alzheimer nem o passar do tempo impediria a continuação deste amor!

Quando observo um casal de idosos em gestos carinhosos, é comovedor...

antonia disse...

Qual o critério "daquele", para deixar uns o aguardando com todo o amor do mundo e levando outros... espalhando tristeza e solidão.
É injusto!
Absurda e patéticamente injusto!!