02 agosto, 2008





Os nossos encontros não eram lugares comuns.
Fazíamos daquele espaço um lugar único, inacessível a tantos, comum a muitos.

Em redor do nosso canto, duas pastelarias e uma tipografia com aquelas Nixdorf velhinhas de canhão enorme com barulho estridente para trabalho ritmado.

O restaurante tinha fechado e a agência de viagens voou para outras paragens.
O tempo foi passando sem atropelos, e não conseguimos ser felizes.
Nem ali nem em lugar algum. Separamo-nos pouco depois.

Razão? Para que interessam as razões, se é que existe alguma razão...

Interiores de agitação, momentos fugazes de felicidade, a doçura do sorriso e o andar inebriante, que se foi perdendo.
Sobrava pouco do que ainda tinha.
Eram tempos a destempo, inseguros.

Tinha o meu sol em Capricórnio e as costas voltadas à lua. Nem o tempo ficou igual…
Aliás, deixei de usar o tempo. Nem relógio, nem agenda. Instrumento algum me faz viver com ele.

O caminho é o mesmo, nesse aspecto nada mudou.
Vivo no sonho. Ele habita-me os passos e pesa-me as lágrimas em sorrisos coloridos.
Procuro outros passos noutros sonhos, pois já era tempo de não seguir o trilho
na esperança de te encontrar as pegadas.
Já era tempo de seguir em frente e não fazer círculos e semi-círculos.

Os barcos estão em terra, parados no vento a secar o sal de outras paragens.
Varinas negras que me avisam dos vampiros nocturnos que buscam a presa antes de nascer o sol.
E neste caleidoscópio em que vivo, depois de ti pouco mais haverá.

Dobrados os Cabos da Costa de África, a chegada do Oriente e eu como um Adamastor que sopra noticias sem retorno.
E procuro nos olhos dos outros o teu olhar sem reflexo nem sombra, enfeitiçados.
Vou caminhando no passo do sonho.

Sou resumo, síntese, rascunho. Um quase nada pintado com cores endiabradas nas cordas de uma guitarra. Quase nada.
Desenhador do impossível, bebido de um trago, rasgado num ápice.
Um macho enfeitiçado, um quase mocho a habitar vapores de solidão.

As palavras já não me falam, escondem-se de mim e rodeiam-me habitáculo em flor de desenho insano.
Nós nunca fomos amantes comuns.

2 comentários:

Paula disse...

É sempre com emoção que leio os seus textos.
O tema deste é sempre actual. O relacionamento dos seres humanos é complexo e esconde sempre necessidades individuais que nem o próprio algumas vezes tem consciência.Os "amores" duram pouco, só o tempo de descoberta das expectativas falhadas. Vive-se de ilusões e os sonhos derrotam-nos se não os soubermos separar da vida real.

"Procuro outros passos noutros sonhos, pois já era tempo de não seguir o trilho na esperança de te encontrar as pegadas."

Como esta passagem que escreveu e que saliento, se deve adaptar a tantas situações de vida!

Mas... ninguém é "quase nada". Digo antes que cada ser humano "é tudo" para aqueles, que o amam!

Um abraço de aconchego para ultrapassar "vapores de solidão!.

antonia disse...

Concordo com a Paula. Os "amores" duram pouco, só o tempo de descoberta das expectativas falhadas. O que fazer então? Abrir mão de todas as expectativas? Deixar de sonhar? A vida real, separada dos sonhos é possível de ser vivida? E aí JP?